Rosmaninho e Alecrim pelo chão

Um caminho dourado por Midas, queimando à passagem os pés descalços dos desterrados

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Localização: Porto, Porto, Portugal

Hugo André Barbosa Carvalho dos Santos. Nascido a 15 de Abril de 1978. Curso de Pintura da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Curso de Artes Gráficas da Escola Secundária de Soares dos Reis. Curso de Formação Pedagógica Inicial de Formadores. Curso de Desenho Assistido por Computador como Conteúdo Multimédia. (Dreamweaver, Flash, AutoCad, 3D Studio Max, Photoshop) Bolseiro Erasmus 2000/2001 (Faculdade de Belas Artes do País Basco). Frequentou 2 cursos de verão do CPCIL (Centro Português para a Criatividade Inovação e Liderança). Frequentou 2 Workshops de teatro na FBAUP em 1999 e 2000. Membro da ARGO (Associação Artística de Gondomar) desde 1993. Membro do CCTEG (Centro Cultural de Teatro Experimental de Gondomar).

segunda-feira, julho 12, 2004

Da Ultima Exposição

Munições para um diálogo III
Hugo Santos 2004


(...) Milagres a toda a hora. A vida fervilha por todo o lado. Chuvas de palavras, palavras de creme, palavras de seiva, palavras de semente, palavras de bolas de ping-pong, e ainda cabeças de raquete, cabeças de água, cabeças de líquido, líquido em condensação, evaporando-se, sumindo-se no espaço, deixando de ser, perdendo-se no tempo, reencontrando-se na catástrofe. Há revoluções no mundo a todo o momento. E assim se fazem os verbos: um estado que deixa de ser a todo o instante, de ter sido, passa a ser para vir a ser... e nada é como dantes, sendo o que sempre foi.
(...) Tenta soletrar palavras mas elas enrolam-se na boca como se as estivesse a engolir. São as palavras chiclete. Vêm acompanhadas de um sabor amargo, como se o organismo não quisesse que elas saiam, e dessa forma arranjasse uma autodefesa. Sabem a qualquer coisa ácida e queimam como ferro em brasa. A saliva é inexistente, e a boca está muito seca. Os dentes trilham-se mutuamente como se estivessem em guerra. A língua tem espasmos que a paralisam. Os pensamentos parecem estar condenados a existir unicamente na sua mente. Não se materializam.
(...) Ele vem aqui mais uma vez despejar palavras pelos dedos fora, pelos poros da mão, do corpo, da cabeça, das bolas de ping pong que andam sempre a saltitar por dentro, a tentar sair, chegar ao outro lado, jogar. Não consegue reter-se numa linha, nem num plano e infelizmente muito menos num ponto transparente. Relatos de coisas, coisas relatadas a medo, dedos de agulha de gira discos. Cantar por dentro para dentro não é solução. Cantar de dentro para fora não é viável. Há sempre qualquer coisa pelo meio, um obstáculo, uma regra qualquer que se impõe na não-comunicação. Cala-se a boca mas apenas a boca. Formigam centenas e centenas de verbos num único momento aparentemente parado e nada se mantém como era e nada será como é e tudo assim paira pelo espaço numa convergente vontade de união. Faltam-lhe engenho e arte, faltam-lhe tempo e vontade, falta-lhe parar no tempo como os novos efeitos cinematográficos. Faz falta um sofá, um sítio de repouso, uma cama ampla do tamanho da casa, uma casa cama, uma cama casa, um espaço onde se está em paz, um colo em forma de cama, uma cama em forma de colo, um cobertor quente como um corpo, um corpo cobertor. Lá longe planam pássaros alheios a tudo isto, noutras planícies, noutras terras distantes mas o tempo em que existem é o mesmo, um e só momento em movimento, um só corpo enroscando-se em si próprio, voltando ao ventre materno, frase feita. E ainda, ouve-se: If you're travelin' in the north country fair Where the winds hit heavy on the borderline Remember me to one who lives there She once was a true love of mine. Vive de ilusões construídas para encantar os sonhadores como as sereias encantam os navegadores. A arte é uma roda de rato onde se enrolou e por lá ficou. É semelhante a uma roleta mas não tem apenas números mas também palavras e cheiros e cores e sons e tudo o mais que se sabe existir. Um mundo na sua plenitude de infinitas aparências. Há ali um balde cheio de palavras que está furado. É por lá que deixa escapar o que desesperadamente tenta dizer. O tempo não pergunta quantas vezes se repete. E a catástrofe ainda não veio.

...a catástrofe ainda não veio.


...ainda não veio.



...não veio.




...veio.


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(in Entre o Nada e a Catástrofe, um livro a sair brevemente...)