Manifesto da Revolta
Têm-me pedido ao longo dos anos para ter calma, para não ser egocêntrico, para ver as situações de forma mais alargada e abrangente, para não me queixar porque há sempre quem esteja pior. De facto há quem não tenha quase nada e seja feliz. Mas não podemos pedir a santidade a todos os homens. Dizem ainda que é apenas um problema de perspectiva, uma forma de olhar que talvez esteja distorcida. Devo por isso usar uma lupa qualquer de correcção. Sinto todo esse peso, toda essa possibilidade de contornar as questões, e no entanto nada conseguir fazer para as mudar. Serei apenas fraco? Estarei rendido? Porque me queixo eu?
Vou tentar explanar o que tenho para dizer, que é sempre muito em relação ao que pouco que chego efectivamente a dizer. A narrativa tenta ser coerente, mas não consegue, tenta ser cronológica, mas pode muito bem não o ser
Hugo. 8 anos de idade. Miúdo algo irrequieto, dado às artes, gosto de música e de desenhar. Encontro-me nessa idade, na situação de filho único, com o pai doente, um Linfoma (Cancro) que o deixou paraplégico, caso raro para um linfoma, segundo os médicos o primeiro caso do género em Portugal, tendo atingido a medula. Vejo o meu grande herói ficar privado de toda uma liberdade de movimentos, vivências, prazeres, remetido a uma condição limitada e na eminência de morrer. Esteve algumas vezes próximo disso. Foram necessários anos de quimioterapia para que a doença fosse erradicada.
O meu pai foi sempre a única fonte de rendimento da minha casa e, felizmente, nunca foi despedido por causa da situação, pois sempre se mostrou um trabalhador exemplar. Essa sombra do despedimento pairou, de resto, quase todo o tempo da doença, pois nada nesta vida é garantido. Tornou-se mais objectiva quando, há cerca de 3 anos atrás, 8 dos colegas foram despedidos, estando ele no 9º lugar da lista. Tudo leva a crer que não foi despedido por se encontrar na situação em que estava.
A minha mãe, mulher de força extraordinária, aguentou sempre tudo da melhor forma que soube. Melhor do que tudo o que ela fez seria impossível. Era ela quem transportava o meu pai ao colo da cama para o quarto de banho, do quarto de banho para a cama, subir e baixar escadas com a cadeira de rodas, enfim diversas situações. Eu era demasiado pequeno nos primeiros anos, por isso nada podia fazer de significativo. Ela tirou a carta de condução para poder transportar o meu pai. Durante anos levou-o para o trabalho, ficando todo o dia no escritório com ele, para depois o voltar a trazer. Nunca trabalhou. Aprendeu a ser enfermeira da pior forma possível: tratando do mais próximo. Pode ser relativamente fácil aguentar tudo isto durante um curto espaço de tempo, meses ou um ano, dois no máximo, mas 10, 20 anos, já não me parece que seja tarefa leve.
Dez anos mais tarde, tendo aguentado como uma heroína todo este fardo, teve também a notícia bombástica que parecia impossível: tinha cancro na mama. Teve por isso que a tirar. Os médicos chegaram a dizer que era mesmo algo de estranho, acontecer duas vezes na mesma família e nas condições por que todos nós passamos. Felizmente tudo se resolveu pelo melhor e também ela se curou. Ficou apenas a estranha coincidência de ter tido a menopausa mais cedo e esta ter coincidido com os tratamentos de quimioterapia, que não permitiam o tratamento dos sintomas da menopausa e, pelo contrário, até os agravavam. Restou-lhe, de anos de esforços físicos, uma hérnia discal que a mantém em lista de espera já há 2 ou 3 anos, tendo sido a última proposta de intervenção cirúrgica adiada pelos motivos que mais tarde irei relatar.
Entre todos estes acontecimentos, existem outros aparentemente mais pequenos mas que deixam igualmente marcas. Uma escara no cóxis que o meu pai teve nos primeiros tempos de gravidade da doença, por estar acamado, sendo esta do tamanho de meia maçã. Sucessivas intervenções cirúrgicas relacionadas com a bexiga do meu pai, que de resto sempre foi causa de infecções e dores. Foi também operado a um ombro, pois tinha muitas dores e dificuldade de mobilização, fruto da quimioterapia e radioterapia que, em conjunto com as cargas de peso provocadas pelo uso do andarilho, fizeram com que o osso ficasse morto em certas zonas, descalcificado e até mesmo destruído. Ia ser operado ao outro ombro há pouco tempo, antes da ultima notícia.
Encontrei-me até aos 18 anos a estudar. Não tive problemas de maior ao nível académico. Sempre aguentei da melhor forma que soube todos estes embates. Existia muito silêncio. Manifestava-me apenas nas incursões agressivas de discurso e numa postura bastante individualista. Lembro-me de um pequeno episódio que me marcou. Numa das tardes que fui à praia com um amigo e os pais, tive um momento de isolamento onde não consegui conter as lágrimas, pois não evitava pensar que não podia lá estar com os meus pais, fazendo das coisas mais naturais que as pessoas podem fazer: passear na areia, junto ao mar, apanhar sol. Chegamos a ir para a praia um ou dois anos, eu, os meus pais e os meus tios. Precisávamos da ajuda do meu tio nessa altura, pois eu era muito novo. Íamos para a praia e o meu pai ficava na esplanada, uma vez que não podia apanhar sol, devido aos tratamentos. Tinha nessas férias 11, 12 anos. É óbvio que não podia revoltar-me com as pessoas que levavam uma vida normal, que se divertiam, que desfrutavam das condições permitidas por uma boa saúde. Restava sempre no entanto uma infelicidade no cantinho do coração.
As pessoas amigas dos meus pais, que nunca foram muitas, desapareceram todas progressivamente. Uma a uma, deixaram de aparecer em casa, de fazer um telefonema, até mesmo pelo Natal. Raras vezes uma ou outra lembrava-se de o fazer, por pena ou por peso na consciência. Também não podemos culpar as pessoas por terem a sua vida, por terem o seu tempo, por não perceberem o quão importante é a companhia dos amigos nestas ocasiões.
Foram por isso 20 anos de algum sofrimento, mas que foram provando a força de vontade das pessoas que constituem esta família.
Volvidos 20 anos, sendo agora um homem de 28 anos, recebo novamente uma notícia bombástica: o meu pai tem um tumor no pâncreas e são-lhe dados 6 meses de vida.
Podem dizer que não é fácil, que não é justo, que é muito pesado, que é isso tudo, mas o que é certo é que, por mais que se esforcem, não se passa directamente com vocês. Não são vocês que têm que lidar com este dilema de saber se existe justiça poética no mundo, se o mundo é justo para quem nele procura viver da melhor forma que sabe, sem nunca desistir, sem nunca vacilar, sem por isso detestar toda a humanidade.
Sim, sinto muita revolta. Não sei porquê, nem para quê. Parece-me que é por tudo isto. É também pelas coisas que não se conseguem dizer, por não saber qual foi a culpa, onde esteve o erro para que tudo isto tenha acontecido. Sou uma pessoa algo agreste, é verdade. Acusam-me várias vezes de irascibilidade, de imponderabilidade, de egocentrismo, de tudo o mais que caracteriza o individualismo. Não sabem o que custa viver tudo isto. Não sabem o que custa ter que lidar com revoltas da melhor forma que se sabe, até culpando a nós próprios por estarmos revoltados, por nos deixarmos abater. Chorei muito quando uma vez fui confrontado no SEMIDE com um miúdo tetraplégico que tinha apenas 2 anos a menos que eu. O meu pai esteve um ano internado a fazer fisioterapia. Esse miúdo gostava de desenhar e, como o meu pai tinha falado em mim, ele desejou ver-me e mostrar-me os desenhos dele. Ele quase não podia desenhar, mas desenhava, e tentava o melhor que podia fazer bons desenhos, que efectivamente não eram maus. Senti-me diante de uma força de vontade que minimizava todos os meus problemas de uma forma drástica. Que me comparava a uma simples formiga, quando pensava que era o único a sofrer no mundo com toda esta infelicidade. Mas até hoje não esqueço esse momento. Ainda hoje penso que não devo queixar-me tão sistematicamente, seja lá o que isso é. Mas sinto que tenho de me queixar. Sinto que tenho que me libertar desta dor. Posso não ter sofrido na pele, no físico, todo este mal. Não fiquei paraplégico, continuo com as minhas capacidades motoras e intelectuais intactas e levo a minha vida de forma bastante agradável. Tenho então alguma razão para me queixar? Talvez não. Então porquê tanta necessidade de gritar? Há uma angústia que me acompanha, bem lá no fundo do peito. Até mesmo enquanto escrevo isto essa angústia não me larga. É que não consigo dizer tudo o que tenho para dizer, não consigo relatar tudo o que há para relatar, não consigo sequer organizar-me para o fazer. Os problemas foram muitos mais do que os que aqui relato.
Estou na eminência de perder o meu pai. Uma das coisas mais importantes da minha vida. Não tenho emprego. Apenas um trabalho que me dá ao fim do dês uns míseros 500 euros. Pago um carro todos os meses, 150 euros. Faltam ainda 4 anos. A minha situação sentimental é inexistente, e até magoada. A minha mãe não trabalha e por isso irá receber 60% da reforma do meu pai que tem um ordenado pequeno. A minha arte não é apreciada da forma como gostaria. Tanto a música, como a escrita, como a pintura estão guardadas no meu pequeno mundo. Algumas pessoas vão dando valor ao que faço e isso é gratificante. Mas ainda não é isso que quero, e nem sei bem o que quero, mas sei que não é isto. Não sei o que o futuro me reserva. Conta-se que seja sempre alguma coisa melhor, mas o passado mostra-nos que o caminho foi sempre difícil e sempre existiram novos obstáculos para derrubar. Cada um pior que o outro. Difícil a jornada, difícil.
A acrescentar a tudo isto tenho também as minhas inquietações metafísicas. Sei lá se Deus existe se não existe, se podemos algum dia controlar os maus sentimentos, se o amor de uma vida pode alguma vez ser encontrado, se pode ser perdido para sempre. Não sei porque não consigo falar com muitas pessoas, porque acho este mundo tão inacessível. Percebo que por estar revoltado comigo mesmo estou revoltado contra o mundo. Talvez por estar revoltado contra o mundo não deixo de estar revoltado contra mim. Mas é difícil aguentar tudo isto. Tudo isto aumenta quando olho por uma perspectiva existencialista, filosófica. Tudo isto aumenta quando olho por uma perspectiva unicamente materialista. Será a vida um único momento contínuo, apenas um presente? Se assim é, em que medida pode ser anestesiado todo este sofrimento? Porque há fome no mundo? Porque há guerras? Porque uns são ricos e exploram os outros, e não se apercebem disso? Porque há pessoas que não trabalham e ganham dinheiro de imóveis que herdaram, e outros trabalham de sol a sol e são explorados como eu sou mas de forma muito pior? Porque morrem crianças de fome a cada minuto que passa? Para quando uma paz interior que me permita deixar de questionar acerca disto tudo com sofrimento? Não tenho direito de berrar? Matam-se pessoas todos os dias de forma indirecta e eu não tenho direito a um simples berro?
Dirão alguns que tenho uma tendência depressiva, que exagero a parte negativa. Podem até ter razão. Mas digam-me, qual é a parte negativa deles? Digam-me, o que os faz chorar de noite? Digam-me se acordam todos os dias com uma angústia no peito sem saberem o que é, sem que se vá embora.
Não me mandem calar, não me peçam para raciocinar calmamente nem tão pouco para falar baixo! Não me peçam para ser um santo, não me peçam para não me queixar, não me falem noutros sofrimentos piores ainda, se não os tiverem vivido na pele! Admiro muito qualquer pessoa que sofre e mesmo assim não tem necessidade de gritar. Pois bem, admito a minha fraqueza diante delas, mas deixem-me gritar, espernear, mal dizer, dizer mal de Deus, do Diabo, das instituições, do ser humano, de tudo, de mim!
Não me mandem ter calma! Não me digam para parar! Estejam apenas aí, de ouvidos atentos, mais do que isso, de olhos abertos. Mais do que isso ainda: de coração aberto! Ponham um capacete protector, mas não me peçam para não vos bater. Não o faço fisicamente mas espiritualmente. Não é só por mim, é por todos os que sofrem. Deixem o São João ser festejado em casa, na cama, chorando. Não me obriguem a festejar. Não quero festas, não quero música de massas, não quero as vossas pipocas intelectuais. Deixem-me berrar e espernear, deixem-me dizer tudo isto aos gritos, deixem-me não saber bem aquilo que quero dizer! Se repararem bem até é raro berrar…
Esta revolta é devida, e se não é devida leia-se de novo e tente-se calçar os sapatos de quem sofre. E contudo isto, nem berrei, nem consegui dizer o que tenho para dizer…


8 Comments:
O seu grito atravessou o atlântico.
Sua angústia é compartilhada por outras pessoas. Não que isso lhe poupe sofrimento. Mas somos coletivos. Não pense que não exista dor maior que a sua, porque muitas dores existem.
Coloque-a para fora com a sua música. Com o seu grito, que eu estou aqui ouvindo. Estou ouvindo...não lendo, entende?
Abraços Hugo. Compartilho da mesma impotência diante disso, por não poder em hipótese alguma dar forças a você. Que minha energia talvez atravesse o atlântico novamente, como resposta ao seu berro.
Luciana.
Não sei quem és mas obrigado Luciana.
"Não pense que não exista dor maior que a sua, porque muitas dores existem."
Como digo no texto não considero que seja das pessoas que mais sofre no mundo. Há quem sofra muito muito mais. Não quero por isso fazer de mim próprio nenhum martir. Afço antes das pessoas que sofrem e é também por elas, principalmente por elas que me encontro assim.
Mais uma vez obrigado.
As palavras fogem-me sempre quando leio coisas destas. Por isso não tenho o que te dizer, mas qnão queria deixar de te mandar um abraço. E dizer-te que o que falta a este mundo são gritos genuínos e pessoas genuínas que assumam os seus gritos e os seus medos. O mundo seria muito melhor e as inquietações menores, creio eu. Força
Caro amigo, saiba-me solidário com as suas mágoas. Aconcelho-o a ler a insutentavel leveza do ser, de Milan Kundera; talvez lhe sirva de consolo saber que não está sozinho na angustia.
Obrigado João Martins. Não sei quem é mas agradeço.
Gostava de saber como chegou ao meu blog.
Berra a plenos pulmões, Hugo. Não me assusto facilmente, não me vou embora. Bem sei que não existe palavra alguma que ajude a acalmar o que sentes. Dada a distância, pouco mais te posso oferecer.
És uma das minhas pessoas preferidas, sabes disso, não sabes? Devias. Procura-me sempre que precisares, mesmo que seja para não dizer nada. Os telefones têm condutas de ar especiais, simplificam o processo respiratório.
A um grande amigo, um (hipotético) abraço e um beijinho na careca.
Dora
Encontrei seu Manifesto de revolta em meio a uma procura sobre escaras na região do coxis, e realmente como você mesmo disse existem pessoas em situações piores do que as nossas. Meu pai tem alzheimer, está acamado e com escaras que cada vez mais nos preocupam por não cicatrizarem. Mas por mais sofrimento que a gente passa, acredite que muitas coisas boas Deus reserva para nós seres humanos. Nas dificuldades aprendemos muito, nos momentos ruins é que devemos ter a esperança de que tudo passará, que a vida nos coloca em prova.
Eu também muitas vezes me revolto, mas hoje vendo a situação do meu pai, eu percebo que nós temos que fazer o possível e o impossível para ajudá-lo, a palavra é: Estar presente, buscar forças onde acreditamos que não existem mais.
Hugo, não sei como está sua vida hoje, nem qual a situação da sua família do seu pai e da sua mãe. Mas tenha uma coisa em mente: Não Há Dor Que Justifique a Fuga.
Então ao menos tente confortar-se com a esperança de dias melhores, de momentos de alegrias que ainda terás na sua vida.
Te desejo força, coragem e principalmente pensamento positivo.
Que Deus abençoe sua vida.
Abraços, Daiana
...digo-te que a revolta faz sentido, digo-te que berrar consola.
Que as dificuldades sejam força, que as lágrimas sejam lubrificantes e que os gritos tenham eco na tua nuvem - "open sky".
abraço Forte
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