Rosmaninho e Alecrim pelo chão

Um caminho dourado por Midas, queimando à passagem os pés descalços dos desterrados

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Hugo André Barbosa Carvalho dos Santos. Nascido a 15 de Abril de 1978. Curso de Pintura da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Curso de Artes Gráficas da Escola Secundária de Soares dos Reis. Curso de Formação Pedagógica Inicial de Formadores. Curso de Desenho Assistido por Computador como Conteúdo Multimédia. (Dreamweaver, Flash, AutoCad, 3D Studio Max, Photoshop) Bolseiro Erasmus 2000/2001 (Faculdade de Belas Artes do País Basco). Frequentou 2 cursos de verão do CPCIL (Centro Português para a Criatividade Inovação e Liderança). Frequentou 2 Workshops de teatro na FBAUP em 1999 e 2000. Membro da ARGO (Associação Artística de Gondomar) desde 1993. Membro do CCTEG (Centro Cultural de Teatro Experimental de Gondomar).

sexta-feira, julho 30, 2004

Comunicar

Das coisas que mais ansiedade criam em mim são, entre outras, as incapacidades comunicativas, os mal entendidos, as coisas que ficam por dizer, as coisas que se dizem mas não chegam ao outro lado. Falo de tudo isto no texto "Desvendando Acasos" que está lá mais para baixo, nos comments que a ele pertencem. Os meus pesadelos são, de resto, sempre sonhos em que digo alguma coisa e ninguém ouve, ou riem-se de coisas sérias, ou chateiam-se com brincadeiras, enfim, mal entendidos.

Analisar uma fotografia é coisa fácil, coisa técnica, coisa de cientista. Requer alguma capacidade de observação e alguma retórica, o que comunmente se chama "bom gosto". Dizer que se analisou bem uma fotografia é demonstrar o quão importante uma "análise" (no sentido científico que a palavra adquiriu) pode ser. Nesse sentido, "analisaste bem a fotografia", parece uma frase altamente académica. 

Cada vez mais me interesso pelas questões da linguagem, uma vez que esta é anterior a qualquer manifestação de comunicação, ou seja, antes de se escrever, antes de se pintar, antes de qualquer processo comunicativo, o homem teve nessecidade de desenvolver o campo significativo, no sentido de dar às imagens, sensações e sentimentos, a sua correspondente na ordem das ideias.

Há questões, como a tal metáfora da cebola, que estão numa camada mais superficial e outras que estáo mais interiores. Uma camada superficial numa imagem será o seu primeiro impacto, que normalmente passa pela cor, ou ausência dela, depois pelas imagens figurativas que lá estão (com maior ou menor grau de reconhecimento no mundo "dito" real), depois a composição, sendo a organização simétrica a mãe de todos os arranjos espaciais.  Tudo poderá ser importante, tudo é importante, mas secundário quando sabemos a receita. No campo da estética há receitas que resultam, há formulas. Mas também no campo da filosofia, da poesia, das artes mais directamente associadas ao pensamento (devido à sua forte ligação à linguagem oral e escrita, que infelizmente são privilegiadas na nossa sociedade, excluindo muitas das vezes as outras formas que focam os outros sentidos, audição, olfacto, etc...)

Um dos mal entendidos com o quais normalmente me deparo, para além de ter um pensamento algo "saltitante", é o facto de parecer ter a "mania". Tenho a certeza que muitas das vezes essa sensação passa pela forma como formalizo (passo o pleonasmo) o meu discurso, tanto verbalmente (com voz ligeiramente mais alta), como na escrita. Tento sermpre analisar a escrita e o que cada palavra quer dizer, pois ser "complexo" não é o mesmo que ser "complicado", e muitas vezes usa-se uma palavra em vez da outra.

Para finalizar, e provavelmente quando ler isto modificarei, acrescentarei coisas, a discussão acerca da imagem não era sobre a imagem (directamente) mas sobre a forma como se capta uma imagem e a forma como se observa uma imagem. Já não me interessa tanto (há já algum tempo) saber se a imagem está bem feita, bem composta, organizada, correspondendo a todos os canones de beleza, banhada na purificação do rectangulo dourado ou de ouro, ou no círculo perfeito, mas algo que já escapa a isto tudo. Esse "algo" é qualquer coisa que passa para a ordem da necessidade, da vontade de comunicar, ou seja, dos impulsos comunicacionais, das uniões da alma através da alma. Não estou a conseguir explicar-me. É sempre tanto para dizer para tão pouca capacidade de a saber transmitir...

» Questiono-me porque faço imagens e não tanto a forma como as faço.
» Questiono-me porque vejo imagens e não tanto a forma como as vejo.

Em que medida uma imagem serve verdadeiramente o espírito e não o gosto?
Kant distinguiu muito bem o Gosto do Belo, dizendo que o primeiro será sempre o encontro entre uma coisa que se gosta e outra que corresponde a esse gosto do género: Eu gosto de vermelho, logo, este quadro é vermelho, por isso gosto deste quadro/a comida deve estar com determinada quantidade de sal, logo, esta comida precisa de mais sal; e o segundo está na capacidade de nos surpreender, de nos paralisar, de reconfigurar a nossa percepção, de não ser explicavel, mesuravel, ser uma sensação que pecorre todo o corpo semelhante ao orgasmo, e na medida em que é totalmente nova, sempre diferente. O Belo de que Kant fala é como um dos predicados dados pelo Oscar Wild no "Retrato de Dorian Gray" acerca da arte: "toda a arte é completamente inútil". Toda a arte é inútil no sentido em que só tem utilidade para o espírito, e este nunca é mesuravel. Quem não percebe o paradoxo não consegue conceber esta frase. Paradoxal é ser tão plenamente vazio que mais cheio não se pode estar. É ser-se vazio ao mesmo tempo que se está cheio e não ser-se vazio porque não se está cheio. O paradoxo não é oposição, é convívio entre opostos, é a união da oposição, por isso gosto tanto de Agostinho da Silva, pois foi ele quem me explicou o que eu próprio já sentia mas não conseguia explicar.

Já me perdi, mas não interessa pois dessa forma encontro-me como fragmentado, vejo-me como perdido e sei onde estou. Só podemos ter noção de estarmos perdidos por sabermos onde nos encontramos, e sabermos que não era quele o sítio onde nos queriamos encontrar. Estar perdido é isso. Por isso posso dizer: NÃO ESTOU PERDIDO, APESAR DE NÂO SABER ONDE ESTOU.



2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

eduardo:

talvez tenhas lido, talvez não mas conheces o livro de Luhmann, "A improbabilidade da comunicação?"

segunda-feira, setembro 13, 2004  
Anonymous Anónimo said...

conheces o livro de Luhmann, "a improbabilidade da comunicação" ?

segunda-feira, setembro 13, 2004  

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