Deus (bom, mau ou vilão?)
O problema do Sudão faz recordar os horripilantes massacres do Rwanda, ou o que sucedeu na Serra Leoa. (...) E se razão havia para ser agnóstico, entender que haverá uma qualquer entidade superior e inteligente quye permite que algo como isto aconteça, então faz com que o juízo e discurso dogmático pareça mais ofensivo que idiótico. Aos inocentes, como aos infelizes, apenas lhes resta resignarem-se. Onde está aculpa deles para o que lhes acontece?
Eu digo:
A tal "entidade superior e inteligente que permite que algo como isto aconteça" não se rege por espaços temporais tão limitados quanto os que aqui se fala. A tal entidade superior, por não ser um dogma, não se limita a observar o que vai bem e a corrigir o que vai mal, mas Ela própria faz parte do processo, Ela é o processo. Há concepções religiosas que dizem que o Deus está ausente, que fez o mundo e dele se ausentou, para mais tarde voltar e apreciar a obra. Há muitas formas de olhar um (o) Deus que, como já foi dito (com grande sapiência), e acredito, é a nossa imagem e semelhança, pois Ele é a grande união do multiplo, a convergências das almas num ponto, o pensamento todo feito dos pensamentos que nós temos e outros como nós tiveram, e outros como nós irão ter. Só no paradoxo se pode perceber esta união do multiplo.
Peguemos no exemplo do corpo que sofre porque um dedo do pé sofre, e com ele arrasta todo o corpo na dor. Não há muito que o corpo possa fazer para minimizar a dor do dedo, pois o dedo tem autonomia no corpo ao qual pertence e, mesmo assim, o corpo sofre sem nada poder fazer. Parece-me pensamento estreito achar que Deus é um dogma, algo que é imutavel, parado no tempo, assistindo impávido ao decorrer da existência. Isso seria limitar Deus à única coisa que mais o caracteriza: o verbo. Verbo porque não é ajdectivo, nem bom nem mau, nem substantivo, pois não necessita de ter nome (um nome só existe para se distinguir de um outro). Sendo Deus o Verbo (coisa que mais acredito estar próxima da verdade), não pode estar retido num espaço-tempo limitado, mas sim na passagem do tempo, na própria existência.
Pegando ainda sobre outro ponto de vista, sempre na linha Agostiniana que me caracteriza, diria que Deus é superior por ser tão plenamente abrangente, por ser o pensamento que se pensa a si próprio, por sofrer com cada pensamento que existe sofrendo, por ser o espelho do que o pensamento na terra pode ser. Acredito que pensar no Sudão pode ser dificil a um homem, a muitos homens, e mais do que pensar o Sudão, será dificil viver (sobreviver) no Sudão.
Não critico Deus por não resolver os problemas, mas congratulo-o por me dar pistas para os resolver. Ele dá-me pistas para os resolver na medida em que ele próprio as cria quando as dá, ou seja, não existem à priori, e ainda na medida em que eu próprio em conjunto com os outros, encontro soluções. Ele e eu, e nós, somos uma e única massa. Ele só pode superar um obstáculo quando esse obstáculo for ultrapassável por quem o puder ultrapassar. Penso ser esta a base do livre arbitrio. A fome não é curada por Deus, a fome faz parte de Deus e também Deus sofre com a fome. Não podemos distinguir o pensamento de Deus do nosso. Se conseguimos sofrer a quilometros de distância do Sudão (mesmo que por apenas breves momentos, quando vemos imagens destas e delas falamos... e ainda bem que assim é, caso contrário a depressão seria o mais provavel), pela fome da gente que por lá passa, também Deus a sente. Se nos propomos a ajudar a1quela gente, é essa a forma de Deus ajudar.
Como poderei explicar melhor uma coisa que não sei explicar? Também me considero próximo do agnosticismo (no sentido de questionar), alíás já me intitulei agnóstico. Hoje em dia considero-me religioso, e isso basta-me.
Sou religioso pois acredito na união, na convergência do que EU SOU (EU, em mim, os outros em mim, e eu nos outros) e do que EU NÃO SOU (os outros neles) num ponto, o ponto onde Eu, eu nos outros, os outros em mim e os outros neles se tornam um só que já era.
Mais tarde, se alguém gostar de discutir este assunto (coisa que gostaria muito que acontecesse) tentarei desenvolver esta "consciência" de sermos nós nos outros e os outros em nós...
Por agora, e já quase baralhado, termino o que escrevo. (Estou desejo por por ler isto tudo para ver se faz algum sentido)

5 Comments:
sim, podemos discutir esse assunto, é algo que me interessa muito: o "je est(!) un autre" (Rimbaud). Mas claro que a minha posição é a de um ateu, ou antes, de um ateu imerso no projecto ético - a constituição do eu como indissociável de uma relação com o "rosto" do outro - de alguns filósofos talmúdicos. vamos a isso!;)
paulo
sim, podemos discutir esse assunto, é algo que me interessa muito: o "je est(!) un autre" (Rimbaud). Mas claro que a minha posição é a de um ateu, ou antes, de um ateu imerso no projecto ético - a constituição do eu como indissociável de uma relação com o "rosto" do outro - de alguns filósofos talmúdicos. vamos a isso!;)
por enquanto só posto isto, o que vou escrever tem de ser bem reflectido e agora estou muito cansado, acabei de vir de duas peças de teatro em francês :p
então até breve,
paulo
Viva Paulo. De ondé és?
Vamos então tentar estabelecer um método para que a discussão seja productiva.
pois, não sei qual será o melhor método (geralmente sou, infelizmente, mt pouco metodológico), mas deixo isso ao teu critério, eu escrevo umas linhas e tu depois logo decides como prosseguimos;)
sendo ateu naturalmente não encaro,como tu, a alteridade do "eu" (os outros em mim) como uma transcedência - como um fio cósmico que une todos os homens remetendo-os para deus - mas como uma imanência: há algo em nós que nos une aos outros. mas esse algo não é dado a priori, ou melhor, existe,mas apenas em potência; cada um de nós é que tem de construir o laço que nos une a todos os outros. e eles laços são, para mim, o que constitui a Ética (repara que que so deus com minúsculas mas Ela, a Ética, o verbo, tem outro estatuto;).
esse laço é o que alguns filósofos chamam o "rosto" do outro. o rosto é o âmago inapropriável de cada sujeito, aquilo que nele não pode ser conquistado pelo outro, mesmo que o outro o mate - e se matar é tentar destituir o outro do seu carácter único (remetendo-o para omundo anónimodos mortos), a inviolabilidade do seu rosto faz com que ele nunca possa ser esquecido,com que ele nunca desvaneça, com que ele nunca seja totalmente conquistado.
o rosto do outro - de cada um dos outros - interpela-me contantemente, e impõe-me que o salve, impõe-me que entre em diálogo com ele; e é nesse diálogo que eu me descubro e me constituo como eu. o rosto, está sempre lá (até os condenados de auschwitz o tinham, embora já não fossem humanos), o que temosde fazer é desocultá-lo. e isso é o que ninguém (incluindo eu) faz.
assim, é pelo diálogo desinteressado com o outro - pela relação dialógicacom ele em que eu não me tento apropriar dele - que eu me descubro como ser ético, é que eu reservo omeu lugar no paraíso (lol).
é assim que nos descobrimos como outro, é assim que constituimos o nosso eu na alteridade, na quebra de fronteiras rígidas que separam onegro do branco, o homem da mulher, o cristão do muçulmano. e isso só pode ser pela via dialógica, pelo estabelecer do diálogo. não o diálogo com deus mas o diálogo como meu semelhante.
olha, se queres o exemplo perfeito ele está no livro de são lucas (acho), quando se fala do "bom samaritano". no fundo,o que eu estou aqui a dizer é doutrina teológica, mas depurando-a de toda a transcendência (a única transcendência que vai para além da materialidade da vida é o "rosto", mas o rosto, não sendo biológico, não deixa de ser estritamente humano).
e pronto, obviamente que estas ideias não são minhas (se fossem eu seria um génio), mas de filósofos como o Emmanuel Lévinas, Maurice Blanchot, Derrida... o problema é que obviamente que isto não foi uma adaptação digna das suas ideias,o melhor é mesmoler os livros :)
e pronto,fico à espera de resposta :) espero que não tenha ficado mt confuso, mas acho que ficou. a verdade é que eu não domino isto tão bem quanto deveria, mas acho que já dá para lançar o debate!
um abraço! (by the way, sou de lisboa)
gosto mesmo de discutir estas coisas :)
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