Esboço do começo de um novo livro...
(o título ainda por definir poderá ser: Com a verdade me engasgas)
Estávamos no princípio do Junho, e o Sol estava radioso como de costume, redondo e amarelo como de costume, de uma forma tão original que um poeta pouco inspirado descreveria como "uma panqueca gigante no meio de um imenso céu azul Barbot".
Eu passeava pelas estradas da panqueca mais reduzida do meu pensamento quando, de súbito, como quem calca merda e de imediato vê que não é bom, me ocorreu uma ideia algo alucinada mas perfeita na sua clara e objectiva equação: qual é a verdade dos factos que aqui me conduziram?
Numa primeira e sempre impulsiva análise, diriam os racionalistas (aqueles indivíduos que se parecem com o José Mourinho mas acertam menos nos resultados) ocorreu-me que tal interrogação requereria árdua tarefa, exigiria um empenho alargado de todo o meu intelecto, obrigar-me-ia novamente a fazer mais uma portentosa volta ao mundo, para conseguir atingir, quanto muito, a verdade oculta na interrogação levantada.
Sempre numa linha pouco racional, mas muito bem oleada na arte de fingir aquilo que não é, o que um vulgar comediante descreveria como “a arte de manejar o véu”, tentei definir gramaticalmente cada uma das palavras da nova equação, sendo que deveria começar pela primeira, para não correr o risco de me perder.
Constatei passado relativamente pouco tempo que não seria fácil começar. Primeiro, porque sou preguiçoso e teria que pensar no passado que me levara a ser preguiçoso, depois porque senti que não tinha perto de mim um dicionário de bolso, e em terceiro lugar, porque quando chegasse a casa já tudo se teria evaporado tal Dom Sebastião no meio do nevoeiro de pensamentos.
A verdade. Essa palavra que encerra nela uma ideia que toda a gente sabe qual é mas que ninguém sabe explicar e cada um tem a sua. Ora cá estava uma daquelas perguntas que nos arreganham as paredes do estômago até estas parecerem um tapete persa numa trituradora de notas. Como é possível toda a gente ter uma coisa que é de todos e que mais ninguém tem igual a não ser o próprio? Há coisas da breca!
Deus ergueu-se do seu trono meio bolorento e a cheirar a peido para dizer que todo o meu pensamento estava destinado a fracassar, pois tinha sido ele a esconder a resposta e a esquecer-se do local onde a tinha escondido. Assustei-me com tamanho vozeirão, e quase tive um ataque de pânico, mas logo depois me acalmei. Não tinha chegado ainda a minha hora. Parei então para pensar. É claro a única lógica possível seria a de ter em consideração semelhante depoimento, tão verdadeiro quanto a verdade pode ser, mas como sou filho de boa gente, e a costela que Adão me deixou ainda faz das suas, resolvi investigar, não fosse Deus estar esquecido que o Diabo também anda à procura da mesma chave, da mesma resposta. É esperto o filho da mãe, apesar da mulher lhe ter posto os cornos…
Não lhe disse nada, mas logo vi que era escusado, pois a Deus nada conseguimos esconder. A única solução era esconder-me de mim próprio para que nem eu nem Ele me pudessem encontrar. Chamam a isto os filósofos o afastamento de si, ou aquele que consegue ser outro tendo consciência que o é.
Não sei porque carga de água, senti-me imediatamente submerso numa torrente de pensamentos tão obtusos, que não consegui formular mais nenhum pensamento válido num espaço de cerca de dois dias e meio.
(to be continued…)

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