Rosmaninho e Alecrim pelo chão

Um caminho dourado por Midas, queimando à passagem os pés descalços dos desterrados

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Localização: Porto, Porto, Portugal

Hugo André Barbosa Carvalho dos Santos. Nascido a 15 de Abril de 1978. Curso de Pintura da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Curso de Artes Gráficas da Escola Secundária de Soares dos Reis. Curso de Formação Pedagógica Inicial de Formadores. Curso de Desenho Assistido por Computador como Conteúdo Multimédia. (Dreamweaver, Flash, AutoCad, 3D Studio Max, Photoshop) Bolseiro Erasmus 2000/2001 (Faculdade de Belas Artes do País Basco). Frequentou 2 cursos de verão do CPCIL (Centro Português para a Criatividade Inovação e Liderança). Frequentou 2 Workshops de teatro na FBAUP em 1999 e 2000. Membro da ARGO (Associação Artística de Gondomar) desde 1993. Membro do CCTEG (Centro Cultural de Teatro Experimental de Gondomar).

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Manifesto (de há 3 anos)

Manifesto ao tempo do copy/paste

Sim, sou anacrónico. Se ser anacrónico é não “acompanhar os tempos”, sim, sou anacrónico. Sou o anacrónico de todos os tempos, do eterno, do efémero, do único efémero que se preza de ser venerado, do momento que faz a ponte entre todos os tempos, os passados e os futuros. Não acredito na moda, na verborreia dos comportamentos estereotipados, enclausurados no que acontece, ou vai parecendo acontecer, porque se evita o verdadeiro confronto com a realidade, com aquilo que efectivamente encarna o movimento inicial do mundo, e certamente onde ele vai acabar.

Tal como o pensamento/esclarecimento que Agostinho da Silva me trouxe: evoluir é voltar à origem. Se sou anacrónico, sou-o com plena consciência de que olhar para a frente é olhar para trás, é ter consciência do que está para trás, e caminhar na direcção que volta ao início, na direcção que é circular, e no entanto tão plena de surpresas quanto cheia de predestinações.

Sim, sou anacrónico, não uso essas sapatilhas que envergas nos pés, como se o chão te fugisse se as não usasses. Não uso sequer esses gestos de video-clip, nem as poses de Cosmopolitan. Ah! Como evito que essas coisas me contaminem. Sei que sou contaminado, todos somos, “é a vida”, mas que luto contra isso, sim luto. Sou mais cosmopolita do que tu, pois sei de onde vens, e com quem te encontras, e o que falas, e no entanto desprezo tudo isso, mantendo apenas o fascínio inevitável por essa leveza comportamental, fruto das facilidades que te concederam sem que sequer te desses conta. Não vou dizer que as não mereces. Isso seria de uma maldade imperdoável, e todos os seres merecem o melhor. Mas o melhor não é só o bom, ou o bom não é só o melhor, o sossego falso dos que se mantêm inocentes por terem medo, ou não quererem tomar consciência. Também eu tenho as minhas facilidades, não as nego, embora até sinta que talvez as não merecesse. Poderá certamente haver em mim ainda aquela réstia de moralismo de esquerda que rejeita as facilidades “burguesas”. Admito que assim aconteça, mas também sei que tenho consciência disso, embora nem saiba se verdadeiramente o é, mas tudo é e não é, ou vai sendo, desde que se viva plenamente todas as dores e todos os prazeres, e a eternidade que o mundo tem, que de moda não tem nada, nem de útil, nem de caracteres de revista de design.

Perdoa-me se me manifesto com uma réstia de raiva. Mas acabei de ver um filme de 1964, bem mais actual do que muitos que se fazem hoje em dia. Sou motivado pelos impulsos, pois vivo em tempos que os não permitem ou tentam abafar. É um grande defeito que tenho, esta revolta meio seca, que em nada contribui para que te ajude, nem a mim. Mas perdoa-me tal como perdoo os males que por aí vou vendo. Só peço para que me deixes falar. E vai-me ouvindo mesmo que não me faça entender, e escuta-me com o instinto.

Hugo Santos 2003-03-30