Rosmaninho e Alecrim pelo chão

Um caminho dourado por Midas, queimando à passagem os pés descalços dos desterrados

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Hugo André Barbosa Carvalho dos Santos. Nascido a 15 de Abril de 1978. Curso de Pintura da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Curso de Artes Gráficas da Escola Secundária de Soares dos Reis. Curso de Formação Pedagógica Inicial de Formadores. Curso de Desenho Assistido por Computador como Conteúdo Multimédia. (Dreamweaver, Flash, AutoCad, 3D Studio Max, Photoshop) Bolseiro Erasmus 2000/2001 (Faculdade de Belas Artes do País Basco). Frequentou 2 cursos de verão do CPCIL (Centro Português para a Criatividade Inovação e Liderança). Frequentou 2 Workshops de teatro na FBAUP em 1999 e 2000. Membro da ARGO (Associação Artística de Gondomar) desde 1993. Membro do CCTEG (Centro Cultural de Teatro Experimental de Gondomar).

segunda-feira, julho 10, 2006

Texto da Dra Maria Helena Padrão, para a apresentação do meu livro no Clube Literário do Porto

Hugo santos: vinte e oito anos. Um escritor novo, uma escrita nova.

Entre o nada e a catástrofe conduz o leitor, num discurso formulado na primeira pessoa, a uma estranha deambulação pelos caminhos da mente. É a mente, enquanto processo de articulação do pensamento, o objecto/sujeito de estudo deste livro. A visão do mundo é assim uma espécie de concatenação entre os dados da efabulação do pensamento e os dados fornecidos por uma certa interpretação, não do real observado, mas dos sinais que esse real deixa entrever apenas aos eleitos.

A novidade deste discurso reside fundamentalmente nesta capacidade de captar os interstícios do espaço/tempo e de os deixar exarados quase de forma testemunhal, documental, nas imagens quase transparentes de tanta genuinidade.

ANDA-SE PELAS RUAS COM AS PERNAS A TREMER., é uma frase que surge reiteradamente porque é na reiteração, quer da sua semanticidade, quer na reiteração da sua presença visual ( a maiusculização),que se dá a revelação. De quê? Da eminência de catástrofe. Ao longo do texto há como que uma anaforização deste conceito, há como que uma necessidade de se evidenciar esta descoberta em forma de aviso ao outro. E as frases em que ele está contido são muitas:
A todo o instante altera-se o mundo
A todo o instante altera-se a ideia que do mundo se tem
A todo o momento pode acontecer a catástrofe
A catástrofe pode eclodir a qualquer instante
Não se sabe o que nos reserva o futuro
A catástrofe está algures. Nalgum sítio se esconde.

Curiosamente, este sujeito enunciador, que é um misto de narrador lírico autodiegético constata ainda que: a infinidade de opções que o acaso tem é tanta que chega a baralhar-se a si próprio.

É, pois, neste espaço de inquietação que nos coloca este livro de Hugo Santos. É uma inquietação fundamentada na observação de factos, na conformidade do acaso, na mais elementar intuição. É uma fundamentação consolidada nos elementos fornecidos pela trivialidade e que, no entanto, constituem cesuras nas entranhas do tempo, linhas de descontinuidade, aliás já largamente evocadas noutros contextos, noutras ciências.

Assistimos assim a apontamentos como:
O guarda-redes foi rápido nos seus reflexos e fez uma defesa espectacular. Minutos antes era um filho da puta.

A menina-baloiço que está alheia a tudo e baloiça com mais força ainda
Os pessoas que vivem o seu dia-a-dia sem medo
O Vesúvio que pode explodir a qualquer momento
A guerra no Médio-Oriente ….


O escritor é aqui um iluminado, um inspirado pelo espírito da própria linguagem, linguagem que está também tecida de descontinuidades, cuja natureza dialogada tem menos expressão do que o longo monólogo interior, como se, no absurdo do conhecimento, existisse a consciência de que se fala para um interlocutor que não quer ser informado, um interlocutor que existisse numa outra dimensão. O que se passa com a linguagem é o mesmo que se passa com as fórmulas matemáticas: constitui um mundo em si mesma. E exprime, antes de mais a sua própria natureza. Então, apenas alguns, iniciados ou eleitos, acedem, primeiro à natureza desse mundo, depois à sua capacidade simbólica.

A escrita, na sua fragmentária natureza, na sua poeticidade, eleva as coisas do mundo a uma natureza superior, perspectivando uma totalidade. O fragmento, que é a essência do poético, acolhe as manifestações múltiplas do ser que, por vocação, aspira à essencialidade. O paradoxo que Hugo Santos apresenta nesta obra explica-se através do Princípio da Razão heidegeriano: “tal como o princípio da razão, todo o fragmento tem um lugar a partir do qual fala e que é uma das pontes de relação presença/ausência, velamento/desvelamento, … constituição do ser que se abre e se fecha no mistério ontológico das coisas”.

Maurice Blanchot refere também que a existência fragmentária é pressuposto incondicional de toda a escrita. O fragmento da escrita e o instante da existência caminham a par, como se a vivência do instante captasse o momento efémero da eternidade: o instante da criação tão intenso como o instante da destruição.

Hugo Santos, de forma enigmática, direi mesmo, codificada, elabora, no instante da escrita, a vidência da totalidade; configura, nos meandros da aparência dos dias sempre iguais, a eminência da catástrofe. O que é a catástrofe? É precisamente a antítese da ordem. Caos e ordem: duas faces da mesma moeda.

Hugo Santos, um escritor novo de uma escrita nova, deixa-nos nesta inquietação da eminência da catástrofe, direi mais, a inquietude do ser perante a sua própria existência, e afirma:
Os artistas não são espelhos…quando muito são pedaços de catástrofes e por isso as sabem relatar tão bem.

É um conto, nada convencional. Aliás, não é por acaso que o título é:
Entre o nada e a catástrofe & Bónus: um pequeno conto de almofariz cor-de-laranja, e que a epígrafe diz: Aos pastéis doces das avós, para os netos e quem mais vier…

O escritor dá-nos uma forma de sair desta inquietação e à maneira de Kusturica, constrói um microcosmos onde tudo se pode vivenciar sem os constrangimentos do aqui e do agora.
Sair para fora desses constrangimentos lembra a frase do livro anterior que seleccionei:

As lagartixas fazem-nos sempre sorrir.

É verdade. Hugo Santos, tal qual a lagartixa, ou as laranjas que têm asas de avestruz e bicos de pinguim com toques de galos de Barcelos faz com que saibamos sair dos limites impostos ao ser, à existência, e partamos à descoberta de novas formas de vida, quiçá melhores, quiçá piores. Sobretudo diferentes.

Hugo Santos, um escritor novo duma escrita nova, dá início, com esta obra, a um percurso de excelência

Maria Helena Padrão

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

E o próximo, nunca mais sai à cena? Quero mais, ora pois. (Queremos mais, gritarão um dia as massas)

Ainda tens os filmes?
"Anda-se pelas ruas com as pernas a tremer". Quando anoitece e deixas de vislumbrar as nuvens no céu, tenho a mania de perseguir os meus pés com o olhar. Por vezes, essa frase assalta-me a memória, especialmente quando passo por cruzamentos de ruas de iluminação variável. As pernas esticam e encolhem, são firmemente vincadas no asfalto e outras vezes quase desaparecem. "Anda-se pelas ruas com as pernas a tremer". O calor também ajuda, mas o frio é mais eficaz. E os filmes de Domingo. As saídas da natação depois de 50 piscinas completadas. E os filmes que se constroem na memória quando os mais variados sentimentos e sensações estão à flor da pele.

sexta-feira, julho 21, 2006  

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