Rosmaninho e Alecrim pelo chão

Um caminho dourado por Midas, queimando à passagem os pés descalços dos desterrados

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Hugo André Barbosa Carvalho dos Santos. Nascido a 15 de Abril de 1978. Curso de Pintura da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Curso de Artes Gráficas da Escola Secundária de Soares dos Reis. Curso de Formação Pedagógica Inicial de Formadores. Curso de Desenho Assistido por Computador como Conteúdo Multimédia. (Dreamweaver, Flash, AutoCad, 3D Studio Max, Photoshop) Bolseiro Erasmus 2000/2001 (Faculdade de Belas Artes do País Basco). Frequentou 2 cursos de verão do CPCIL (Centro Português para a Criatividade Inovação e Liderança). Frequentou 2 Workshops de teatro na FBAUP em 1999 e 2000. Membro da ARGO (Associação Artística de Gondomar) desde 1993. Membro do CCTEG (Centro Cultural de Teatro Experimental de Gondomar).

quinta-feira, julho 22, 2004

Desvendando Acasos (um cobertor e um livro)

2 Comments:

Blogger Hugo Santos - Portfólio said...

Desvendando acasos
Um cobertor e um livro

Hugo Santos



“Ainda assim, a intuição que tive na noite do deserto estava certa: por muito exilados e sozinhos que estejamos , prendem-nos laços tecidos mesmo contra a nossa vontade. Chama-se a isso o destino. Durante todo aquele tempo - uma eternidade? um instante? - em que me julgava ignorado por todos, por todos abandonado, havia acontecimentos que se precipitavam, em datas precisas, dir-se-ia que predefinidas, alguns dos quais iriam afectar o mundo e outros orientar inexoravelmente o curso da minha vida”. - do livro: O que disse Tianyi, de François Cheng.




Cabe-me aqui, dentro das minhas poucas possibilidades, delinear o trajecto que começo a sentir como meu, enquanto artista plástico.
A necessidade de anotar/aflorar a linha que os acontecimentos vão desvendando desde há já algum tempo, e que agora, finalmente, ganha mais consistência, consciência, e claridade/clarividência, essa necessidade tem crescido e finalmente força-me a pô-la em palavras.
Essa necessidade controla-me mais do que eu a ela. Uma série de coincidências levaram-me a esta paragem/viagem, e fazem parte do “acaso objectivo” que os surrealistas tanto apreciavam. Vejo-me forçado a evidenciá-lo, dada a sua pertinência.
A narrativa, tudo leva a crer, será cortada, quebrada, saltando de ideia para ideia, tal é a forma como o meu pensamento se expõe diante de mim, mas faço um esforço por elucidar o viajante (eu próprio) da melhor forma que sei e posso.
Há também aqui qualquer coisa de diário que gostaria de preservar.

E tudo surgiu com a descoberta do oriente...


O oriente (parte I).


Ultimamente, há cerca de um ano (ano esse que poderá estender-se a três ou quatro anos...), o universo oriental anda a invadir a minha vida, como se as inundações do Rio Douro trouxessem palavras de uma língua estranha, em caracteres gatafunhados, e os filmes do Bruce Lee tivessem agora significado, fora de um contexto unicamente infantil e ingenuamente aventureiro!
Parece ter começado com a leitura de um livro de Yves Klein, figura das artes plásticas, que se manifestou finalmente ao meu intelecto depois daquele contacto literário, com consciência do que o seu trabalho efectivamente/objectivamente transmitia, muito embora não tivesse percebido que tudo ia dar ao oriente, nesta forma que agora desvendo. Também ele se manifestava interessado pelo pensamento oriental, e foi até um praticante de Judo, chegando mesmo a dar aulas dessa arte marcial para ganhar a vida. Mas nem é tanto esse o ponto principal. Aliás, não começou verdadeiramente com esta leitura, embora ela tenha servido como a candeia de luz para o caminho que já aqui estava. Mais abaixo tentarei explicá-lo melhor.

O meu interesse por superfícies tendencialmente minimalistas não é novo. Já há muitos anos que me cativam. Mas ultimamente têm adquirido um significado cada vez menos difuso e as peças de um puzzle há muito tempo em movimento começam agora a desenhar a figura central do meu processo criativo.

Frases retiradas de um mail enviado há algum tempo atrás:

Acho que o branco é das formas mais perfeitas de arrumação cromática.
Lembro-me de dizer aos meus amigos que ainda não era bom pintor porque ainda não conseguia pintar só com branco.
De resto estou a pintar novamente.
Preto sobre preto. Brevemente será branco sobre branco.
Um preto brilhante sobre um preto opaco. O resultado: é óptimo.

Fiz um texto há uns anos atrás, que partiu de uma proposta para apresentação na Faculdade, acerca do meu interesse pela arte minimal. Transcrevo-o em seguida:


A arte Minimal e os mecanismos de composição do minimalismo.


No texto que se segue, vou tentar abordar as questões que me preocupam na composição Minimal e que têm a ver com questões essencialmente pessoais. (as ideias que aqui transmito estão em processo de maturação e por isso sujeitas à critica e a posteriores correcções).

A arte minimal parece, aos olhos de muitos, ser regida por princípios estanques, definidos, que a limitam conceptualmente e formalmente, não deixando perceber as suas verdadeiras motivações e/ou preocupações.
Esta não se rege por princípios definidos num determinado espaço ou tempo. Sempre que procuramos datas chegamos à conclusão que nada tem um princípio definido.
Posso dizer que o minimalismo (1) existe desde que o homem tem preocupações formais e espaciais, se encarar o signo plástico como uma abstracção ou uma redução espacial e temporal de um conceito, uma ideia, uma imagem ou tudo isto junto. Constato que o homem sempre foi minimalista ao representar algo (tendo em conta que encaro a representação como uma redução e condensação de elementos abstractos em elementos linguísticos (2)).
No entanto, o Minimalismo (3) como corrente estética iniciou-se nos anos 60 e apelava para a importância da necessidade do recurso a elementos essenciais da materialidade plástica.

Na sequência da desvalorização topófila iniciada pelos impressionistas, ao trabalharem plasticamente toda a superfície de uma forma coerente e semelhante, os Minimalistas vão reduzir a representação à abstracção formal, trabalhando a matéria como matéria e não como meio de representar uma realidade a si exterior. Por outras palavras, os Minimalistas vão partir do pressuposto impressionista segundo o qual os objectos/formas devem ser representados na tela de forma igual, por partilharem o mesmo espaço em comum e por isso terem a mesma importância. A representação é algo que ganha autonomia e maior valor em oposição ao objecto a ser representado. A pintura não é a representação e imitação de “coisas” exteriores a si, mas a própria pintura como processo criativo, ou talvez o próprio processo de criação. (Nenhum objecto a ser representado é digno de maior importância do que o outro. Nenhuma pincelada deve permanecer mais visível em relação a outras - o que parece corresponder a uma prática “socialista” da representação, se me é permitida a analogia).
Encontramos no Minimalismo uma falta de hierarquização total (se é que esta chega alguma vez a existir) das partes, ou uma hierarquização total do todo (pedindo desculpa pelo pleonasmo). As partes são o todo e são tão importantes que se fundem com o suporte (4). O que quero dizer com isto é que, por vezes, enquanto espectadores de uma obra minimalista, não conseguimos atribuir maior importância a nenhum elemento da obra em relação a outro que existe no suporte, e chegámos a percepcioná-lo como parte integrante do suporte e vice-versa.
De facto, o Minimalismo dá uma importância ao suporte e faz muitas vezes dele o fim a atingir. Por vezes, à superfície, nada parece ser acrescentado para além da própria superfície (música 1 e 3). Ele joga com o homogéneo e o vazio.
Parece recusar todos os elementos gráficos que não sejam de carácter unicamente formal. Não pretende intuir nada para além do que representa (uma mancha deve funcionar como uma mancha, não como uma forma que se assemelha a algo: um elefante, por exemplo; ou então a algo tão abstracto que não consegue ser associado a nenhuma forma para além da própria mancha).
Esta preocupação formal é tão grande que se manifesta como aparente despreocupação. A busca da forma pura é tão grande que remete para a busca da ideia pura que, por oposição, é imaterial. Um paradoxo. A valorização da matéria é tal que nenhuma forma parece ser digna de importância ou seja, todas têm a mesma importância. Igualmente paradoxal é o facto de, ao caminhar de tal forma para a abstracção, acaba por comunicar com algo que não pertence ao campo formal, mas à ordem do espírito, das ideias, intuindo dessa mesma forma tudo o que está além de qualquer forma. Este culto da matéria, paradoxal volto a frisar, surge quando as questões que se tratam através da matéria e na matéria, ultrapassam o material e chegam ao conceptual. Quando se quer representar algo que transcende a matéria.
A preocupação é materializada:
- na falta de elementos linguísticos distintos uns dos outros, e na simplificação das superfícies.
Ou:
- na valorização excessiva de alguns signos e na sua clara distinção.
(uma palavra só é entendida quando: associada a uma longa frase e a sua importância é igual à das restantes palavras ou, quando existe isolada de um contexto e é percebida como um universo próprio de significados.

O Minimalismo tem em si uma sensação de vazio que é gerada pela homogeneidade do tratamento plástico e cromático, ampliado pela falta de referências simbólicas.
A repetição parece ser uma característica constante do Minimalismo, pelo facto de se pretender dar importância ao todo e não às partes, e a algo que ultrapassa o elemento plástico em questão. Se uma imagem é repetida, o objecto de análise desloca-se da imagem em si para a repetição. (Ex: se repetirmos 50 vezes a palavra “almofariz”, deixamos de ter noção do seu significado e passamos a ter uma compreensão totalmente diferente, analisando talvez com mais afinco a sonoridade, o tempo, a modelação que daí resulta, em detrimento do significado da palavra. (Na música 2 faço uma ilustração da repetição de palavras e na música 3 faço a ilustração da repetição dos signos, assim como nas fotocópias de obras 1,2,3,4,5,6 e 7, e nos esquemas que elaborei).
As partes deixam quase sempre de ser autónomas para se relacionarem entre si em prol de um todo que as alberga (homogéneo).
A parte é o todo, ou o todo são as partes, ou são as duas coisas juntas. Parece-me ser este o resultado prático da concepção Minimalista que vejo como paradoxal.
(...)
Tenho uma forte tendência para o Minimalismo porque gosto do equilíbrio que me transmite, as impressões que os seus cheios e vazios me provocam, a sensação de algo que é repetido conforta-me, porque sei que posso desfrutar da parte repetida várias vezes, até ter perfeita consciência do que ela significa para mim. É como um ritual que exige sistematização.

(1)- o termo minimalismo aparece aqui como forma simplificada ou resumida de actuar e não como um corrente estética.
(2)- elementos linguísticos, qualquer que seja o tipo de expressão humana.
(3)- Minimalismo como movimento, corrente estética.
(4)- suporte; espaço onde são colocadas informações (neste caso visuais).

Era desta forma que encarava a pintura no meu terceiro ano da Faculdade. Em muitas das premissas ainda me identifico com ela. A essência não mudou.


Cumplicidade


Por que motivo encontrei eu, na pintura de Yves Klein, uma cumplicidade tão grande e tantos pontos coincidentes, antes mesmo de o ter lido, saber o que o motivava? Era como se tudo o que ele queria dizer já estivesse lá de forma implícita - seria ilógico se assim não acontecesse - mas mais do que isso, eu captei-o instintivamente. É este o facto que quero salientar. E porque motivo os seus interesses pelo oriente e pelas ditas ciências ocultas como a Alquimia, latente até nas suas pinturas com ouro, estão na mesma proporção que encontro em mim?


O Ouro (atalhos).


Uma curiosidade... a família da minha mãe exerce a arte da ourivesaria. Embora não tenha um fascínio pelo ouro, pelo valor que essa matéria tem ou à qual muitos conferem, talvez exista algum interesse que me ficou do grande contacto que tenho com ele.
A seguir a este atalho vem um outro, bem mais pequeno mas igualmente interessante... Na fanzine Aleluia Baby, há uns anos atrás, criei um espaço sobre música psicadélica intitulado “as misteriosas cidades do ouro”. Foi um título inspirado numa série de desenhos animados que falavam das aventuras de um personagem em busca das perdidas cidades do ouro, lá para o lado dos Incas e Maias... civilizações perdidas...
Nessa crónica (1998) há um excerto que acho importante passá-lo aqui, uma vez que se insere perfeitamente em toda esta questão do Minimalismo:

Os músicos psicadélicos tentavam transformar as suas performances em aparições e rituais mágicos que pretendiam, a maior parte das vezes, uma ligação quase religiosa e mística com o espectador. É neste campo que me fascina este movimento. É esta ligação com o divino que me faz gostar tanto deste tipo de música de climas etéreos e distantes, que me transportam novamente para as misteriosas cidades do ouro que via em criança, onde os rituais mais antigos e desconhecidos nasciam no meu imaginário em lindos pensamentos que não se exprimiam facilmente. Estes rituais quase ancestrais encontram na repetição uma boa forma para estarem em sintonia e equilíbrio com Deus, o Homem e as Coisas. Como se o tempo estivesse parado, porque cada novo compasso é semelhante ao anterior e cada nota é a repetição da sua antecedente. Como se as ondas cósmicas fossem encarnadas pelas batidas: para cima e para baixo, para cima e para baixo... o mesmo ainda acontece hoje em dia. Não é em vão que os rituais religiosos de quase todas as tribos são conduzidos numa linha minimalista-repetitiva. A repetição parece ter qualquer coisa mágica na sua relação com o espaço-tempo. Todos os sons e gestos são perpetuados num contínuo retorno a eles mesmos, como se todo o corpo, o dos músicos e do público, fosse um enorme mar de ondas que vão e vêm, como se esquecêssemos onde tudo começou e onde tudo vai acabar. Os rituais implicam, na sua essência, a sua perpétua repetição.

(Fiz questão de, enquanto escrevia esta parte, ouvir o álbum do Neil Young: “After the Gold Rush”...) ah, ah!


Ainda sobre a repetição


Excerto de um texto da Aleluia Baby #6:

Não é pessoa de repetições, apesar de as procurar como se de um ritual se tratasse. Acha que é a consciência de que todos necessitamos de rituais, em todos os cantos do mundo. E é também a sua necessidade de fugir a esta condição humana, que vê como que, de certo modo, imposta por uma vontade anterior e exterior à sua. E é também esta necessidade de controlo absoluto da sua existência que o cansa, que o faz sentir prisioneiro de si próprio, contrariando o tão bem querido destino (querido quando é positivo, diga-se de passagem...).
(...)
Concorda com a conclusão a que se chegou de que uma filosofia é constituída por meia dúzia de ideias chave, não estando estas subdivididas em muitas outras categorias. Talvez por isso mesmo se considere tão repetitivo, e também por esse motivo tente agora explicar-se, como se estivesse a formular uma desculpa para si próprio, ou para quem o lê.

Os paradoxos são sempre uma constante neste pensamento alternado, mas há marcos que definem muito bem trajectos, intenções, direcções, vontades, que constituem igualmente uma constante. Opostos ou não, convivem. Cabe-me aqui unir as peças, catar-lhes o tal fio condutor, projectar intenções para o futuro, tornar exponencial o Devir. Acerca do Devir, tenho pendurada na parede do meu quarto uma folha que diz o seguinte: “o Devir: o movimento como actualização do possível”. Já nem me lembrava dela, apesar de estar na parede por me saber tão esquecido... Diz ainda: ”São Tomás, Devir: a mudança é a actualização da potência enquanto potência. Acto+Potência=Devir”.


O Ouro II (atalhos).
Misticismo e Alquimia.


“Os alquimistas são os "filósofos da matéria" e têm por objectivo atingir a compreensão da natureza e dominar (conhecer) suas leis, sendo hoje chamada a alquimia de "a arte de alterar ou utilizar as vibrações". Na concepção alquímica, o Universo originou-se de uma substância única, indiferenciada (matéria prima ou quintessência), a qual polarizou-se em princípios activo e passivo, derivando daí o mundo manifesto. Este azoth alquímico corresponde ao conceito ocultista da luz astral (o mesmo veículo ao qual se referem os médiuns que lidam com cura espiritual ou materializações).
A alquimia surgiu provavelmente no Egito, como sugere a raiz grega do nome (khemia = transmutação, fusão, mistura) e corresponde ao nome copta do Egito(Khem = terra negra), segundo Plutarco. Os árabes (que invadiram o Egito em 640), incorporaram esse vocábulo na forma Al-Kimiya (transformação através de Alá).
O fundador mítico da filosofia alquímica é o egípcio Hermes Trismegistos (associado ao deus Toth), mas a lenda cristã a atribui aos anjos, que ensinaram os segredos da natureza a alguns homens ao apaixonarem-se pelas mulheres terrenas.
São quatro os postulados básicos da alquimia:
1)- A unidade do princípio material (matéria prima primordial);
2)- Evolução da matéria ( todos os elementos são radioactivos, uns mais outros menos, de forma que ao longo de milhões de anos, mesmos os átomos considerados estáveis, sofrem transformações análogas à dos elementos instáveis);
3)- Os elementos químicos representam estados de evolução (sendo o ouro o mais perfeito);
4)- A transformação é o resultado de uma evolução natural ainda desconhecida do homem, a qual é possível reproduzir em laboratório, sendo este trabalho ao mesmo tempo espiritual e material (ora et labora = reza e trabalha; de onde vem a palavra laboratório = labor + oratório).
Segundo Frater Albertus, "ervas, animais e metais - tudo cresce a partir da semente". Esta "semente" é denominada spiritus ou astra. Os metais, como seres vivos, podem estar sujeitos a doenças diversas, como comprovam alguns experientes radiestesistas ou radiônicos, inclusive eles podem até 'morrer', e geralmente os metais que empregamos estão realmente mortos, uma vez que perderam seu spiritus. O uso de alguns destes metais 'adoecidos' ou de ligas metálicas cuja combinação se origina de metais de caracteres diversos, pode precipitar o surgimento de diversos males.
Segundo a filosofia alquímica e os princípios da magia, os sete metais planetários são os que mais acumulam spiritus de natureza análoga à "influência" planetária correspondente. Eles apresentam um ritmo energético oscilante, de acordo com a posição do astro a ele associado (é o "biorritmo" do metal).
Como o próprio Hahnemann (fundador da homeopatia) comprovou, as coisas que são de alguma maneira semelhantes na natureza de suas vibrações características têm afinidade entre si. Isto é conhecido como "Princípio das Correspondências ou Concordâncias". Os florais e a homeopatia baseiam-se em princípios elementares da alquimia herbácea (alquimia vegetal, que compõe a "Pequena Circulação", em contraposição à alquimia mineral ou "Grande Circulação"). Em ambos os casos, o princípio activo é a quintessência dos elementos impregnada num catalisador (água ou álcool).
A alquimia é, antes de mais nada, um sistema de autotransformação. O caminho é ao mesmo tempo espiritual e material. Existem duas vias para o pesquisador: a via húmida e a via seca (ou a do sábio e do filósofo). Uma é mais rápida do que a outra; no entanto, é muito mais arriscada.
A transmutação ocorre livre na natureza e intriga diversos pesquisadores:
como é possível que uma galinha, cuja ração é absolutamente carente de cálcio, possa gerar ovos, sabendo-se que a descalcificação de seus ossos não responde o suficiente para o processo? Como um pinto recém-nascido pode ter mais cálcio do que a gema que o gerou?
Estes e muitos outros mistérios serão esclarecidos no dia em que o homem se debruçar sobre o conhecimento antigo, sem preconceitos, e estudá-los com afinco, como nos diz Fritjof Cappra ("O Tao da Física").”. - Do texto: Alquimia: O Uso das Vibrações na Transmutação, de Eduardo Rocchigiani.

Este texto explica de forma simples e clara o aparecimento da alquimia e os seus propósitos. Interessa-me na medida em que realça o sentido da sublimação do espírito e do corpo, independentemente de frases menos interessantes que nele possam existir...

Há uma mistura de Dadaismo e Surrealismo na obra de Yves Klein que me intriga, pois ambas as correntes foram também marcos no meu pensamento estético. Embora a corrente Dadaista não tenha nada de místico, até bem pelo contrário, força a desvalorização da arte e do seu poder encantatório - movida pelos enganos próprios das elites que arruinam muitas vezes a arte - e exprima um asco pelo poder das obras e dos artistas, o Surrealismo vem, enquanto filho fecundo de um movimento condenado à morte, relançar a arte como manifestação de índole sagrada, do domínio do onírico, do irreal - ou melhor dizendo: do real ideal.
Devo aqui salientar a importância do livro “O Amor Louco”, de André Breton, que me ajudou a elucidar a ideia que tinha de acaso, destino, consciência, há alguns anos atrás.

Lembro-me agora que o meu encontro com Carlo Majer (o ex-director artístico de um teatro italiano...) em Bilbao, há cerca de dois anos, foi mais uma forma de despertar ou reanimar/relançar em mim interesses relativos às coisas míticas e místicas, dos astros, dos espíritos, das matérias não visíveis, de todas as lendas da Atlântida perdida, ou do homem perdido que jaz no fundo dele mesmo.
Tenho alguns sites, indicados por ele, sobre alquimia, a arte da memória, entre outros assuntos acerca de matérias eminentemente místicas, apelidadas de ciências ocultas... para mim são tão ocultas quanto um problema matemático que não consigo resolver. Não os investiguei profundamente, mas lá chegará a altura.
Nunca encarei estas matérias com aquele ar com que muitos “new ages” as vêm, ou cartomantes, ou espíritas, pessoas que as desvirtuam, mas antes de uma forma séria e igualmente válida de chegar ao conhecimento.
Ao lembrar-me do Carlo Majer, lembro-me que ele me havia dito que tinha uma/s esculturas do Arman (Armand Fernadez), dos “Torso with gloves”, artista que gosto bastante, apesar de não conhecer o seu percurso... E esta lembrança remete-me novamente para o Yves Klein, quando descubro que este tinha uma forte amizade com Arman. Está tudo interligado. O tecido vai-se formando. O frio desaparecendo.

Não quero fazer destes acontecimentos - os encontros espalhados por todo este texto - algo fora do normal, como destinado pelos deuses, mas não lhes posso tirar o carácter poético que possuem. A poesia que está no seu interior é o que lhes dá vida, o sopro que anima, e talvez o que lhes confere objectividade.


O oriente (parte II)


O oriente apareceu-me primeiro na forma de lutadores de Sumo, há três anos atrás (no quarto ano de pintura), na minha primeira exposição, e o título desta também me remete para um universo intrínseco, distante, implícito: “implicit movement”. As figuras dos lutadores de Sumo (*) constituíram para mim, não só um interesse pictórico, devido à sua corpulência, mas também ao invisível dos seus movimentos, já de si aparentemente lentos, mas cheios de força e segurança, tendo ambos os pés bem assentes no chão, e o movimento todo concentrado em poucas manifestações corporais, limitando-se a empurrar o outro para fora do círculo. Os combates são explosivos e duram muito pouco tempo, sendo o máximo (?) 3 minutos. (E lembro-me agora do nome de uma das minhas músicas: “Círculo vermelho em superfície vermelha”, anterior a todos estes acontecimentos...). Quatro lutadores de Sumo deram o nome à minha primeira exposição, e tornam a aparecer agora no meu discurso.




(*1/2) - The history of sumo can be tracked many centuries back. Chinese chronicles of the first millenium B. C. mention the syanpy martial arts. The hieroglyphs for syanpy in Japanese sound like soboky. Nowadays they are pronounced as sumo. Very often the word sumo is linked to Chinese dzuedi wrestling that has been also known from the ancient times. Some researchers even say that sumo is spoken about in Buddhist texts of Lotus Sutra that is the main masterpiece of Buddhist literature. They say that before becoming Buddha Siddhartha Gautama was very fond of wrestling and fist fighting.
           Still, these facts bear little relation to modern Japanese sumo wrestling. It is impossible to find out when and where it was born. All we know is that sumo became very popular in Japan during Heiyan epoch (8 - 12 centuries). During this period of time all the celebrations at sinto temples included sports games for samurais, traders and craftsmen. The social status didn't mean much for people taking part in these competitions. In 821 there was a special addition made to the Curriculum of court ceremonies in order to set exact dates for sumo fights. Three months ahead of a competition the emperor's servants would visit all the provinces searching for good wrestlers. Those selected for knock-out competitions would gather for a misiavase ritual meeting that was usually held at emperors' palaces. Yards at palaces would be covered with sand and used as sports arenas, and Kioto would become one huge stadium. Fighters would be divided into two teams. The best heavy-weight wrestler was called hote. He was followed by vaki wrestlers and 17 other categories of fighters. The main difference between Heyan and modern sumo is that in ancient times there were no rules or limitations. This often resulted in traumas during competitions. After each fight the referees would announce a name of a winner and stick an arrow into the ground. Only important commanders could be referees. If they could not come to an agreement among themselves then an emperor would say his final word that was regarded as speech of sinto gods.
          The last competition of this kind took place in 1174. The great discord that started in the country almost destroyed the ritual meaning of sumo. It was revived only during Tokugava epoch. At this time its 72 rules were finalized and a certain procedure for competitions was set forth. Since then not much has changed.
          Starting from Tokugava epoch a special ring (dohe) started to be constructed for sumo wrestlers. It has an area of 18 square feet and is lifted two feet above the ground on a clay base. The fight takes place in the inner circle. Its diameter is a little bit larger than 15 feet. Sometimes a special roof that resembles a roof of a sinto temple is constructed .
          In order to win a fight you have to force your opponent to touch the ground with any part of his body or push him out of the inner circle. It is completely against the rules to hit him with a fist. Since there are no weight restrictions sometimes you can see two people of different weight categories fighting with each other. Though the technical side is very important often a fatter wrestler wins. On top of a fighters' list you will see names of 5 best wrestlers: jokodzuna (an absolute winner), odzeki (a winner), sakivake, komisubi and maegasira. The competitions start with fights between rikisi (ordinary wrestlers) and finish with fights between champions. Each wrestler takes part in one fight a day. Each time he has a new opponent.
          The Jokodzuna title was put in use three hundred years ago. Since that time only fifty wrestlers were considered good enough to bear it. In order to get this title, a fighter has to win at least two championships. The champion holds this title throughout all his life even if he starts losing fights.
          During the fight rikisi are wearing torimavasi, a wide cloth belt which is nine meters long. They are also wearing a special string on their hips. It has zigzag cloth strips attached to it. This is a special sinto gohei talisman for protecting a wrestler from evil spirits who are also fond of sumo! Sumo masters are entitled to a special pseudonym, sikona. It includes one hieroglyph from a wrestler's teacher's name and one from a club's name. Very often sumo fighters would take a special name which is translated like Lightning, Thunder, Hurricane, etc. Sometimes names could be of a boastful character, i.e. Tamer of dragons, or Terror of Edo or Fortress of Iron Clods.
          But the most amazing thing in sumo wrestling are the wrestlers themselves. They are real giants with huge muscles and thick layers of fat. Still they are very lithe. They get training in special schools that accept boys who are 10-15 years old. Though sturdy and strong boys have the advantage no one of them looks like a real sumo fighter. The specific shape of their bodies is achieved through hard training. The special attention is paid to the growth of muscles and the increase of weight. For instance, the famous fighter by the name of Ktanofudzi weighed only 66 kg when he was young. When he became a celebrity his weight already was 132 kg!
         Sumo wrestlers have a very strict day schedule. At 6 o'clock on an empty stomach they start training that lasts for 4 or 5 hours. Then they take a hot bath (furo) and have breakfast. For breakfast they have whatever they want. They usually eat five or six ordinary meals. After such a heavy breakfast they take a nap which is necessary to digest food. At the end of the day they have another training and then eat a light supper. Sumo wrestlers are allowed to drink alcohol. They prefer bear and sake. Though the giants eat only twice a day they grow muscles extremely fast since their food ration is based mostly on rice and meat dishes. The bodily mass is a special attribute of sumo wrestling. After wrestlers retire they get rid of fat with the help of massage and diet. Usually the whole process takes up to 3 or 4 years.
          Besides the excessive weight sumo fighters are famous for their weird hairstyles. When in 1871 the emperor Maizy issued a decree about haircuts only rikisi managed to avoid them. They retained their right to wear complicated hairstyles. Nowadays in Japan there are only 10 tokoyama, people who specialize in creating sumo hairstyles. Most of sumo fighters apply to the services of their apprentices.
          The referees also look very colorful! Their kimonos are made in accordance with the styles developed 600 years ago. Referees rank is recognized by the color of tassels on his fan. Champions' fights are refereed by very special people. They have right to wear tabi socks and straw geta sandals. Other referees are barefoot. Before a fight starts they walk along a ring throwing cleansing salt on the ground. It is done in order to get rid of evil spirits. They use 15 kg of salt daily!
          Nowadays in Japan 6 grand championships are being hold within a year, each of them lasts 15 days, three days in Tokyo, one day in Osaka, one day in Nagoya and one day on Kiusy island. At the end of a championship a winner is awarded with the Emperor's Cup. By that day the Japanese sumo association will have bandzuke (tables with names of winners) produced. After everything is finished fans start waiting eagerly for another championship.
Por Alina Gorlova.

(*2/2) - Think of the best Japanese sports star. Best bet says that you thought of last year's AL MVP, Ichiro Suzuki of the Seattle Mariners. Ichiro is a Japanese media darling, but in Japan, baseball and all other sports play second fiddle to another sport.

The Japanese pastime is good ol-fashioned hard-nosed sumo wrestling. If you have ever watched sumo wrestling, it is easy to see why it is so popular. A sport can't get much more entertaining. If you are lucky enough to catch one of the tournaments, or bashos, on ESPN, make sure that you sit down and watch. Sumo is a combination of sport and ancient ritual that originated in ancient times as a religious ceremony to the Shinto gods.

Many of the rituals are still performed today, such as the tossing of salt onto the dohya, or ring, and the series of traditional bows. The rules are amazingly simple: The wrestler that touches the ring with anything other than the sole of the foot or leaves the ring before his opponent is the loser. The fights themselves are extremely explosive, usually lasting only seconds, but in rare cases can last as long as three minutes. Six tournaments are held each year, each of which lasts 15 days. The wrestlers' fights are spread across these days so they only fight one match a day.

Three of the tournaments are held in Tokyo and one each in Fukuoka, Osaka and Nagoya. Don't let the blatant obesity of the wrestlers fool you. Sumo fighters are not overweight buffoons who simply use their blob to bully. The most elite wrestlers are highly trained athletes between the ages of 20 and 35. They consistently work out and, surprisingly, eat large quantities of food and then go to bed right after eating in order to gain mass.

These wrestlers have the best poker faces in the world because of their strictly regimented lives living in special sumo houses. Although the perception is that sumo is just a sport where two lugs use their brute bulk to win a match, the sport requires much skill and technique. One basic characteristic about sumo is that you can't use a closed fist. This is why on TV you see the sumo is slapping each other in the face. There are hundreds of sumo techniques, each with a Japanese name, so it would be too tedious to list them all.

Remember when, in the WWF, there used to be that wrestler named Yokuzuna? Well, that wasn't the guy's name. Yokuzuna refers to the highest rank in the sport of sumo. At the moment there are only two wrestlers who have the rank of Yokuzuna: Takanohana and Masashimaru. When a wrestler attains the rank of Yokuzuna, he cannot lose it. If a Yokuzuna can no longer perform at the highest level of fighting and his results begin to worsen, he is expected to retire.

My personal favorite wrestler is Takanohana. He is a relatively little guy and at 20 was the youngest wrestler ever to go from being an Ozeki, the second-highest ranking, to a Yokuzuna. The other Yokuzuna, Masahimaru, is a good wrestler to follow because he was born in the United States. This was just a brief intro to the huge, no pun intended, world that is sumo wrestling.

There is so much more to be told, but the important thing is that at least you know that it is a serious sport and not just a cultural cliche. The challenge now is finding a match on TV. Once you find one, it won't be tough spotting the wrestlers.

Mike Victor is a freshman in LAS. He can be reached at sports@dailyillini.com
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Depois, o oriente apareceu-me, sem o procurar objectivamente, ou de forma predeterminada, na forma mais rápida que encontro, no jogo de ping pong (*), nos corpos delgados e ágeis dos seus “lutadores”, e tudo isto a servir como metáfora da comunicação. (e lembro-me do meu primeiro livrinho de 1997: “Utopia da comunicação”). É curiosa a escolha de ambos os desportos, pois parecem estar em campos opostos, tanto fisicamente como intelectualmente, ou pelo menos a nível do tempo. Curioso também é o facto de ambos serem orientais... Costumo dizer que sou feito de contrastes, e encontro sempre vários indícios dessa mesma afirmação...
A comunicação sempre constituiu para mim um motivo de interrogação, de preocupação, de investigação ingénua.


A comunicação


Passo em seguida o texto que acompanhou a exposição:

Ping Pong - Munições para um diálogo
(Divagação metafísica de mesinha-de-ténis sobre a comunicação)

Dir-se-ia que o mundo volveu louco, que já está tudo feito, que todos somos esquizofrénicos, que a essência do ser humano já se perdeu, que as máquinas são o espelho da alma humana e vice-versa, que tudo não passa de um jogo, que só esperamos a chegada de um fim há muito temido, embora aguardado.

Eu diria que tudo continua, que as loucuras são as mesmas, as verdades as mesmas, as questões continuam a ser as mesmas, a essência humana é a mesma, e o jogo é também o mesmo de sempre.

O jogo é tudo isto junto. Talvez apenas os palcos mudem, os jogadores, as vestimentas, os utensílios, as regras superficiais, as subtis configurações que tecem o espaço. Quem pela primeira vez estabeleceu a metáfora no mundo das palavras percebe o que quero dizer. Andamos de cá para lá, de um lado para o outro, num ping pong em loop, com regras estabelecidas, comportamentos predeterminados, palavras de conveniência, sorrisos de circunstância ou não, fabricando novas leis, novos crimes, novos amores, novas bombas, novas aves de ferro, novos sons, novos cheiros, novas cores, novas virtualidades, novas anedotas, novos poemas, um número gigante de coisas boas e más, sempre a aumentar e sempre numa linha que parece não existir e teimar em fugir ao peso dos nossos pés sedentos de caminho, de chão, de terra firme.

Apresento-vos aqui a minha pequena metáfora do mundo: o jogo.

Esta coisa estranha, inventada pelos não menos estranhos humanos, que serve para vários fins, e necessariamente expressa-se nas mais variadas formas:

- o jogo do poder, a sensação da vitória sobre a derrota e humilhação do outro;

- o jogo pelo gozo do jogo, da partilha de um espaço que se desenha ao som do acaso, com a participação de uma ou várias pessoas que bailam ao som do mesmo ritmo;

- o simples gozo corporal, do suor que sai e liberta sensações, a adrenalina que arrebata o corpo com os seus furacões;

- o jogo da intelectualidade, do cérebro que traça objectivos a curto prazo para conquistar uma melhor arrumação interior;

- o jogo da vida, onde por vezes se confronta a própria existência, tentado superiorizar o comando divino dos deuses;

- o jogo do jogo do jogo, este constante labirinto paradoxal onde o homem procura o seu princípio e fim. Um feed back monumental.

Apresento-vos isto também numa metáfora de preto sobre preto, para tornar difícil a percepção, tal como na realidade ainda não se vislumbra a imagem que o véu platónico cobre, tal como os nossos olhos não conseguem ver a verdade que já lá está, e sempre estará, tal como a cegueira se veste com um manto negro semelhante àquele que nos cobre a cabeça durante a noite... o céu.

Divirtam-se.

Hugo Santos, 2002.

quinta-feira, julho 22, 2004  
Blogger Hugo Santos - Portfólio said...

A comunicação, ou a ausência dela, ou a sua dificuldade, sempre andou a rodear os meus textos/poemas, e penso que será pertinente passar alguns deles. Têm cerca de três anos:


Poema I

O dizer II

Um turbilhão de ideias
No limiar do inteligível
Que vai do pensar ao dizer
E que tudo faz p-a-r-a-r:
A arte de não saber falar

Poema II

O dizer III

Mais uma vez
O homem de fios de nylon,
Descalço,
De costas voltadas
Realiza longas palestras
De valores morais
Que embocam no vazio.

Nem na repetição
Parece alcançar o que repete.

Poema III

O Dizer IV

Falar (pintar) já não é uma abertura
É cada vez mais uma construção de muros.
É necessário recortar
Da silhueta dos adjectivos
Os defeitos


O oriente - o início (um cobertor e um livro)


Há meio ano atrás, quando estive no curso de Desenho Assistido por Computador, conheci um amigo que, por ironia do destino, é estudante da língua chinesa, e no meio do curso viajou até essa terra longínqua que tanto fascínio nos traz, a nós, Ocidentais.
Eu ainda não tinha qualquer tipo de relação consciente com o oriente, mas mais tarde esta veio a ser mais uma das muitas peças importantes do puzzle.

Em Dezembro, quando comecei a empreender novamente a minha actividade nos lutadores de Sumo, a duas semanas do Natal, a minha mãe aparece em casa com uma “prenda” para mim. Era um cobertor para a cama com caracteres chineses...
Eis que surge o Natal, e uma tia oferece ao meu pai um livro de um chinês, François Cheng, que fala acerca de um pintor chinês, Tianyi.
Começo então a ler o romance e as imagens que ele me evoca são em tudo semelhantes às sensações que por vezes tenho relativamente às brumas, às neblinas, às coisas que estão escondidas e apenas são visíveis com alguma dificuldade, como se se tratassem de aparições, ao mesmo tempo concretas e fugidias. A importância do elemento etéreo, a nuvem, era semelhante à que eu próprio muitas vezes sentia. Este livro falava para mim e parecia muitas vezes a minha própria voz.
A coincidência destes dois acontecimentos - o cobertor e o livro - abalou-me de uma forma incrível. O livro parecia ter aparecido para terminar um estado de sonolência e despertar um novo amanhecer. O cobertor parecia ter servido para aquecer a noite anterior a esse despertar...
Outro acaso, que ainda pode ter alguma curiosidade, foi tudo isto acontecer na passagem de ano, como se um novo nascimento brindasse a minha existência.

Foram estes dois acontecimentos - do livro e do cobertor - devido à sua enorme coincidência e num espaço de tempo tão limitado, que despertaram em mim, juntamente com tudo o resto, esta consciência do oriente e simplesmente a existência deste texto. Pode parecer um motivo insignificante, mas o que é certo é que foi este, e talvez o facto de ser tão insignificante o torne ainda mais especial.


As nuvens.


“Desde essa época que, ainda que de modo confuso, eu tinha a intuição de que a nuvem seria o meu elemento - essa coisa que é imaterial e todavia substancial, essa presença etérea e quase palpável. Virei a compreender mais tarde - quando chegar à idade de compreender porque é que os Chineses são tão apaixonados pelas nuvens, porque é que usam a expressão «nuvens e chuvas» para designar o acto de amor e o estado de êxtase, porque é que os poetas e os tauistas falam de «comer brumas e nuvens», de «afagar brumas e nuvens» e de «dormir com brumas e nuvens». No fundo, o que é a nuvem? Donde vem? Para onde vai? Eu que tinha todo o tempo para a observar, via que ela nascia do vale sob forma de brumas, depois subia às alturas até atingir o céu onde podia vogar à vontade e tomar todas as formas, ao sabor do tempo, ao sabor do vento. De vez em quando, como se não esquecesse da sua origem, consentia em regressar à terra sob forma de chuva, cumprindo um percurso circular. Portanto, estava sempre algures mas não era de nenhures. Então o que era? Nada. Mas parecia que sem ela o céu e a terra teriam sido monótonos”. - do livro: O que disse Tianyi.

Outra das expressões que são utilizadas acerca do trabalho de Yves Klein, é o “espaço etéreo” que tanto o intriga. (e lembro-me das minhas músicas: “Ethereal Mood”). Isto também me faz lembrar uma frase que a A. (colega da internet) me disse acerca de mim ou do que de mim pressentia: “já reparaste que falas sempre em ar, em coisas suspensas, coisas penduradas?”.
Vem-me à memória uma música que fiz, a partir de um poema já um pouco antigo, há cerca de seis anos atrás, e que até serviu de motivo de gozo para alguns. O poema intitulava-se: “I am a cloud in the open sky”. Os colegas que o comentaram disseram que já tinham pensado em ser várias coisas, o Sol, a Lua, uma flor, o rio, o mar, uma montanha, agora uma nuvem nenhum deles queria ser!
E o poema era assim:


Poema IV

I am a cloud
In the open sky
I see myself so white.
I wish I could rain all over you
If I was really a cloud
And white.


Este poema também foi recordado quando comprei um álbum que ouvi em Bilbao, na loja onde conheci Carlo Majer, disco esse que fez com que o encontro fosse possível, pois Carlo já não o ouvia há muitos anos e andava à procura dele. Eu tinha-o na mão, juntamente com mais três CD’s, no momento em que ele entra na loja e pergunta pelo disco... Neste álbum de 1968, dos United States of America, que curiosamente só editaram um álbum, existe também um poema acerca de nuvens, “Cloud Song”:


“How sweet to be a cloud,
Floating in the blue.
It makes him very proud
To be a little cloud.

How sweet to be a cloud
Floating in the blue.

How sweet to be a cloud,
Floating in the blue
It makes us very proud
To be a little cloud.

How sweet to be a cloud
Floating in the blue.”


“Este poema parece ter sido feito por/para mim!”, disse eu quando o ouvi pela primeira vez. A semelhança com o meu poema é incrível, e as sensações são as mesmas, levando-me a pensar que há por aí muita gente que gostaria de ser nuvem, embora nem o saiba.

De facto, recorro muitas vezes a esse tipo de representações, usando materiais que remetem para essas “texturas visuais”, também eles com fortes traços orientais de delicadeza e névoa, e tudo começa a querer sair dos confins da incógnita, e o meu mundo de nuvens e imagens desfocadas, parece agora emergir na forma do oriente e do tempo perdido/achado das minhas dúvidas...


Poema V

Erguem-se volumes desconexos,
Em densidades semelhantes às do orvalho
Ou de vapores de algum líquido a fervilhar,
Condensando-se assimetricamente,
Como se um plano arquitectónico existisse
Em cada partícula atómica que os compõem
E estivéssemos a assistir ao começo de um novo mundo,
Que se expande seguro e certeiro.
Assim o palco de todos os tempos surge,
Na perfeição da velocidade do verbo.

Circundado por uma plataforma vermelha
De plantas tropicais, frutos e afins,
Ergo-me no espaço que evoca o teu nome no ar,
Uma nuvem cor-de-rosa fluorescente passa
E o som do teu nome vai chovendo por cima do meu peito
Escorrendo lentamente até ao sexo,
Irrigando-o, até ficar cheio do teu líquido quente,
Como se um dragão estivesse a arder
E ao longe as portas do céu se preparassem
Para receber um novo deus.

Os pássaros cantam louvores em uníssono
Numa melodia abstracta e estridente
Que estremece o chão lá em baixo,
Muito para lá dos nossos pés,
Onde tudo está parado, numa velocidade quase negativa,
E as janelas do céu abrem-se em cores
Como se uma paleta fosse derramada
E a obra de arte fosse o próprio acontecimento,
Mas os críticos somos nós
E em silêncio vamos cantando amores.


Poema feito algures no final de 2002... bem mais recente, mas igualmente antigo... o ar e as nuvens permanecem...


Contemplação religiosa - vs - lúdica.


Acerca da exposição de ping pong gostaria de falar acerca do facto de, desde que me conheço, não olhar para as obras de arte sob o ponto de vista lúdico, mas sempre com um caracter religioso, de silêncio, de introspecção, de contemplação. Digo isto porque a maior parte dos visitantes da minha exposição/instalação, olharam para ela sob um ponto de vista lúdico, estando mais interessadas nas “bolinhas a abanar” e nos “fiosinhos”, e no quão curioso era o brilho que fazia aparecer e desaparecer as imagens... e ainda: “Oh! Isto tem som!”... Essas observações conduziam-me sempre para um estado de solidão muito grande, por vezes as lágrimas vibravam por dentro dos olhos.
Recordo-me ainda que algumas pessoas se tentaram sentar nas cadeiras, mesmo estando impossibilitadas disso pelas roldanas e os fios... e de ter comentado esse facto com o professor R.C., e este ter dito: “para que é que se querem sentar quando lá estão milhões de pessoas sentadas? Está lá a humanidade toda!”. Felizmente existiam frases destas para me consolar...


Dificuldades, energias.


Algo não me está a deixar fazer os meus Sumos... alguma coisa, talvez eu próprio, não me está a facilitar a vida, e o preto sobre preto, nestes Sumos, está a custar muito mais do que devia. Até agora já fiz três, e todos eles ficaram mal... tive que os tapar de novo...
Porque será que estas energias surgem assim do nada? Se reparo nelas é porque de facto tenho motivos para reparar, caso contrário não pensaria nisto. É como uma dor que nos afecta, porque existe, porque a sentimos, e porque se não existisse simplesmente não era sentida.
Penso que é o acaso, o dito acaso, que me está a dizer algo... provavelmente para trabalhar com mais afinco, mais dedicação, mais calma, mais ponderação, mais consciência, mais método. Ora cá está uma palavra que me faz falta: método.


Relativamente ao método.


“Não te desorientes. Não fiques com esse ar de quem não sabe para onde se há-de virar. Há por aí muitos quadros acumulados. Vou dar-te um conselho, palavra de copista. Limita-te a alguns pintores que te dizem alguma coisa, dois, três, quatro, não mais. Estuda-os a fundo. Estuda cada uma das suas obras. Acabas por lhes entrar na intimidade. Nessa altura ficas a saber o que os faz meão mais. Estuda-os a fundo. Estuda cada uma das suas obras. Acabas por lhes entrar na intimidade. Nessa altura ficas a saber o que os faz mexer, o que os motiva, os processos que usam. Acredita: não é preciso ser-se génio para se conhecer o génio por dentro. Quando se consegue isso, até um Vinci, até um Miguel Ângelo deixa de te parecer sufocante. Passas a falar com eles como nós estamos aqui a falar entre amigos”. - do livro: O que disse Tianyi.

É curiosa a forma como o livro de François Cheng me vai acompanhando em muitas interrogações recentes, e não só. No momento em que escrevi aquele pequeno comentário acerca das dificuldades que estava a encontrar, eis que aparece a parte do livro que contém o texto que agora transcrevi. Há coisas que são mesmo assim, prontas para acontecer num momento e em nenhum outro.

Dia 09, de 2003. Hoje conheci uma rapariga de Macau. O oriente está mesmo aqui a pedir qualquer coisa! Pode ser tudo treta, mas que sabe bem, sabe!


O Caos.


“O Caos é uma teoria matemática que permite descrever sistemas instáveis como os movimentos dos planetas e as variações meteorológicas.
Se por um lado temos os mecanismos, sem dúvida complicados mas previsíveis, por outro o que temos? Que nome das ao que se pode observar sem compreender o que se passa e sem adivinhar o que vai acontecer?... Chama-se Acaso!
Neste pequeno livro vamos aprender a reconhecê-lo e, em seguida, a fabricá-lo. Vamos procurar saber qual o lugar da matemática nas ciências.” - do livro: O Caos, de Ivar Ekeland.

Outro dos meus interesses foi, e é, o Caos. Apareceu-me numa conferência acerca do culto do corpo na artes plásticas. Lá disse-se que o Caos era representado geometricamente/matematicamente através de uma grande espiral, formando uma elipse. Digamos que a média, ou a união de todos os pontos caóticos de um sistema, dá origem a uma forma circular. Essa foi uma imagem que me ficou na retina.
Este interesse levou-me à compra de dois livros acerca do Caos: “O Caos” de Ivar Ekeland, e “O Esplendor do Caos” do Eduardo Lourenço.
Um deles, o primeiro, é directamente relacionado com a matemática do Caos, os mecanismos deste, e as suas aplicações formais. O segundo, fala da quantidade de informação, de meios, de indivíduos, de produtos que circulam nos tempos de hoje, e na crescente preocupação que os mass media representam nesta era da informação. Tem uma vertente, por isso, sociológica, abordando o caos sob um ponto de vista bem mais filosófico/social do que o primeiro.
E porque me apareceu o interesse pelo Caos relativamente a questões formais?
Sinceramente não tenho resposta concreta para dar. É um interesse mais de índole intuitiva e filosófica, do que propriamente estética. Mas também tem referências com o Minimalismo e, como é obvio, com a pintura de Jackson Pollock.
Relativamente ao trabalho de Pollock, que considero essencialmente Minimalista, embora o enquadrem no Expressionismo Abstracto, o que é igualmente válido, tem uma passagem no livro de Lekeland que demonstra o que sinto:

“Digamo-lo de outras maneiras, à Cyrano. Libertário: a única regra é que não há regra. Metafísico: o passado não determina o presente. Prático: se quisessem guardar dez milhões desses algarismos no vosso computador, só poderiam pô-los um de cada vez na memória; não existe programa que permita poupar tempo ou espaço”. - do livro: O Caos, de Ivar Ekeland.

Relativamente ao Minimalismo, o Caos interessa-me por frases como estas:

“Para conhecer a trajectória de um sistema determinista basta conhecer a sua posição inicial; a duas posições iniciais diferentes corresponderão a duas trajectórias diferentes. Um sistema é caótico se amplifica, por pouco que seja, os desvios iniciais (...)”;“É na amplificação dos pequenos desvios que se aloja o acaso. (...)”;“Um desvio de um átomo, amplificado um número suficiente de vezes, pode tornar-se considerável. Dez elevado a nove, nove vezes o tempo característico de um sistema caótico, e o desvio atinge um metro. Obtêm-se assim fenómenos macroscópicos que serão atribuídos ao acaso porque as suas causas serão imperceptíveis”. - do livro: O Caos, de Ivar Ekeland.


É nesta ordem de escala, que parece estar um dos mecanismos do Minimalismo, da repetição e da sensação de vazio que ele traz.
Expliquei outro dia a uma amiga minha a sensação que eu tinha acerca das texturas minimalistas, tendo como ponto de partida a camisola dela. À primeira olhadela, a camisola tinha uma cor cinzenta. Aproximando-nos um pouco reparávamos que esta tonalidade era feita com duas cores diferentes: branco e cinzento. Mais uma aproximação e sabíamos que essa tonalidade era obtida mediante a junção de um entrançado entre dois fios, cada um com a sua cor diferente, e o entrançado tinha uma sistematização obvia, embora o resultado da junção fosse caótico. Em ultima análise sabíamos que existia um padrão de linhas que se cruzavam dentro de uma forma sistemática e aleatória, mas que numa micro escala perdíamos a noção do número de linhas que compunham cada fio de lã da camisola. Tentava provar com isto que os resultados do Minimalismo surgem pela sistematização de um determinado conjunto de factores, caóticos ou não. A junção destes factores pode conduzir - normalmente conduz - a uma homogeneidade pictórica, a uma única forma, como se pudéssemos viajar suficientemente longe para não nos apercebermos das diferentes partes que a decompõem, ou suficientemente perto para perdermos a noção de todo e partes. O Minimalismo funciona como uma lupa de ampliação ou distanciamento relativamente a um objecto/signo.

Pegando agora um pouco no Expressionismo Abstracto, lembro-me de, desde muito novo, ter ficado fascinado pelo trabalho do Tàpies e do Álvaro Lapa. Ainda andava de “fraldas” no que diz respeito ao conhecimento estético, quando este interesse/paixão surgiu. Foi por isso um interesse intuitivo, fruto de um verdadeiro gosto, alheio a influências ou modas. E de onde veio esta empatia? Talvez por este movimento dar tanto aso ao aparecimento do acaso, do Caos, do imprevisível dos movimentos, do tempo.

Existe uma outra definição do acaso, que não diverge desta, que se encontra no livro de Breton e que diz o seguinte:

“Tendo o acaso sido definido como uma causalidade externa e de uma finalidade interna, trata-se de saber se uma certa espécie de «encontro» - neste caso o encontro capital, ou seja, por definição, o encontro subjectivado ao extremo - poderá ser encarada sob o prisma do acaso, sem que isso pressuponha logo uma petição de princípio”. - do livro “O amor louco” de André Breton.

Este poema de 2002, já tem grande parte da alegria (penso ser mesmo esta a palavra) que me contagia quando analiso o acaso, as mínimas pistas que o passado e o presente dão para o futuro:


Poema VI

Acaso

Das melhores coisas que me foram dadas pela vida
Foi descobrir o prazer de andar de mãos dadas com o acaso,
Medir os actos com uma escala sem medidas
Dançar com a eterna onda que cobre as coisas.

Desvendar o acaso
É a sensação mais próxima que tenho com Deus e as coisas.


Movimento Zero


Fiz descobertas interessantes, ontem, dia 14 de Janeiro, ao ler partes de um livro de arte, enquanto procurava informação acerca de Yves “le monochrome”. De uma certa forma poderia considerar que já o deveria ter feito, pois “um aluno que se preze deve conhecer estas coisas”, e já tenho o livro há 2 anos. Mas se não o li foi porque não era altura e como é sabido, há uma altura para todas as coisas, e tinha chegado o momento desta.
Fiquei a saber que Yves Klein deu origem ao movimento Zero, embora não tivesse como intenção instituir qualquer corrente, e que todos os membros deste grupo, principalmente o mentor, Otto Piene, ficaram fascinados com o poder da obra dele. Peine chegou mesmo a escrever: “é a encarnação presente do santo, profeta, messias”.
Na pequena transcrição do manifesto Zero encontramos o seguinte: “ Zero é silêncio, Zero é princípio, Zero é redondo, Zero está em rotação”. As palavras chave são idênticas às utilizadas ao longo de todo este texto. Ele para mim não é nenhum profeta, nenhum messias, mas alguém com quem sinto afinidades pelo menos no que diz respeito às questões estéticas.

Por acaso, vasculhando uns cadernos já um pouco antigos, com perto de quatro/seis anos, encontrei um outro poema, que já nem me lembrava dele, mas que me parece muito curioso...:

Poema VII

Provavelmente nós somos a utopia!

Devoramos as palavras
Destruímos os verbos
Mastigamos os adjectivos

Provavelmente nós somos a utopia!

Vestimos as cores
Alteramos as formas
Planificamos as texturas

Provavelmente nós somos a utopia!

Envolvem-nos sons distantes
Somos feitos de paradoxos
Crescemos em círculos

Provavelmente nós somos a utopia!
Provavelmente nós somos a utopia!
Provavelmente nós somos a utopia!
Provavelmente não somos a utopia...

Devo dizer que se fosse escrito hoje não terminaria de forma tão pessimista. Nós seriamos realmente a Utopia!!

Dentro deste grupo, descubro o interesse que tinham pela luz e pela sombra, e a ponte com os meus últimos trabalhos (e não só...) em preto sobre preto, é de imediato construída, e em plena consonância com esta ideia.
Acerca de Heinz Mack, um outro membro do grupo, o livro diz o seguinte: “tentou muito cedo escapar da bidimensionalidade ao mesmo tempo plana e ilusionista, e fez vibrar a vida no plano pictórico. O resultado foi uma série de vibrações extremamente sensíveis e pictóricas realizadas durante os anos pioneiros do grupo Zero. Mas uma vez descobriu o encanto da luz reflectida, depois de ter pisado uma fina folha de metal estendida sobre uma almofada e ter obtido uma impressão da sua textura, Mack sentiu-se obrigado a abandonar a pintura, pelo menos durante um tempo”.

Ainda nestas correntes encontro nomes como: Lucio Fontana e os seus cortes para uma abertura do espaço/(tela?) e entrada de luz, obras que me tinham impressionado positivamente no museu Thyssen-Bornemisza, quando lá fui pela primeira vez; e Piero Manzoni com a sua “merda d’artista” pela qual sentia grande cumplicidade, embora certamente não gostasse do cheiro no caso de a ter perto de mim...
Novamente, o Surrealismo implícito a um e o Dadaismo de outro, são marcas a registar. Mas cabe-me aqui dizer que não gosto de movimentos, grupos, coisas fechadas, delimitadas e por isso limitadas, mas bem pelo contrário, sou apologista da abrangência. Algo que os Surrealistas de certa forma vieram evidenciar foi a existência de um fio condutor em toda a história da arte/vida, que é comum a todas as expressões humanas e que deve ser respeitado e evidenciado. Todas as correntes o têm, embora o percam ou o tornem frágil quando se estabelecem como corrente, como movimento que, como todos, limita-se pela oposição.
Sou por isso apologista de uma certa solidão artística, ou uma total preservação da individualidade, sendo essa a única forma de estar em sintonia com o todo, com a pluralidade.

É obvio que, ao salientar as correntes Surrealista e Dadaista, estou a delimitar o meu campo de referências, mas de qualquer das formas é sempre difícil escolher e, uma vez que somos obrigados a fazê-lo, não me resta outra alternativa. Limito-me aqui a pôr a advertência e dizer que são estas as referências mas poderiam ser outras, se noutro espaço-tempo se tivessem revelado.


Conclusão??


Gostaria de terminar este texto inacabado passando novamente uma frase que me parece importante como conclusão:
“(...) e tudo começa a querer sair dos confins da incógnita, e o meu mundo de nuvens e imagens desfocadas, parece agora emergir na forma do oriente e do tempo perdido/achado das minhas dúvidas...”.





Hugo Santos Janeiro/Fevereiro de 2003

quinta-feira, julho 22, 2004  

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