As nuvens.
"Desde essa época que, ainda que de modo confuso, eu tinha a intuição de que a nuvem seria o meu elemento - essa coisa que é imaterial e todavia substancial, essa presença etérea e quase palpável. Virei a compreender mais tarde - quando chegar à idade de compreender porque é que os Chineses são tão apaixonados pelas nuvens, porque é que usam a expressão «nuvens e chuvas» para designar o acto de amor e o estado de êxtase, porque é que os poetas e os tauistas falam de «comer brumas e nuvens», de «afagar brumas e nuvens» e de «dormir com brumas e nuvens». No fundo, o que é a nuvem? Donde vem? Para onde vai? Eu que tinha todo o tempo para a observar, via que ela nascia do vale sob forma de brumas, depois subia às alturas até atingir o céu onde podia vogar à vontade e tomar todas as formas, ao sabor do tempo, ao sabor do vento. De vez em quando, como se não esquecesse da sua origem, consentia em regressar à terra sob forma de chuva, cumprindo um percurso circular. Portanto, estava sempre algures mas não era de nenhures. Então o que era? Nada. Mas parecia que sem ela o céu e a terra teriam sido monótonos". - do livro: O que disse Tianyi.
Outra das expressões que são utilizadas acerca do trabalho de Yves Klein, é o "espaço etéreo" que tanto o intriga. (e lembro-me das minhas músicas: "Ethereal Mood"). Isto também me faz lembrar uma frase que a A. (colega da internet) me disse acerca de mim ou do que de mim pressentia: "já reparaste que falas sempre em ar, em coisas suspensas, coisas penduradas?".
Vem-me à memória uma música que fiz, a partir de um poema já um pouco antigo, há cerca de seis anos atrás, e que até serviu de motivo de gozo para alguns. O poema intitulava-se: "I am a cloud in the open sky". Os colegas que o comentaram disseram que já tinham pensado em ser várias coisas, o Sol, a Lua, uma flor, o rio, o mar, uma montanha, agora uma nuvem nenhum deles queria ser!
E o poema era assim:
Poema IV
I am a cloud
In the open sky
I see myself so white.
I wish I could rain all over you
If I was really a cloud
And white.
Este poema também foi recordado quando comprei um álbum que ouvi em Bilbao, na loja onde conheci Carlo Majer, disco esse que fez com que o encontro fosse possível, pois Carlo já não o ouvia há muitos anos e andava à procura dele. Eu tinha-o na mão, juntamente com mais três CD’s, no momento em que ele entra na loja e pergunta pelo disco... Neste álbum de 1968, dos United States of America, que curiosamente só editaram um álbum, existe também um poema acerca de nuvens, "Cloud Song":
"How sweet to be a cloud,
Floating in the blue.
It makes him very proud
To be a little cloud.
How sweet to be a cloud
Floating in the blue.
How sweet to be a cloud,
Floating in the blue
It makes us very proud
To be a little cloud.
How sweet to be a cloud
Floating in the blue."
"Este poema parece ter sido feito por/para mim!", disse eu quando o ouvi pela primeira vez. A semelhança com o meu poema é incrível, e as sensações são as mesmas, levando-me a pensar que há por aí muita gente que gostaria de ser nuvem, embora nem o saiba.
De facto, recorro muitas vezes a esse tipo de representações, usando materiais que remetem para essas "texturas visuais", também eles com fortes traços orientais de delicadeza e névoa, e tudo começa a querer sair dos confins da incógnita, e o meu mundo de nuvens e imagens desfocadas, parece agora emergir na forma do oriente e do tempo perdido/achado das minhas dúvidas...


1 Comments:
Também gosto de nuvens. Das inumeras formas que estas podem revestir,do embalo do movimento,da mutação de cores, da leveza, da chuva que transportam, de tudo o que nos podem levar a imaginar só de ficar a olhar para elas.
è bem bonito seres uma especie de nuvem.
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