Um Conto (entre outros, hemoglobinados pelos leucocitos assassinos)
Continuam a sair palavras musicais dos bastidores do palco muito moderno e arranjado. O clima paradisíaco permanece no ar. A menina que nos encanta com a sua voz melódica e doce é a filha do homem do talho, o senhor Albino, homem de faca e garfo, comida e roupa lavada, mulher dentro de casa e putas às sextas-feiras no Paraíso Quente. Os homens não são de ferro, “muito menos quando têm em casa um camafeu!”. A sua filha é loira e exibe orgulhosamente os seios muito bem implantados no corpo. Seios magnéticos como os Pólos. Chegam por vezes a enganar as bússolas. O próprio pai já uma vez se perguntou a si mesmo como conseguia conter-se diante de um “laticínio ambulante e lavadinho como aquele”. E há quem comente: “Melhor que a Agros ou a Mimosa!”. Mas pai é pai e já houve quem se lixasse por merdas semelhantes. Convém ter cuidado. Que o diga Édipo, apesar do caso ser diferente. Ela vai todos os Domingos à igreja e nunca se confessou porque nunca pecou. É a mulher mais casta da cidade e todos o sabem. Todos o sabem menos ela, pois é tão ingénua que nem chega a ter consciência do que é ser-se casta. Ela é a menina perfeita, quase tanto ou mais do que a Bárbie, porque essa, todos sabemos que dá umas boas cambalhotas com o Ken, se é que não o trai com o Pónei... mas o narrador não gosta de se meter na privacidade alheia. Acaba por aqui os comentários. Ela gosta de ser tratada por Lili mas o seu nome é Lúcia Batalhão Almeida.
- Sou uma alma transparente senhor abade.
- Não digo que não minha filha, mas tens que te confessar.
- Não necessito senhor padre. Ainda nem me passa pela cabeça bater punhetas ao filho do senhor Afonso, que trabalha na drogaria do pai, o senhor Celestino, quanto mais outro tipo de pecado, quer da carne quer da alma. Ainda sou muito nova para pensamentos desses.
- 25 anos minha filha... não és propriamente uma menina. Mas acredito em ti e que o senhor te acompanhe.
Entretanto, noutro local da cidade, não muito longe nem muito perto do local do centro da narrativa, o Álvaro Dias faz implantações capilares a velhas com mais de 60 anos. O Álvaro Dias é um químico bem parecido que ingeriu grandes quantidades de ar quente quando era criança e que arrota pedras pomes transparentes. Pelo menos assim o diz. A verdade é que lhe dava na cola e nos gases hilariantes. Arrota granito.
- Dá cá uma moca!
- O quê?
- O ar quente!
- Pois... o ar quente...
O senhor da portaria conhece muito bem o senhor Albino. Os homens com hormonas bailaricas costumam partilhar as mesmas putas. E toda a gente sabe que o melhor sítio é o Paraíso Quente. Todo o bom conhecedor vai lá parar e por lá se move. E move-se bem por lá. Há muito movimento. Tem altos e baixos mas muito movimento. Nunca se sabe se as consciências são malignas ou benignas mas está-se sempre à espera de o saber. Neste mundo existem coisas mais estranhas do que o olho da Maçonaria e os suspiros das mulheres. Ninguém confia muito naquilo que desconhece mas dá-se sempre o benefício da dúvida. Ninguém duvida que a consciência do senhor da portaria tem sido muito discreta. Ele nunca disse nada a ninguém das incursões nocturnas do senhor Albino, mas a todo o momento se espera que o faça. Também não lhe convém muito, apesar de ser solteiro, porque nunca fica bem a um porteiro andar nas bocas do mundo. E logo o mundo, que tem uma boca enorme.
- Senhor da portaria... o senhor não tem nada a declarar?
- Nada menina. Absolutamente nada. Sou ateu e pago as minhas contas às finanças. Que Deus me fulmine se lhe minto!
- Muito bem. Prossiga o seu trabalho.
As velhotas dizem muito bem das mãos e dos preparados capilares do Álvaro Dias e todas gostariam de o ter como cunhado. Mas o Álvaro está perdido de amores pela Lúcia Batalhão Almeida e prometeu a si próprio ser-lhe fiel até que o Sporting fosse novamente campeão. Teve azar pois no ano em que fez a promessa o Sporting foi campeão. E promessa é promessa e por isso tem que se cumprir o prometido e assim se cumpriu o prometido. Sem tirar nem pôr. Os prometidos e os seus cumprimentos por vezes são mesmo assim: complicados. Cumpriu a promessa com a Andreia Fonseca, filha da dona Albina Fonseca, a velha dos cabelos encaracolados e fracos, que trabalha no quiosque em frente ao teatro do palco muito moderno e arranjado e é conhecida por ser facilmente desviada para os aposentos dos homens carinhosos e ágeis nas palavras ou com algum dinheiro nos bolsos. Há quem lhes chame putas mas não é o caso desta. Ela isso não é, diga-se em abono da verdade. Para ela o sexo é um acto quase religioso. Costumava benzer-se antes de o praticar dizendo: “Isto é por ti Jesus, que já não fodes há mais de 2000 anos! Oh, sim! Espanca-me, espanca-me e vergasta-me como fizeram ao senhor! Com o chicote! Sim!”. Ela também vai aos domingos de manhã à missa e também não se confessa. Mas por motivos opostos aos de Lúcia. Ela tem contado mais pecados do que o número de dias da sua vida e tem medo que o padre a mande rezar o terço para o resto da vida. Ela tem fôlego, bom fôlego, muito bom fôlego, como o sabem muitos homens lá do sítio, mas não tanto ao ponto de passar o resto da vida a rezar.
- Tu a chupar não te cansas... mas para rezar não há fôlego!
- Ó senhor padre, não diga dessas coisas que me deixa embaraçada...
- Fala baixo menina. Melhor, não fales e chupa. Deus perdoa tudo minha filha, Deus perdoa tudo.
Na farmácia do centro da narrativa está o Ângelo Costa, o moço dos medicamentos, que é conhecido por facultar lenços de papel às moças que lhe aparecem a chorar no estabelecimento dizendo que os namorados as deixaram depois de as terem engravidado. Ele faculta-lhes os lenços de papel e promete ser um bom pai e diz que comprará este mundo e o outro às pobres infelizes. Convence-as que é tudo verdade e leva-as para os seus aposentos. Depois chuta-as para canto com uma pílula de aborto. O Ângelo Costa orgulha-se de ser o farmacêutico mais filho da puta à face da terra. Mas está enganado. Numa outra história, ainda não editada, há um farmacêutico bem mais filho da puta do que ele. Filhos da puta, de resto, é o que não falta por aí. A coisa que ele mais queria é que lhe passasse pela “máquina registadora”, como chama ao seu precioso instrumento de procriação, a doce e casta Lúcia Batalhão Almeida. Mas a essa nunca ele irá pôr os tomates em cima.
- Foda-se! Só me falta a filha da puta da doce e casta Lúcia! Essa é que era!
- Não querias mais nada!
- O pá... nem me fales...
- Não sonhes tão alto Ângelo!
- Se não for o sonho, o que será que nos consola nesta vida?
- Os tremoços!
- Ora nem mais! Vai mais uma bejeca?
Certamente estamos todos à espera que o narrador nos diga finalmente que o final da história une os personagens Lúcia Batalha Almeida e o químico Álvaro Dias, mas o narrador parece não estar muito interessado em finais felizes. Como por vezes se cansa das coisas a meio, resolveu cortar com a história que aqui é narrada com um meteorito que destruiu toda a terra, incluindo, claro está, os personagens aqui descritos, deixando apenas uma pena de pavão, com a qual foi escrita esta história, a bailar pelo vazio. Escusado será dizer que chegamos ao fim. Já foi dito.


1 Comments:
estás em grande Hugo. Gostei... muito bom
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