Rosmaninho e Alecrim pelo chão

Um caminho dourado por Midas, queimando à passagem os pés descalços dos desterrados

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Localização: Porto, Porto, Portugal

Hugo André Barbosa Carvalho dos Santos. Nascido a 15 de Abril de 1978. Curso de Pintura da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Curso de Artes Gráficas da Escola Secundária de Soares dos Reis. Curso de Formação Pedagógica Inicial de Formadores. Curso de Desenho Assistido por Computador como Conteúdo Multimédia. (Dreamweaver, Flash, AutoCad, 3D Studio Max, Photoshop) Bolseiro Erasmus 2000/2001 (Faculdade de Belas Artes do País Basco). Frequentou 2 cursos de verão do CPCIL (Centro Português para a Criatividade Inovação e Liderança). Frequentou 2 Workshops de teatro na FBAUP em 1999 e 2000. Membro da ARGO (Associação Artística de Gondomar) desde 1993. Membro do CCTEG (Centro Cultural de Teatro Experimental de Gondomar).

quinta-feira, julho 15, 2004

Um Conto (entre outros, hemoglobinados pelos leucocitos assassinos)

Nos bastidores de um palco muito moderno e arranjado escutam-se palavras musicais de uma voz linda e encantatória. Paira no ar um clima etéreo como o dos contos de fadas. Há magia mas ninguém assiste. Só o narrador. O senhor da portaria, que está na portaria, gosta de se esconder nas suas próprias incapacidades intelectuais e finge-se muito mais burro do que efectivamente é. Há quem diga que ele simplesmente não pensa, só age. Mas ele não só age como pensa. Mesmo assim não deixa de ser burro. Só não é tanto quanto se pensa. Usa um bigode proeminente que lhe tapa os lábios, tanto o de cima como o de baixo, como por vezes os lábios vaginais de algumas mulheres de menor reputação. Há quem diga que é um instrumento paradisíaco, o bigode. O narrador felizmente não sabe se é verdade ou não. Não usa bigode. O bigode do porteiro tem um cheiro de tabaco africano, misto de café, nicotina e hiena morta. Mas é raro alguém aproximar-se dele ao ponto de ser capaz de distinguir estes odores. Nem todas as pessoas nascem com o olfacto tão apurado como o do nosso narrador. Portanto ninguém sabe que o bigode do porteiro cheira a tabaco africano. É apenas conhecido pelo “Doninha”, vá-se lá saber porquê.
Continuam a sair palavras musicais dos bastidores do palco muito moderno e arranjado. O clima paradisíaco permanece no ar. A menina que nos encanta com a sua voz melódica e doce é a filha do homem do talho, o senhor Albino, homem de faca e garfo, comida e roupa lavada, mulher dentro de casa e putas às sextas-feiras no Paraíso Quente. Os homens não são de ferro, “muito menos quando têm em casa um camafeu!”. A sua filha é loira e exibe orgulhosamente os seios muito bem implantados no corpo. Seios magnéticos como os Pólos. Chegam por vezes a enganar as bússolas. O próprio pai já uma vez se perguntou a si mesmo como conseguia conter-se diante de um “laticínio ambulante e lavadinho como aquele”. E há quem comente: “Melhor que a Agros ou a Mimosa!”. Mas pai é pai e já houve quem se lixasse por merdas semelhantes. Convém ter cuidado. Que o diga Édipo, apesar do caso ser diferente. Ela vai todos os Domingos à igreja e nunca se confessou porque nunca pecou. É a mulher mais casta da cidade e todos o sabem. Todos o sabem menos ela, pois é tão ingénua que nem chega a ter consciência do que é ser-se casta. Ela é a menina perfeita, quase tanto ou mais do que a Bárbie, porque essa, todos sabemos que dá umas boas cambalhotas com o Ken, se é que não o trai com o Pónei... mas o narrador não gosta de se meter na privacidade alheia. Acaba por aqui os comentários. Ela gosta de ser tratada por Lili mas o seu nome é Lúcia Batalhão Almeida.
- Sou uma alma transparente senhor abade.
- Não digo que não minha filha, mas tens que te confessar.
- Não necessito senhor padre. Ainda nem me passa pela cabeça bater punhetas ao filho do senhor Afonso, que trabalha na drogaria do pai, o senhor Celestino, quanto mais outro tipo de pecado, quer da carne quer da alma. Ainda sou muito nova para pensamentos desses.
- 25 anos minha filha... não és propriamente uma menina. Mas acredito em ti e que o senhor te acompanhe.
Entretanto, noutro local da cidade, não muito longe nem muito perto do local do centro da narrativa, o Álvaro Dias faz implantações capilares a velhas com mais de 60 anos. O Álvaro Dias é um químico bem parecido que ingeriu grandes quantidades de ar quente quando era criança e que arrota pedras pomes transparentes. Pelo menos assim o diz. A verdade é que lhe dava na cola e nos gases hilariantes. Arrota granito.
- Dá cá uma moca!
- O quê?
- O ar quente!
- Pois... o ar quente...
O senhor da portaria conhece muito bem o senhor Albino. Os homens com hormonas bailaricas costumam partilhar as mesmas putas. E toda a gente sabe que o melhor sítio é o Paraíso Quente. Todo o bom conhecedor vai lá parar e por lá se move. E move-se bem por lá. Há muito movimento. Tem altos e baixos mas muito movimento. Nunca se sabe se as consciências são malignas ou benignas mas está-se sempre à espera de o saber. Neste mundo existem coisas mais estranhas do que o olho da Maçonaria e os suspiros das mulheres. Ninguém confia muito naquilo que desconhece mas dá-se sempre o benefício da dúvida. Ninguém duvida que a consciência do senhor da portaria tem sido muito discreta. Ele nunca disse nada a ninguém das incursões nocturnas do senhor Albino, mas a todo o momento se espera que o faça. Também não lhe convém muito, apesar de ser solteiro, porque nunca fica bem a um porteiro andar nas bocas do mundo. E logo o mundo, que tem uma boca enorme.
- Senhor da portaria... o senhor não tem nada a declarar?
- Nada menina. Absolutamente nada. Sou ateu e pago as minhas contas às finanças. Que Deus me fulmine se lhe minto!
- Muito bem. Prossiga o seu trabalho.
As velhotas dizem muito bem das mãos e dos preparados capilares do Álvaro Dias e todas gostariam de o ter como cunhado. Mas o Álvaro está perdido de amores pela Lúcia Batalhão Almeida e prometeu a si próprio ser-lhe fiel até que o Sporting fosse novamente campeão. Teve azar pois no ano em que fez a promessa o Sporting foi campeão. E promessa é promessa e por isso tem que se cumprir o prometido e assim se cumpriu o prometido. Sem tirar nem pôr. Os prometidos e os seus cumprimentos por vezes são mesmo assim: complicados. Cumpriu a promessa com a Andreia Fonseca, filha da dona Albina Fonseca, a velha dos cabelos encaracolados e fracos, que trabalha no quiosque em frente ao teatro do palco muito moderno e arranjado e é conhecida por ser facilmente desviada para os aposentos dos homens carinhosos e ágeis nas palavras ou com algum dinheiro nos bolsos. Há quem lhes chame putas mas não é o caso desta. Ela isso não é, diga-se em abono da verdade. Para ela o sexo é um acto quase religioso. Costumava benzer-se antes de o praticar dizendo: “Isto é por ti Jesus, que já não fodes há mais de 2000 anos! Oh, sim! Espanca-me, espanca-me e vergasta-me como fizeram ao senhor! Com o chicote! Sim!”. Ela também vai aos domingos de manhã à missa e também não se confessa. Mas por motivos opostos aos de Lúcia. Ela tem contado mais pecados do que o número de dias da sua vida e tem medo que o padre a mande rezar o terço para o resto da vida. Ela tem fôlego, bom fôlego, muito bom fôlego, como o sabem muitos homens lá do sítio, mas não tanto ao ponto de passar o resto da vida a rezar.
- Tu a chupar não te cansas... mas para rezar não há fôlego!
- Ó senhor padre, não diga dessas coisas que me deixa embaraçada...
- Fala baixo menina. Melhor, não fales e chupa. Deus perdoa tudo minha filha, Deus perdoa tudo.
Na farmácia do centro da narrativa está o Ângelo Costa, o moço dos medicamentos, que é conhecido por facultar lenços de papel às moças que lhe aparecem a chorar no estabelecimento dizendo que os namorados as deixaram depois de as terem engravidado. Ele faculta-lhes os lenços de papel e promete ser um bom pai e diz que comprará este mundo e o outro às pobres infelizes. Convence-as que é tudo verdade e leva-as para os seus aposentos. Depois chuta-as para canto com uma pílula de aborto. O Ângelo Costa orgulha-se de ser o farmacêutico mais filho da puta à face da terra. Mas está enganado. Numa outra história, ainda não editada, há um farmacêutico bem mais filho da puta do que ele. Filhos da puta, de resto, é o que não falta por aí. A coisa que ele mais queria é que lhe passasse pela “máquina registadora”, como chama ao seu precioso instrumento de procriação, a doce e casta Lúcia Batalhão Almeida. Mas a essa nunca ele irá pôr os tomates em cima.
- Foda-se! Só me falta a filha da puta da doce e casta Lúcia! Essa é que era!
- Não querias mais nada!
- O pá... nem me fales...
- Não sonhes tão alto Ângelo!
- Se não for o sonho, o que será que nos consola nesta vida?
- Os tremoços!
- Ora nem mais! Vai mais uma bejeca?
Certamente estamos todos à espera que o narrador nos diga finalmente que o final da história une os personagens Lúcia Batalha Almeida e o químico Álvaro Dias, mas o narrador parece não estar muito interessado em finais felizes. Como por vezes se cansa das coisas a meio, resolveu cortar com a história que aqui é narrada com um meteorito que destruiu toda a terra, incluindo, claro está, os personagens aqui descritos, deixando apenas uma pena de pavão, com a qual foi escrita esta história, a bailar pelo vazio. Escusado será dizer que chegamos ao fim. Já foi dito.

1 Comments:

Blogger Unknown said...

estás em grande Hugo. Gostei... muito bom

quinta-feira, junho 18, 2009  

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