Peoma
Capicua
Dizem-me para me preparar para o pior
Porque o pior ainda está para vir.
Para eles (nós) o pior nunca vem,
O pior está sempre na eminência de vir,
O pior é sempre pior que o pior,
Porque o pior de agora pede que se aguente o pior que vem a seguir
Que acaba por nunca vir porque o pior que vem não é o pior.
Nunca se diz que este é o pior.
Nunca se descansa sabendo que este é o pior
E que não há pior, pior do que este pior.
Existe sempre o espectro de um pior-pior
Uma sombra que prolonga o pior até ao infinito.
Nunca sentimos a libertação de saber que este é o pior,
O prazer de ouvir alguém dizer que este é o pior dos piores,
Que não vem outro pior,
Nenhuma sombra,
Nenhuma brisa,
Nenhum prenúncio de pior,
Nenhum outro estado lastimável pior que este,
O pior.
Este pior é semelhante à inquietação do José Mário Branco
Á inquietação do António Variações
Ou do Álvaro de Campos.
É qualquer coisa que nunca será
Mas que é sempre, ao mesmo tempo.
É uma espera sem descanso.
Uma espera infinita.
Pois diante do pior não o reconhecemos,
Diante do pior pedimos que outro pior não venha,
Outro pior ainda que este,
Que por ainda não ter vindo atenua os danos que este traz,
Os danos que este cava, à espera do outro pior.
Mas a sorte é madrasta e ao mesmo tempo vem a angústia
De saber que este pior não é o pior
E há outro que pode vir.
Destrói-se a esperança de saber que este pior é o último
E que não vem outro pior a seguir.
Dizem-me para me preparar para o pior
Mas estar mais preparado do que saber que o pior não existe
É impossível.
Hugo Santos 27-08-2006


1 Comments:
Primeiro pensamos que é o pior....depois achamos que até foi melhor...
Mas que dói...dói
Beijo grande
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