Rosmaninho e Alecrim pelo chão

Um caminho dourado por Midas, queimando à passagem os pés descalços dos desterrados

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Hugo André Barbosa Carvalho dos Santos. Nascido a 15 de Abril de 1978. Curso de Pintura da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Curso de Artes Gráficas da Escola Secundária de Soares dos Reis. Curso de Formação Pedagógica Inicial de Formadores. Curso de Desenho Assistido por Computador como Conteúdo Multimédia. (Dreamweaver, Flash, AutoCad, 3D Studio Max, Photoshop) Bolseiro Erasmus 2000/2001 (Faculdade de Belas Artes do País Basco). Frequentou 2 cursos de verão do CPCIL (Centro Português para a Criatividade Inovação e Liderança). Frequentou 2 Workshops de teatro na FBAUP em 1999 e 2000. Membro da ARGO (Associação Artística de Gondomar) desde 1993. Membro do CCTEG (Centro Cultural de Teatro Experimental de Gondomar).

quinta-feira, novembro 03, 2005

Tertúlia

Viva.

Não me parece de todo que possamos estar em desacordo em relação às premissas essenciais para que um bom diálogo aconteça. Ambos gostamos de discutir estes assuntos e ambos tentamos ter respeito pela opinião do outro. Também não me parece que estejamos em desacordo relativamente aos resultados das nossas pesquisas, embora as tuas sejam muito mais literárias do que as minhas, pois li poucos filósofos, mas talvez possamos ter diferenças a nível formal.

Acredito que a metáfora do “rosto” te tenha ficado marcada, servindo de alicerce para todo o teu pensamento. Parece-me que a face efectivamente é algo que marca quando de um outro falamos, um ser humano, claro, um ser que tem os mesmos meios básicos de comunicar que nós temos: boca, ouvidos, olhos. O rosto é por isso fruto das maiores atenções, quer na pintura em qualquer relato literário, pois parece aglutinar nele todo um conjunto de experiências sensoriais, emocionais, racionais, etc.

Talvez Africa tenha sido o primeiro continente a perceber a importância deste e do quão essencial ele é para o conhecimento/desconhecimento do outro. Digo isto por cause das máscaras, tão sobejamente conhecidas, e que provavelmente foram as primeiras, Não tenho dados antropológicos para garantir semelhante, mas fica aqui o apontamento. Eu próprio tenho uma máscara Africana, talvez por esse interesse que a mascara provoca, nas metáforas que ela levanta. Uma máscara é um rosto sem vida, um rosto sem as marcas do tempo, um tempo vazio. É também o exemplo africano da alegoria da caverna, no sentido em que serve também como véu que encobre a realidade, que a tapa, que não a deixa ser percebida. Platão foi um grande homem. Mas há muitos grandes homens por este mundo fora.

A ideia de uma constituição comunitária que não seja “à priori” mas em “potência” não me parece de todo descabida, embora pareça existir uma contradição na afirmação. Uma “potência” será tudo o que já é sem estar no máximo das suas potencialidades, será uma capacidade que à priori possuímos ao nosso dispor para a usarmos livremente. O “devir” será Acho que ao dizer isto só posso estar a falar do livre arbítrio, a possibilidade de escolha que cada um de nós tem no meio do destino, fado, fatalidade, chamemos-lhe o que quisermos. Não direi que esta é uma concepção religiosa. Chamar-lhe-ei, de momento, uma constatação, não só intuitiva, como, agora, racional: a genética. A genética prova um elo de ligação físico a todos os outros, elo esse que já se sabia existir pela intuição há milhões de anos. Talvez a religião também fale dele. Talvez apenas fale do que a genética não pode falar (não pode por enquanto).
Acho que os ateus poderão olhar para a ciência como algo que vem provar a inexistência de Deus, eu olho para a ciência como uma forma de compreender as coisas e, claro está, também Deus, o corpo material e espiritual onde todos nós temos o nosso pequeno espaço, e sem o qual ele n existiria.

Desculpa parar a meio, mas tenho que fazer umas coisas e não posso escrever agora. Voltarei noutra altura. Mas fica aqui prometido o interesse em continuar a tertúlia. E obrigado por teres escrito. Já agora, como descobriste o meu blog?

Hugo

Anonymous said... (assim fica aqui o texto por onde tudo começou)

Anonymous said...
pois, não sei qual será o melhor método (geralmente sou, infelizmente, mt pouco metodológico), mas deixo isso ao teu critério, eu escrevo umas linhas e tu depois logo decides como prosseguimos;)sendo ateu naturalmente não encaro,como tu, a alteridade do "eu" (os outros em mim) como uma transcedência - como um fio cósmico que une todos os homens remetendo-os para deus - mas como uma imanência: há algo em nós que nos une aos outros. mas esse algo não é dado a priori, ou melhor, existe,mas apenas em potência; cada um de nós é que tem de construir o laço que nos une a todos os outros. e eles laços são, para mim, o que constitui a Ética (repara que que so deus com minúsculas mas Ela, a Ética, o verbo, tem outro estatuto;).esse laço é o que alguns filósofos chamam o "rosto" do outro. o rosto é o âmago inapropriável de cada sujeito, aquilo que nele não pode ser conquistado pelo outro, mesmo que o outro o mate - e se matar é tentar destituir o outro do seu carácter único (remetendo-o para omundo anónimodos mortos), a inviolabilidade do seu rosto faz com que ele nunca possa ser esquecido,com que ele nunca desvaneça, com que ele nunca seja totalmente conquistado.o rosto do outro - de cada um dos outros - interpela-me contantemente, e impõe-me que o salve, impõe-me que entre em diálogo com ele; e é nesse diálogo que eu me descubro e me constituo como eu. o rosto, está sempre lá (até os condenados de auschwitz o tinham, embora já não fossem humanos), o que temosde fazer é desocultá-lo. e isso é o que ninguém (incluindo eu) faz.assim, é pelo diálogo desinteressado com o outro - pela relação dialógicacom ele em que eu não me tento apropriar dele - que eu me descubro como ser ético, é que eu reservo omeu lugar no paraíso (lol).é assim que nos descobrimos como outro, é assim que constituimos o nosso eu na alteridade, na quebra de fronteiras rígidas que separam onegro do branco, o homem da mulher, o cristão do muçulmano. e isso só pode ser pela via dialógica, pelo estabelecer do diálogo. não o diálogo com deus mas o diálogo como meu semelhante.olha, se queres o exemplo perfeito ele está no livro de são lucas (acho), quando se fala do "bom samaritano". no fundo,o que eu estou aqui a dizer é doutrina teológica, mas depurando-a de toda a transcendência (a única transcendência que vai para além da materialidade da vida é o "rosto", mas o rosto, não sendo biológico, não deixa de ser estritamente humano).e pronto, obviamente que estas ideias não são minhas (se fossem eu seria um génio), mas de filósofos como o Emmanuel Lévinas, Maurice Blanchot, Derrida... o problema é que obviamente que isto não foi uma adaptação digna das suas ideias,o melhor é mesmoler os livros :)e pronto,fico à espera de resposta :) espero que não tenha ficado mt confuso, mas acho que ficou. a verdade é que eu não domino isto tão bem quanto deveria, mas acho que já dá para lançar o debate!um abraço! (by the way, sou de lisboa)