Tertúlia
Não me parece de todo que possamos estar em desacordo em relação às premissas essenciais para que um bom diálogo aconteça. Ambos gostamos de discutir estes assuntos e ambos tentamos ter respeito pela opinião do outro. Também não me parece que estejamos em desacordo relativamente aos resultados das nossas pesquisas, embora as tuas sejam muito mais literárias do que as minhas, pois li poucos filósofos, mas talvez possamos ter diferenças a nível formal.
Acredito que a metáfora do “rosto” te tenha ficado marcada, servindo de alicerce para todo o teu pensamento. Parece-me que a face efectivamente é algo que marca quando de um outro falamos, um ser humano, claro, um ser que tem os mesmos meios básicos de comunicar que nós temos: boca, ouvidos, olhos. O rosto é por isso fruto das maiores atenções, quer na pintura em qualquer relato literário, pois parece aglutinar nele todo um conjunto de experiências sensoriais, emocionais, racionais, etc.
Talvez Africa tenha sido o primeiro continente a perceber a importância deste e do quão essencial ele é para o conhecimento/desconhecimento do outro. Digo isto por cause das máscaras, tão sobejamente conhecidas, e que provavelmente foram as primeiras, Não tenho dados antropológicos para garantir semelhante, mas fica aqui o apontamento. Eu próprio tenho uma máscara Africana, talvez por esse interesse que a mascara provoca, nas metáforas que ela levanta. Uma máscara é um rosto sem vida, um rosto sem as marcas do tempo, um tempo vazio. É também o exemplo africano da alegoria da caverna, no sentido em que serve também como véu que encobre a realidade, que a tapa, que não a deixa ser percebida. Platão foi um grande homem. Mas há muitos grandes homens por este mundo fora.
A ideia de uma constituição comunitária que não seja “à priori” mas em “potência” não me parece de todo descabida, embora pareça existir uma contradição na afirmação. Uma “potência” será tudo o que já é sem estar no máximo das suas potencialidades, será uma capacidade que à priori possuímos ao nosso dispor para a usarmos livremente. O “devir” será Acho que ao dizer isto só posso estar a falar do livre arbítrio, a possibilidade de escolha que cada um de nós tem no meio do destino, fado, fatalidade, chamemos-lhe o que quisermos. Não direi que esta é uma concepção religiosa. Chamar-lhe-ei, de momento, uma constatação, não só intuitiva, como, agora, racional: a genética. A genética prova um elo de ligação físico a todos os outros, elo esse que já se sabia existir pela intuição há milhões de anos. Talvez a religião também fale dele. Talvez apenas fale do que a genética não pode falar (não pode por enquanto).
Acho que os ateus poderão olhar para a ciência como algo que vem provar a inexistência de Deus, eu olho para a ciência como uma forma de compreender as coisas e, claro está, também Deus, o corpo material e espiritual onde todos nós temos o nosso pequeno espaço, e sem o qual ele n existiria.
Desculpa parar a meio, mas tenho que fazer umas coisas e não posso escrever agora. Voltarei noutra altura. Mas fica aqui prometido o interesse em continuar a tertúlia. E obrigado por teres escrito. Já agora, como descobriste o meu blog?
Hugo

