Sempre pensei na minha posição enquanto artista plástico com a tal idealização romântica que dizes não ter (o que poderá não ser tão linear quanto parece), um empenhamento quase sacerdotal pela actividade, pensamento esse que há algum tempo atrás se manifestou fruto de alguma inocência e alguma falta de bom senso da minha parte. A ideia de que o trabalho não deve ser sagrado, mas a nossa atitude perante a vida, limitou-me de certa forma a perspectiva realista da coisa. Sempre pensei que a arte era essa tal atitude de/na vida e não uma actividade lucrativa. Sempre vi a arte como uma forma sagrada e não como um meio de subsistência. O que quero dizer com isto assemelha-se mais ou menos ao seguinte: pintar deve ser um ritual tão sagrado que não deve ser remunerado. Agora que reli a frase que escrevi corrijo-a: fazer arte deve ser um ritual tão sagrado que não deve ser remunerado. Não sei se a correcção foi suficientemente esclarecedora. Passo a explicá-la: pintar é uma actividade como outra qualquer, pois não implica obrigatoriamente o aparecimento do fenómeno que se intitula de arte. Qualquer outra actividade é igualmente passível de criar arte. Qualquer actividade é remunerada, porque não haveria de o ser a pintura?
Não obstante, vejo-me obrigado a constatar que é necessário viver, ter pão na mesa, luz, água, tantas, tantas coisas, e na particularidade ainda mais lancinante: a arte só surge depois de muito trabalho, num ou noutro trabalho, ou no conjunto destes, forçando por isso uma despesa de meios que implicam a sua capitalização. A maior parte dos artistas tem obras de menor interesse artístico pois não podem explicar tudo o que têm para dar ao mundo em todos os trabalhos que executam, e o caminho vai-se percorrendo com altos e baixos, conquistas e derrotas. Aliás a maior parte dos artistas plásticos tinha e tem actividades paralelas que lhes garantem a subsistência, entre as quais se destaca o ensino. Mas nos tempos que correm está difícil ter essa actividade.
A arte tem obrigatoriamente que satisfazer o espírito humano, mas o exercício das artes plásticas pode realizar essa satisfação num trabalho entre dez. E como se “sustenta” o aparecimento desse trabalho sem que para isso existam todas as outras falhas, erros ou, melhor dizendo, todos os patamares necessários, e sem que exista dinheiro que os pague?
Antes de saber que este ou aquele objecto é arte deve-se fazer, executar, treinar. Pensar unicamente na forma de chegar “lá” não é a solução. Chegar “lá” não acontece sem que se percorra o caminho e, o caminho faz-se, mais uma vez, percorrendo-o e não pensando-o. Melhor ainda: faz-se pensando enquanto se percorre.
O que quero dizer com isto? No fundo, apenas quero alertar-me para a necessidade de executar o meu trabalho sem a intenção primordial de criar arte ou o tal contacto com o divino, o sagrado, sem uma premeditação, mas na espera que isso venha a acontecer. Aliás costumo gostar muito mais das surpresas do que dos planos. Não deverá importar, tanto quanto tem importado, que os meus objectos não tenham o carácter elevado que procuro, desde que o encontre. E se não o encontrar também não deverá conduzir a uma sensação de derrota, pois a vida vive-se, não se ganha.
Vejo-me então perante um dilema moral que se vai desfazendo. Sei que a ideia que tenho acerca do trabalho está muito associada a um empreendimento exterior ao indivíduo, como um plano superior que é necessário cumprir sem o questionar muito, ordens que vêm de uma “hierarquia empresarial”, uma praga deste sistema capitalista, de especialismos e outras “caixas” de meter pessoas e funções.
Ocorre-me, agora que falo nisto, a questão pertinente da função das obras de arte, ou da sua utilidade. São ambos critérios com uma imagem demasiado eficiente e objectiva, acima de tudo produtiva. Foram rejeitados por muitos artistas, sendo ainda hoje um dos fundamentos que prevalece na arte: a de não ter utilidade nenhuma. Concordo com esta afirmação acrescentando que a única utilidade da arte é a de comunicar com o espírito, sendo este tão completamente subjectivo e abstracto que não se limita a meras utilidades.
Oscar Wild escreve no início do seu único romance (O retrato de Dorian Gray):
“O artista é o criador de coisas belas.
O objectivo da arte é revelar a arte e ocultar o artista.
O crítico é aquele que sabe traduzir de outro modo ou para um novo material a sua impressão das coisas belas.
A mais elevada, tal como a mais rasteira, forma de crítica é um modo de autobiografia.
Os que encontram significações torpes nas coisas belas são corruptos sem sedução, o que é um defeito.
Os que encontram significações belas nas coisas belas são os cultos. Para esses há esperança.
Eleitos são aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza.
Um livro moral ou imoral é coisa que não existe. Os livros são bem escritos, ou mal escritos. E é tudo.
A aversão do século XIX pelo Realismo é a fúria de Caliban ao ver a sua cara ao espelho.
A aversão do século XIX pelo Romantismo é a raiva de Caliban por não ver a sua cara ao espelho.
A vida moral do homem faz parte dos temas tratados pelo artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito. Nenhum artista quer demonstrar coisa alguma. Até as verdades podem ser demonstradas.
Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um maneirismo de estilo imperdoável.
Um artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo.
O pensamento e a linguagem são para o artista instrumentos de arte.
O vício e a virtude são para o artista matérias de arte.
Sob o ponto de vista da forma, a arte do músico é o modelo de todas as artes. Sob o ponto de vista do sentimento, é a profissão de actor o modelo.
Toda a arte é, ao mesmo tempo, superfície e símbolo.
Os que penetram para além da superfície, fazem-no a expensas suas. Os que lêem o símbolo, fazem-no a expensas suas.
O que a arte realmente espelha é o espectador, não a vida.
A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte revela que a obra é nova, complexa e vital.
Quando os críticos divergem, o artista está em consonância consigo mesmo.
Podemos perdoar a um homem que faça alguma coisa útil, contanto que a não admire. A única justificação para uma coisa inútil é que ela seja profundamente admirada.
Toda a arte é completamente inútil.”
São frases fortes estas que Oscar Wild no traz, mas por vezes são necessárias. Mesmo que estejam erradas, são manifestações destas que nos obrigam a pensar, quanto mais não seja, para as rebater. Mas devo dizer que neste caso particular concordo com todas as ideias nele contidas. É assim que ele começa o seu romance polémico. É como que o seu manifesto, o seu editorial. O resto do romance não comento.
Lembrei-me de um outro texto da pessoa a quem recorro muitas vezes para parafrasear, o professor Agostinho da Silva que, tal como Oscar Wild, põe em evidência neste texto a noção de crítico, tornando-o parte importantíssima do processo criativo. Eu atrevo-me a acrescentar que o artista deve ser forçosamente um dos seus maiores críticos. Todo o crítico é artista e todo o artista deve ser crítico.
Do texto “Conselhos”:
“É elementar que o artista não cria a realidade; vai buscar os materiais que se lhe oferecem, que lhe são comuns com os outros homens; na escolha deles residem o seu primeiro trabalho e a sua primeira prova; em seguida - e aqui temos a sua tarefa mais alta - tece um certo número de relações entre esses elementos; quanto mais amplas elas forem, de mais universal carácter e valor, tanto mais elevado será o poema; mas, até nos casos mais simples, surge com a obra um mundo novo, um mundo que não existia com tal arquitectura, com tal ordem.
Se cabe ao poeta ou ao escultor criar um universo, cabe ao crítico criar um artista; dele também não existem, antes da empresa crítica, senão os elementos dispersos, os vários traços dos seus versos ou das suas estátuas; Fídias ou Milton só passam verdadeiramente a ser quando encontram Collignon e Macaulay; os Erasmos de dois autores diferentes são diferentes, corno são diferentes as árvores de Cláudio Lorena e as árvores de Beruete; se quiséssemos entrar na carreira de colocar as artes em degraus poríamos o crítico no mais alto de todos: porque é a ele que compete a missão de criar o criador; tem, na arte, o trabalho que tornam para si o teólogo e o filósofo no mundo mais vasto do pensamento.
Não ternos nada a objectar a que o artista não ouça o crítico, embora, se esmiuçássemos, acabássemos por ter de reconhecer tal caminho corno impossível; suponhamos que é sempre o contrário que se tem que dar: é o crítico quem deve seguir, com amorosa atenção, a fantasia do artista. Nada, portanto, de crítica normativa só explicativa e ressoadora (como se tudo isto não incluísse sempre uma norma)j faça o artista o que quiser, ninguém lhe dê conselhos, e se lhos derem ria o artista a sua órbita depende da sua vontade; rume a que céus quiser e seja imprevisível.
Mas, como o crítico é também um artista, tem ele mesmo o Direito de exigir que lhe não ponham barreiras, que o deixem ser à vontade juiz ou ampliador e que o expliquem depois, se quiserem; é ilógico impor limites ao crítico, quando se quebram esses limites em nome da liberdade de criação; ou um e outro os devem ter, e nesse caso o crítico pode ser pedagógico (que haverá não pedagógico?) e o artista tem de o escutar e seguir, ou se derrubam para todos e então nada de regras e manuais destinados aos críticos; a atitude a escolher é uma só: tudo o mais confusão e prosa inútil.”
A ideia racionalista que impregnou a sociedade do meu tempo cada vez me deixa mais irritado. Não por ser plenamente má, pois nela existe um critério de inteligência que me satisfaz: sistematizar operações menos importantes para dar mais espaço às mais importantes e elevadas. Mas penso que este carácter é muitas vezes esquecido e torna-se numa forma de agir global e globalizante. Esquecem-se da beleza do imprevisto nas mais variadas situações e vêem-no como um erro no sistema, uma falta de harmonia, uma parte da engrenagem menos oleada. “Não acredito no que não posso provar” e “se não o percebo é porque não está bem formulado”. Peço desculpa por não me tronar suficientemente claro relativamente a este assunto, mas é tudo muito mais intuitivo do que racional. Não sou plenamente contra o racionalismo nem plenamente a favor da intuição. Aliás também me irrita quem só vive de intuições e imagens distorcidas do oculto.
A laicização da sociedade também me parece estar a ser gerida de uma forma demasiado agreste, pela rama, capaz de induzir a dúvidas mais perigosas, e toda a gente parece ter medo de dizer que acredita em algo que não consegue explicar, apalpar, escrever, descrever, pronunciar, explicar, dissertar, equacionar. As pessoas parecem ter medo de afirmar coisas que não se manifestam através de letras ou números. Gostava de chamar a atenção para o facto das descobertas científicas virem quase sempre provar que o que se pensava ser era, no que de utópico poderiam ter as ideias de “ficção científica”. Tal como os contos aparentemente inconcretizáveis do Júlio Verne representavam toda a ânsia da humanidade que queria chegar à lua. O que pretendo demonstrar é que há coisas que são aparentemente virtuais, incompreensíveis e por isso inexplicáveis, mas que existem e não as podemos contornar fingindo que não estão cá. Que eu penso antes de explicar o porquê parece-me ser mais óbvio do que o porquê em si. E no entanto quase não se “era” enquanto alguém disse:” penso, logo existo”. Mas era-se! A existência ou não de Deus é facilmente explicável pelo simples facto de ser uma das questões mais pertinentes da humanidade. Pelo menos enquanto pensamento é dos que, em quantidade, mais existe!
Há um medo de errar que é castrador na sociedade que se sonhou livre.
É claro que, como em tudo, há o reverso da medalha. Por outro lado parece que se podem cometer todos os erros possíveis e imaginários quando se pretende uma evolução dita científica. Há quase que um aproveitamento do erro, e por vezes um apelo inconsciente (paradoxalmente, pois encontra-se no meio de tanta consciência objectiva) à sua repetição e sistematização. Mas esse erro parece ser aquele que nada de bom produz para o futuro, produzindo no presente apenas lucro. Pode-se falhar nas tentativas atómicas, na guerra, nas escolhas político-sociais, ou nas tentativas de Big Brothers e reality shows. “Faz tudo parte da nova tecnologia, dos novos tempos, há que aceitar e ver se funciona”, dizem-nos para que possamos engolir e alinhar no risco de falhar uma tentativa que pode ser perigosa mas que, por ser explicada há luz dos novos tempos, é válida. Uma simples capa nova de telemóvel, implica mil novos folhetos, papel queimado, criatividade canalizada para o nada, comportamentos estereotipados: “ser diferente por ter um toque diferente”, igual ao de 10.000, mas finge-se que não se sabe. “Acredita no aqui e agora” é o que nos tentam impingir, fazendo-nos esquecer que os verbos se conjugam nos mais diversos tempos, e que aspiramos sempre a algo que ainda está para vir (já cá está), pois o momento é o Devir, o intervalo entre o que foi e a sua potência. E entretanto já me perdi no que estava a dizer, e o fio condutor já quase nem é perceptível, mas o que é bom é ir dizendo, pois de pensar já se vai ficando farto. É curioso reparar na dificuldade que muitas vezes tenho em separar as frases por pontos finais ou pontos finais parágrafos. Nunca sei quando termina um pensamento e começa outro suficientemente distante deste para que se possa dividir por um intervalo maior.
E desta forma algo perdida tento pôr um ponto final neste pequeno texto, nestas pequenas ideias, e descansar.
Hugo Santos 2003-03-30