Rosmaninho e Alecrim pelo chão

Um caminho dourado por Midas, queimando à passagem os pés descalços dos desterrados

A minha foto
Nome:
Localização: Porto, Porto, Portugal

Hugo André Barbosa Carvalho dos Santos. Nascido a 15 de Abril de 1978. Curso de Pintura da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Curso de Artes Gráficas da Escola Secundária de Soares dos Reis. Curso de Formação Pedagógica Inicial de Formadores. Curso de Desenho Assistido por Computador como Conteúdo Multimédia. (Dreamweaver, Flash, AutoCad, 3D Studio Max, Photoshop) Bolseiro Erasmus 2000/2001 (Faculdade de Belas Artes do País Basco). Frequentou 2 cursos de verão do CPCIL (Centro Português para a Criatividade Inovação e Liderança). Frequentou 2 Workshops de teatro na FBAUP em 1999 e 2000. Membro da ARGO (Associação Artística de Gondomar) desde 1993. Membro do CCTEG (Centro Cultural de Teatro Experimental de Gondomar).

terça-feira, julho 25, 2006

Sun Is Shining

Look at the shining Sun

domingo, julho 16, 2006

Naked In The Rain

Crosby & Nash Naked In The Rain lyrics

Crosby & Nash Naked In The Rain lyrics

music: David Crosby
words: David Crosby and Graham Nash
1975 Staysail Music (BMI)

The clown sat speechless, looking in his mirror
unable to remember how to paint his face
Staring at the image, slowly getting clearer
Wondering if his fear or his heart would win the race
When it dawns on you
what it takes from you
living under clouds of pain
there’s a storm in you
you don’t know what to do
Just when you think you’re going insane
you lie naked in the rain
Fluttering pages of faces
no two alike
Choice is your soul’s moment
for its light to strike

segunda-feira, julho 10, 2006

Texto da Dra Maria Helena Padrão, para a apresentação do meu livro no Clube Literário do Porto

Hugo santos: vinte e oito anos. Um escritor novo, uma escrita nova.

Entre o nada e a catástrofe conduz o leitor, num discurso formulado na primeira pessoa, a uma estranha deambulação pelos caminhos da mente. É a mente, enquanto processo de articulação do pensamento, o objecto/sujeito de estudo deste livro. A visão do mundo é assim uma espécie de concatenação entre os dados da efabulação do pensamento e os dados fornecidos por uma certa interpretação, não do real observado, mas dos sinais que esse real deixa entrever apenas aos eleitos.

A novidade deste discurso reside fundamentalmente nesta capacidade de captar os interstícios do espaço/tempo e de os deixar exarados quase de forma testemunhal, documental, nas imagens quase transparentes de tanta genuinidade.

ANDA-SE PELAS RUAS COM AS PERNAS A TREMER., é uma frase que surge reiteradamente porque é na reiteração, quer da sua semanticidade, quer na reiteração da sua presença visual ( a maiusculização),que se dá a revelação. De quê? Da eminência de catástrofe. Ao longo do texto há como que uma anaforização deste conceito, há como que uma necessidade de se evidenciar esta descoberta em forma de aviso ao outro. E as frases em que ele está contido são muitas:
A todo o instante altera-se o mundo
A todo o instante altera-se a ideia que do mundo se tem
A todo o momento pode acontecer a catástrofe
A catástrofe pode eclodir a qualquer instante
Não se sabe o que nos reserva o futuro
A catástrofe está algures. Nalgum sítio se esconde.

Curiosamente, este sujeito enunciador, que é um misto de narrador lírico autodiegético constata ainda que: a infinidade de opções que o acaso tem é tanta que chega a baralhar-se a si próprio.

É, pois, neste espaço de inquietação que nos coloca este livro de Hugo Santos. É uma inquietação fundamentada na observação de factos, na conformidade do acaso, na mais elementar intuição. É uma fundamentação consolidada nos elementos fornecidos pela trivialidade e que, no entanto, constituem cesuras nas entranhas do tempo, linhas de descontinuidade, aliás já largamente evocadas noutros contextos, noutras ciências.

Assistimos assim a apontamentos como:
O guarda-redes foi rápido nos seus reflexos e fez uma defesa espectacular. Minutos antes era um filho da puta.

A menina-baloiço que está alheia a tudo e baloiça com mais força ainda
Os pessoas que vivem o seu dia-a-dia sem medo
O Vesúvio que pode explodir a qualquer momento
A guerra no Médio-Oriente ….


O escritor é aqui um iluminado, um inspirado pelo espírito da própria linguagem, linguagem que está também tecida de descontinuidades, cuja natureza dialogada tem menos expressão do que o longo monólogo interior, como se, no absurdo do conhecimento, existisse a consciência de que se fala para um interlocutor que não quer ser informado, um interlocutor que existisse numa outra dimensão. O que se passa com a linguagem é o mesmo que se passa com as fórmulas matemáticas: constitui um mundo em si mesma. E exprime, antes de mais a sua própria natureza. Então, apenas alguns, iniciados ou eleitos, acedem, primeiro à natureza desse mundo, depois à sua capacidade simbólica.

A escrita, na sua fragmentária natureza, na sua poeticidade, eleva as coisas do mundo a uma natureza superior, perspectivando uma totalidade. O fragmento, que é a essência do poético, acolhe as manifestações múltiplas do ser que, por vocação, aspira à essencialidade. O paradoxo que Hugo Santos apresenta nesta obra explica-se através do Princípio da Razão heidegeriano: “tal como o princípio da razão, todo o fragmento tem um lugar a partir do qual fala e que é uma das pontes de relação presença/ausência, velamento/desvelamento, … constituição do ser que se abre e se fecha no mistério ontológico das coisas”.

Maurice Blanchot refere também que a existência fragmentária é pressuposto incondicional de toda a escrita. O fragmento da escrita e o instante da existência caminham a par, como se a vivência do instante captasse o momento efémero da eternidade: o instante da criação tão intenso como o instante da destruição.

Hugo Santos, de forma enigmática, direi mesmo, codificada, elabora, no instante da escrita, a vidência da totalidade; configura, nos meandros da aparência dos dias sempre iguais, a eminência da catástrofe. O que é a catástrofe? É precisamente a antítese da ordem. Caos e ordem: duas faces da mesma moeda.

Hugo Santos, um escritor novo de uma escrita nova, deixa-nos nesta inquietação da eminência da catástrofe, direi mais, a inquietude do ser perante a sua própria existência, e afirma:
Os artistas não são espelhos…quando muito são pedaços de catástrofes e por isso as sabem relatar tão bem.

É um conto, nada convencional. Aliás, não é por acaso que o título é:
Entre o nada e a catástrofe & Bónus: um pequeno conto de almofariz cor-de-laranja, e que a epígrafe diz: Aos pastéis doces das avós, para os netos e quem mais vier…

O escritor dá-nos uma forma de sair desta inquietação e à maneira de Kusturica, constrói um microcosmos onde tudo se pode vivenciar sem os constrangimentos do aqui e do agora.
Sair para fora desses constrangimentos lembra a frase do livro anterior que seleccionei:

As lagartixas fazem-nos sempre sorrir.

É verdade. Hugo Santos, tal qual a lagartixa, ou as laranjas que têm asas de avestruz e bicos de pinguim com toques de galos de Barcelos faz com que saibamos sair dos limites impostos ao ser, à existência, e partamos à descoberta de novas formas de vida, quiçá melhores, quiçá piores. Sobretudo diferentes.

Hugo Santos, um escritor novo duma escrita nova, dá início, com esta obra, a um percurso de excelência

Maria Helena Padrão

quinta-feira, julho 06, 2006

A CHAVE DO ENIGMA - António Feliciano de Castilho (1800-1875)

A SOLIDÃO

Tem a solidão isto de comum com o silêncio e a escuridade:
espanta;
e aturde quem nela cai;
mas, logo que o ouvido, desadormentado dos sons fortes, aprende a conversar com a mudez;
tanto que os olhos, desofuscados dos luzeiros intensos, se exercitam em caçar espectros de
raios. fosforescências indecisas, que são como que os infusórios das trevas, descerrou-se o
negrume em brilhantismo, a calada aviventou-se de diálogos, a solidão, que parecia o nada, é o
teatro com o seu drama, é um mundo novo com um sistema completo de existências imprevistas e
apropriadas.

Que admira?
A solidão medita, e a meditação cria.
Os sentidos pastam só no que lhes oferecem a natureza, a fortuna, o acaso:
a divindade interior, a alma, tem comércios inefáveis com o íntimo e ignorado.

S. João, entre os nevoeiros de Patmos, divisa uma Jerusalém celeste;
nas cogitações de Sócrates, aparece o Omnipotente; nos êxtases de Platão, reflexos da Trindade;
nos cálculos taciturnos de Galileu, firma-se o céu, volteiam as plantas:
Colombo faz surgir do fundo dos mares a América; Leverrier, mais globos no espaço; Fulton, o hipógrafo, o pégaso do vapor, magia, poesia, potência escrava do homem, e dominadora, primeiro dos oceanos, depois dos continentes e amanhã, talvez, dos ares; a solidão cismadora dá a Eneida a Virgílio, mostra a Lineu os amores e o sono das plantas, a Dante o Inferno, a Fourier o paraíso terrestre, a Newton e a Laplace o código dos astros, a
Daguerre os talentos artísticos do Sol, ao Gama o caminho do Oriente, ao soldado Camões o da imortalidade, põe na mão de Gutembergue a chave do cofre das ciências, na de Vicente de Paulo a da caridade, na de Say a da riqueza pública, na de Pestalozzi e Froebel a da escola séria e fecunda.
Arquimedes, a sós com a natureza e com o seu génio, descobre os meios de destruir e incendiar a frota romana.
Absorto em suas reflexões criadoras, no seu gabinete, como num antro, não sente o estrondo da cidade, já senhoreada dos inimigos; não acorda à voz do soldado de Marcelo, que, de espada desembainhada, lhe ordena que o siga; sem o sentir, é degolado.
Cai a grande cabeça, irmã entre irmãs, no meio das esferas celestes que está arquitectando.
Só de tão extraordinária concentração podiam brotar as seus tão extraordinárias inventos e
descobrimentos.

Lavoisier, outro dos martirizados pelo materialismo descrente e brutal, depois de haver testado ao mundo a mais opulenta herança científica, condenado ingrata e cegamente à guilhotina, que é o que pede aos verdugos revolucionários, seus juízes?
Uma dilação de quinze dias.
Só uma dilação!
Só de quinze dias!
Para quê?
Para concluir trabalhos úteis à Humanidade, que neste momento o desconhece.
Rematados eles, já não terá pena de morrer.
Recusam-lha.
Então, caminha, sereno, a depor no cadafalso uma cabeça, maior, talvez, que a de Arquimedes, e
ainda na véspera coroada de loiros pelo Liceu.

Tanto a actividade fecundante, recolhida por instinto para os penetrais mais sagrados do
ânimo, donde se conversa em êxtases com Deus e com a natureza, com o Pai Omnipotente e com a
filha formosíssima, nossa irmã, fica inacessível aos maiores cataclismos externos, às
catástrofes das Siracusas, ao caos, providencial, porém medonho, de uma revolução francesa!

O homem que nasce pertencente à escassa família deste naturalista, pai da química, e daquele
geómetra, pai da mecânica, mesmo com os braços cruzados sobre o peito, mesmo com os olhos fechados, mesmo dormindo e sonhando, está servindo como operário; mas, abaixo dele, há ainda, não menos veneráveis, os prestigiosos cismadores do mundo da Arte, mundo não menor, nem talvez, em última análise, menos útil que o da Ciência.

André Chénier, espécie de Lavoisier da poesia, convocado também para o festim da morte, não é
dos prazeres efémeros da existência que leva saudades:
bate apaixonadamente raivoso na fronte, porque sente que se lhe estava ali dentro formando, como em cérebro olímpico, uma nova musa gentilíssima.
Quem lha revelara?
A meditação solitária, que sabe tudo e tudo profetiza.

Boníssima solidão!
Tu és para a sociedade o que as tuas montanhas são para os vales: nas tuas entranhas se filtram, dos teus recôncavos rebentam os génios possantes e profundos que vão derramar por longe a fertilidade.
Mas tu não és só mãe às torrentes caudais: uma fontinha entre lapas, desconhecida, não se goza menos do teu favor.
Sobre o pouco liberalizas dons, como sobre o muito; próvida para o imenso, próvida para o limitado.
Solidão, Egéria das almas eleitas!
Solidão, buscada por Cristo, abraçada por Jocelyn, adorada por Petrarca, explorada em tuas
minas de oiro por Zimmermann, inspiradora de Volney, de Rousseau, do Infante de Sagres, de
todos os videntes, de todos os descobridores, de todos os inventores, de todos os Baptistas!
Solidão, ninho das rolas como das águias, perdoa, se eu não sabia ainda apreciar-te!

quarta-feira, julho 05, 2006

Comentários (que nos deixam felizes...)

www.myspace.com/clorofilaazul3
www.myspace.com/clorofilaazul2
(as minhas páginas)

As páginas da senhora dos comentários:
www.mp3.com.au/concertina and
www.mp3.com.au/alisoncunningham
http://profile.myspace.com/index.cfm?fuseaction=user.viewprofile&friendid=64441224



6/22/2006 8:15 AM


To me your songs are fantastic. Beautiful, inspiring and leave me tingling with excitement. Thank god there are people still making awesome original, experimental music out there. The mix of rhythms, instruments, riffs, sound effects, samples and dynamics you use is so refreshing. Excuse my language once more,
BUT I FUCKING LOVE IT!


hello!

Sorry i havent written back untill now, but i have been listening to your other two pages and i think they are just as great- really. I've actually had some trouble downloading your songs, has anyone else had trouble? I dont know wether its my computer. Anyway, im so happy that i found your music, its really made me love music again.

There are some extra tracks at:

www.mp3.com.au/concertina and
www.mp3.com.au/alisoncunningham

(the second one is dance tracks, they're ok but i dont like them that much)

My sister has some tracks you might like at:

http://www.mp3.com.au/artist.asp?id=26073

Ali : )


From: Konsertina
Date: Jun 22, 2006 8:07 AM

Thankyou, im glad you liked it!

You should not put your self down. Even if you dont think so yourself, your music IS professional and wether you like it or not your music is beautiful and inspiring which MAKES you a musician. I know what you mean though, i dont feel like a musician either. Commercial potential shouldnt be important, you're songs are fantastic- thats what matters.

have a great day!

Ali


segunda-feira, julho 03, 2006

Poema de Robert Wyatt (Cuckooland)

Beware

You might have a lot to say.
There might be a price to pay.
Just beware.

They might smile and nod their heads,
while they wish that you were dead.
Just beware.

Your friends might not be what they seem.
Take it from me,
If you're not careful
you might get hurt one last time.
It's just a warning,
beware.

Don't get caught off your guard.
Evil lurks in all our hearts.
Just beware.

You won't last very long,
even if you are strong.
Just beware.

Don't trust anyone.
They might be your enemy.
If you're not careful,
you might get hurt one last time.
It's just a warning,
beware,
beware,
beware.

sábado, julho 01, 2006

Manifesto da Revolta

Têm-me pedido ao longo dos anos para ter calma, para não ser egocêntrico, para ver as situações de forma mais alargada e abrangente, para não me queixar porque há sempre quem esteja pior. De facto há quem não tenha quase nada e seja feliz. Mas não podemos pedir a santidade a todos os homens. Dizem ainda que é apenas um problema de perspectiva, uma forma de olhar que talvez esteja distorcida. Devo por isso usar uma lupa qualquer de correcção. Sinto todo esse peso, toda essa possibilidade de contornar as questões, e no entanto nada conseguir fazer para as mudar. Serei apenas fraco? Estarei rendido? Porque me queixo eu?

Vou tentar explanar o que tenho para dizer, que é sempre muito em relação ao que pouco que chego efectivamente a dizer. A narrativa tenta ser coerente, mas não consegue, tenta ser cronológica, mas pode muito bem não o ser em pleno. Tenta-se. E só o facto de se tentar já deve ser louvado.

Hugo. 8 anos de idade. Miúdo algo irrequieto, dado às artes, gosto de música e de desenhar. Encontro-me nessa idade, na situação de filho único, com o pai doente, um Linfoma (Cancro) que o deixou paraplégico, caso raro para um linfoma, segundo os médicos o primeiro caso do género em Portugal, tendo atingido a medula. Vejo o meu grande herói ficar privado de toda uma liberdade de movimentos, vivências, prazeres, remetido a uma condição limitada e na eminência de morrer. Esteve algumas vezes próximo disso. Foram necessários anos de quimioterapia para que a doença fosse erradicada.

O meu pai foi sempre a única fonte de rendimento da minha casa e, felizmente, nunca foi despedido por causa da situação, pois sempre se mostrou um trabalhador exemplar. Essa sombra do despedimento pairou, de resto, quase todo o tempo da doença, pois nada nesta vida é garantido. Tornou-se mais objectiva quando, há cerca de 3 anos atrás, 8 dos colegas foram despedidos, estando ele no 9º lugar da lista. Tudo leva a crer que não foi despedido por se encontrar na situação em que estava.

A minha mãe, mulher de força extraordinária, aguentou sempre tudo da melhor forma que soube. Melhor do que tudo o que ela fez seria impossível. Era ela quem transportava o meu pai ao colo da cama para o quarto de banho, do quarto de banho para a cama, subir e baixar escadas com a cadeira de rodas, enfim diversas situações. Eu era demasiado pequeno nos primeiros anos, por isso nada podia fazer de significativo. Ela tirou a carta de condução para poder transportar o meu pai. Durante anos levou-o para o trabalho, ficando todo o dia no escritório com ele, para depois o voltar a trazer. Nunca trabalhou. Aprendeu a ser enfermeira da pior forma possível: tratando do mais próximo. Pode ser relativamente fácil aguentar tudo isto durante um curto espaço de tempo, meses ou um ano, dois no máximo, mas 10, 20 anos, já não me parece que seja tarefa leve.

Dez anos mais tarde, tendo aguentado como uma heroína todo este fardo, teve também a notícia bombástica que parecia impossível: tinha cancro na mama. Teve por isso que a tirar. Os médicos chegaram a dizer que era mesmo algo de estranho, acontecer duas vezes na mesma família e nas condições por que todos nós passamos. Felizmente tudo se resolveu pelo melhor e também ela se curou. Ficou apenas a estranha coincidência de ter tido a menopausa mais cedo e esta ter coincidido com os tratamentos de quimioterapia, que não permitiam o tratamento dos sintomas da menopausa e, pelo contrário, até os agravavam. Restou-lhe, de anos de esforços físicos, uma hérnia discal que a mantém em lista de espera já há 2 ou 3 anos, tendo sido a última proposta de intervenção cirúrgica adiada pelos motivos que mais tarde irei relatar.

Entre todos estes acontecimentos, existem outros aparentemente mais pequenos mas que deixam igualmente marcas. Uma escara no cóxis que o meu pai teve nos primeiros tempos de gravidade da doença, por estar acamado, sendo esta do tamanho de meia maçã. Sucessivas intervenções cirúrgicas relacionadas com a bexiga do meu pai, que de resto sempre foi causa de infecções e dores. Foi também operado a um ombro, pois tinha muitas dores e dificuldade de mobilização, fruto da quimioterapia e radioterapia que, em conjunto com as cargas de peso provocadas pelo uso do andarilho, fizeram com que o osso ficasse morto em certas zonas, descalcificado e até mesmo destruído. Ia ser operado ao outro ombro há pouco tempo, antes da ultima notícia.

Encontrei-me até aos 18 anos a estudar. Não tive problemas de maior ao nível académico. Sempre aguentei da melhor forma que soube todos estes embates. Existia muito silêncio. Manifestava-me apenas nas incursões agressivas de discurso e numa postura bastante individualista. Lembro-me de um pequeno episódio que me marcou. Numa das tardes que fui à praia com um amigo e os pais, tive um momento de isolamento onde não consegui conter as lágrimas, pois não evitava pensar que não podia lá estar com os meus pais, fazendo das coisas mais naturais que as pessoas podem fazer: passear na areia, junto ao mar, apanhar sol. Chegamos a ir para a praia um ou dois anos, eu, os meus pais e os meus tios. Precisávamos da ajuda do meu tio nessa altura, pois eu era muito novo. Íamos para a praia e o meu pai ficava na esplanada, uma vez que não podia apanhar sol, devido aos tratamentos. Tinha nessas férias 11, 12 anos. É óbvio que não podia revoltar-me com as pessoas que levavam uma vida normal, que se divertiam, que desfrutavam das condições permitidas por uma boa saúde. Restava sempre no entanto uma infelicidade no cantinho do coração.

As pessoas amigas dos meus pais, que nunca foram muitas, desapareceram todas progressivamente. Uma a uma, deixaram de aparecer em casa, de fazer um telefonema, até mesmo pelo Natal. Raras vezes uma ou outra lembrava-se de o fazer, por pena ou por peso na consciência. Também não podemos culpar as pessoas por terem a sua vida, por terem o seu tempo, por não perceberem o quão importante é a companhia dos amigos nestas ocasiões.

Foram por isso 20 anos de algum sofrimento, mas que foram provando a força de vontade das pessoas que constituem esta família.

Volvidos 20 anos, sendo agora um homem de 28 anos, recebo novamente uma notícia bombástica: o meu pai tem um tumor no pâncreas e são-lhe dados 6 meses de vida.

Podem dizer que não é fácil, que não é justo, que é muito pesado, que é isso tudo, mas o que é certo é que, por mais que se esforcem, não se passa directamente com vocês. Não são vocês que têm que lidar com este dilema de saber se existe justiça poética no mundo, se o mundo é justo para quem nele procura viver da melhor forma que sabe, sem nunca desistir, sem nunca vacilar, sem por isso detestar toda a humanidade.

Sim, sinto muita revolta. Não sei porquê, nem para quê. Parece-me que é por tudo isto. É também pelas coisas que não se conseguem dizer, por não saber qual foi a culpa, onde esteve o erro para que tudo isto tenha acontecido. Sou uma pessoa algo agreste, é verdade. Acusam-me várias vezes de irascibilidade, de imponderabilidade, de egocentrismo, de tudo o mais que caracteriza o individualismo. Não sabem o que custa viver tudo isto. Não sabem o que custa ter que lidar com revoltas da melhor forma que se sabe, até culpando a nós próprios por estarmos revoltados, por nos deixarmos abater. Chorei muito quando uma vez fui confrontado no SEMIDE com um miúdo tetraplégico que tinha apenas 2 anos a menos que eu. O meu pai esteve um ano internado a fazer fisioterapia. Esse miúdo gostava de desenhar e, como o meu pai tinha falado em mim, ele desejou ver-me e mostrar-me os desenhos dele. Ele quase não podia desenhar, mas desenhava, e tentava o melhor que podia fazer bons desenhos, que efectivamente não eram maus. Senti-me diante de uma força de vontade que minimizava todos os meus problemas de uma forma drástica. Que me comparava a uma simples formiga, quando pensava que era o único a sofrer no mundo com toda esta infelicidade. Mas até hoje não esqueço esse momento. Ainda hoje penso que não devo queixar-me tão sistematicamente, seja lá o que isso é. Mas sinto que tenho de me queixar. Sinto que tenho que me libertar desta dor. Posso não ter sofrido na pele, no físico, todo este mal. Não fiquei paraplégico, continuo com as minhas capacidades motoras e intelectuais intactas e levo a minha vida de forma bastante agradável. Tenho então alguma razão para me queixar? Talvez não. Então porquê tanta necessidade de gritar? Há uma angústia que me acompanha, bem lá no fundo do peito. Até mesmo enquanto escrevo isto essa angústia não me larga. É que não consigo dizer tudo o que tenho para dizer, não consigo relatar tudo o que há para relatar, não consigo sequer organizar-me para o fazer. Os problemas foram muitos mais do que os que aqui relato.

Estou na eminência de perder o meu pai. Uma das coisas mais importantes da minha vida. Não tenho emprego. Apenas um trabalho que me dá ao fim do dês uns míseros 500 euros. Pago um carro todos os meses, 150 euros. Faltam ainda 4 anos. A minha situação sentimental é inexistente, e até magoada. A minha mãe não trabalha e por isso irá receber 60% da reforma do meu pai que tem um ordenado pequeno. A minha arte não é apreciada da forma como gostaria. Tanto a música, como a escrita, como a pintura estão guardadas no meu pequeno mundo. Algumas pessoas vão dando valor ao que faço e isso é gratificante. Mas ainda não é isso que quero, e nem sei bem o que quero, mas sei que não é isto. Não sei o que o futuro me reserva. Conta-se que seja sempre alguma coisa melhor, mas o passado mostra-nos que o caminho foi sempre difícil e sempre existiram novos obstáculos para derrubar. Cada um pior que o outro. Difícil a jornada, difícil.

A acrescentar a tudo isto tenho também as minhas inquietações metafísicas. Sei lá se Deus existe se não existe, se podemos algum dia controlar os maus sentimentos, se o amor de uma vida pode alguma vez ser encontrado, se pode ser perdido para sempre. Não sei porque não consigo falar com muitas pessoas, porque acho este mundo tão inacessível. Percebo que por estar revoltado comigo mesmo estou revoltado contra o mundo. Talvez por estar revoltado contra o mundo não deixo de estar revoltado contra mim. Mas é difícil aguentar tudo isto. Tudo isto aumenta quando olho por uma perspectiva existencialista, filosófica. Tudo isto aumenta quando olho por uma perspectiva unicamente materialista. Será a vida um único momento contínuo, apenas um presente? Se assim é, em que medida pode ser anestesiado todo este sofrimento? Porque há fome no mundo? Porque há guerras? Porque uns são ricos e exploram os outros, e não se apercebem disso? Porque há pessoas que não trabalham e ganham dinheiro de imóveis que herdaram, e outros trabalham de sol a sol e são explorados como eu sou mas de forma muito pior? Porque morrem crianças de fome a cada minuto que passa? Para quando uma paz interior que me permita deixar de questionar acerca disto tudo com sofrimento? Não tenho direito de berrar? Matam-se pessoas todos os dias de forma indirecta e eu não tenho direito a um simples berro?

Dirão alguns que tenho uma tendência depressiva, que exagero a parte negativa. Podem até ter razão. Mas digam-me, qual é a parte negativa deles? Digam-me, o que os faz chorar de noite? Digam-me se acordam todos os dias com uma angústia no peito sem saberem o que é, sem que se vá embora.

Não me mandem calar, não me peçam para raciocinar calmamente nem tão pouco para falar baixo! Não me peçam para ser um santo, não me peçam para não me queixar, não me falem noutros sofrimentos piores ainda, se não os tiverem vivido na pele! Admiro muito qualquer pessoa que sofre e mesmo assim não tem necessidade de gritar. Pois bem, admito a minha fraqueza diante delas, mas deixem-me gritar, espernear, mal dizer, dizer mal de Deus, do Diabo, das instituições, do ser humano, de tudo, de mim!

Não me mandem ter calma! Não me digam para parar! Estejam apenas aí, de ouvidos atentos, mais do que isso, de olhos abertos. Mais do que isso ainda: de coração aberto! Ponham um capacete protector, mas não me peçam para não vos bater. Não o faço fisicamente mas espiritualmente. Não é só por mim, é por todos os que sofrem. Deixem o São João ser festejado em casa, na cama, chorando. Não me obriguem a festejar. Não quero festas, não quero música de massas, não quero as vossas pipocas intelectuais. Deixem-me berrar e espernear, deixem-me dizer tudo isto aos gritos, deixem-me não saber bem aquilo que quero dizer! Se repararem bem até é raro berrar…

Esta revolta é devida, e se não é devida leia-se de novo e tente-se calçar os sapatos de quem sofre. E contudo isto, nem berrei, nem consegui dizer o que tenho para dizer…