Rosmaninho e Alecrim pelo chão

Um caminho dourado por Midas, queimando à passagem os pés descalços dos desterrados

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Localização: Porto, Porto, Portugal

Hugo André Barbosa Carvalho dos Santos. Nascido a 15 de Abril de 1978. Curso de Pintura da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Curso de Artes Gráficas da Escola Secundária de Soares dos Reis. Curso de Formação Pedagógica Inicial de Formadores. Curso de Desenho Assistido por Computador como Conteúdo Multimédia. (Dreamweaver, Flash, AutoCad, 3D Studio Max, Photoshop) Bolseiro Erasmus 2000/2001 (Faculdade de Belas Artes do País Basco). Frequentou 2 cursos de verão do CPCIL (Centro Português para a Criatividade Inovação e Liderança). Frequentou 2 Workshops de teatro na FBAUP em 1999 e 2000. Membro da ARGO (Associação Artística de Gondomar) desde 1993. Membro do CCTEG (Centro Cultural de Teatro Experimental de Gondomar).

terça-feira, junho 27, 2006

Para uma música nova

Between the fire and the ice
Where the metal turns to water
You see a face behind a mirror
Reflecting on your deepest shadows

Between the melting sky of red
In the empty bed inside your heart
And the hurting mouth that sings
The sadness in your eyes

No rhymes on empty words
No rhythms on empty bodies

Don´t you worry don´t be afraid
My love will search your hand
In the cold cold night
And a fire place of fairy tails
Will save you from this hell

É São João

O mundo endoidece lá fora, em festa.
Eu prefiro estar doido sozinho, comigo.
Amanhã é outro dia.

quarta-feira, junho 21, 2006

Considerações

Descobrir que se esteve errado durante anos pode constituir um grande problema mas, ao mesmo tempo, outra descoberta: o facto da certeza que era necessária na altura já o não ser, embora pudesse estar certa na altura em que foi necessária. Passamos anos a decorar o nosso papel, o papel que vamos construindo para a peça, a nossa vida, lugar comum, e tentamos não fugir do guião.

Há alturas em que o percurso de Siddhartha, descrito por Hesse, parece ser de facto o único e incontornável percurso de cada um dos seres.

Também no documentário de Scorcese sobre Bob Dylan, reflecte-se esse mesmo percurso, essa metamorfose kafequiana do ser que não pode ficar preso à imagem que ele próprio e os outros têm de si, mas sim mudar, alterar, transfigurar-se. Não somos objectos estanques no tempo, não somos personagens petrificadas, guardadas em livros bolorentos.

Perguntam a Bob Dylan se está ciente do que ele, a sua imagem, e a sua poesia representam para o mundo. Como qualquer um que tenha consciência do mundo e de si, respondeu que não, que não sabe nem poderá saber, pois o mundo é algo diferente a cada momento. Não o disse, provou-o com as suas acções. Não o disse, já estava dito desde o início dos séculos. Responde também aos jornalistas dizendo que não irá responder o que eles querem, da forma como querem, e que não vê motivo para uma pergunta quando já se sabe, ou pensa saber-se a resposta.

De facto, a maior parte das pessoas espera que nos comportemos de acordo com a imagem que de nós fizeram, a qual pode diferir em muito ou não daquilo que somos ou podemos efectivamente ser.

Duchamp foi igualmente um espelho fractal dessa mesma realidade simétrica, ou um espelho linear dessa realidade fractal. Não se coibiu de mudar o seu trabalho ao longo da vida, assim como a sua postura diante o próprio trabalho e as “coisas” da arte, as criticas, os ensaios, as exposições, as inaugurações, as “performances” do artista no mundo da arte.

A recusa de alguém se encerrar em si mesmo, embora possa desculpar muitos erros cometidos se a sua vontade for de índole negativo e enganador, pode muitas vezes ser produtiva, positiva e libertadora. Encerrar-se em si só pode querer dizer uma coisa: ficar preso a uma imagem mentalmente construída, pondo de lado qualquer outra que pareça entrar em conflito com esta. Encerrar-se em si próprio normalmente quer dizer estar ausente de mudança, estar afastado de qualquer possibilidade exterior de se ser moldado.

Errar é humano, e por isso deu azo a muitos erros desculpados. Mas normalmente esses erros eram cometidos em nome de algo menos humanos, menos passível de estar errado. O primeiro exemplo disso está patente nas acções levadas a cabo durante séculos pela Igreja Católica. Os seus erros, na altura virtudes, eram tidos como actos de manifestação divina. Matar e torturar alguém por blasfemar era algo, não só correcto, como imperioso de ser executado. Mais tarde, esses erros foram imputados à culpa da fraca condição humana, cativa de um germe demoníaco, e explicada e desculpada aos olhos dessa mesma culpa. Sabemos então que pode ser fácil, por um lado, actuar perante a realidade de forma sistemática, usando a desculpa de que o fazemos por uma causa superior. Por outro, pode ser ainda fácil desculpar essa mesma actuação, pondo em evidência o carácter erróneo da existência humana.

É fácil, por esta lógica, desculpabilizar alguém que, da extrema-direita enquanto jovem, é agora membro de um partido maioritário de direita. Mas pela lógica contrária, é igualmente válido admirar o percurso político dessa mesma pessoa, uma vez que não permaneceu atada a uma única noção politica, e por isso castradora. Chegando a este ponto, em que nenhuma das posições poderá ser mais válida, é necessário analisar a outro nível mais profundo de escala, se o percurso, apesar de sinuoso, respeita uma coerência interna. É sabido que os sistemas são, apesar de caóticos, regidos por uma certa periodicidade, um certo sentido de harmonia. São sistemas complexos por terem dentro de si ligações de sistemas igualmente complexos. As pessoas são pois, sistemas complexos dentro de sistemas complexos. Devemos então analisar uma série de factores para chegarmos à conclusão que esta ou aquela pessoa se desviou consideravelmente do curso da sua vida por motivos intencionais ou alheios à sua vontade. Este é também um dos aspectos a ter em conta: a vontade própria e a vontade alheia. Este ponto poderia ser alongado até ao infinito, sendo que a vontade é fruto da interacção de vontades diversas, sendo essas misturas de outras vontades. Não quero aqui dizer se alguém está certo ou não em mudar de direcção de forma mais ou menos brusca, incoerente ou desconexa. O que quero dizer é que talvez possamos encontrar as razões que levam a que isso tenha acontecido, e que essas mesmas razões sejam válidas à luz de uma coerência de sistemas.

Não é desse tipo de desculpa que agora falo. A libertação do indivíduo que aqui defendo é de outra ordem. Não deve contentar-se com a desculpabilização fácil dos seus actos passados porque simplesmente são passados e já não requerem a mesma ordem de valores para continuarem a existir. Deve manter, isso sim, uma postura crítica face aos mesmos, de forma a catapultar o presente para o Devir que lhe é inerente.