Rosmaninho e Alecrim pelo chão

Um caminho dourado por Midas, queimando à passagem os pés descalços dos desterrados

A minha foto
Nome:
Localização: Porto, Porto, Portugal

Hugo André Barbosa Carvalho dos Santos. Nascido a 15 de Abril de 1978. Curso de Pintura da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Curso de Artes Gráficas da Escola Secundária de Soares dos Reis. Curso de Formação Pedagógica Inicial de Formadores. Curso de Desenho Assistido por Computador como Conteúdo Multimédia. (Dreamweaver, Flash, AutoCad, 3D Studio Max, Photoshop) Bolseiro Erasmus 2000/2001 (Faculdade de Belas Artes do País Basco). Frequentou 2 cursos de verão do CPCIL (Centro Português para a Criatividade Inovação e Liderança). Frequentou 2 Workshops de teatro na FBAUP em 1999 e 2000. Membro da ARGO (Associação Artística de Gondomar) desde 1993. Membro do CCTEG (Centro Cultural de Teatro Experimental de Gondomar).

sexta-feira, julho 30, 2004

Comunicar

Das coisas que mais ansiedade criam em mim são, entre outras, as incapacidades comunicativas, os mal entendidos, as coisas que ficam por dizer, as coisas que se dizem mas não chegam ao outro lado. Falo de tudo isto no texto "Desvendando Acasos" que está lá mais para baixo, nos comments que a ele pertencem. Os meus pesadelos são, de resto, sempre sonhos em que digo alguma coisa e ninguém ouve, ou riem-se de coisas sérias, ou chateiam-se com brincadeiras, enfim, mal entendidos.

Analisar uma fotografia é coisa fácil, coisa técnica, coisa de cientista. Requer alguma capacidade de observação e alguma retórica, o que comunmente se chama "bom gosto". Dizer que se analisou bem uma fotografia é demonstrar o quão importante uma "análise" (no sentido científico que a palavra adquiriu) pode ser. Nesse sentido, "analisaste bem a fotografia", parece uma frase altamente académica. 

Cada vez mais me interesso pelas questões da linguagem, uma vez que esta é anterior a qualquer manifestação de comunicação, ou seja, antes de se escrever, antes de se pintar, antes de qualquer processo comunicativo, o homem teve nessecidade de desenvolver o campo significativo, no sentido de dar às imagens, sensações e sentimentos, a sua correspondente na ordem das ideias.

Há questões, como a tal metáfora da cebola, que estão numa camada mais superficial e outras que estáo mais interiores. Uma camada superficial numa imagem será o seu primeiro impacto, que normalmente passa pela cor, ou ausência dela, depois pelas imagens figurativas que lá estão (com maior ou menor grau de reconhecimento no mundo "dito" real), depois a composição, sendo a organização simétrica a mãe de todos os arranjos espaciais.  Tudo poderá ser importante, tudo é importante, mas secundário quando sabemos a receita. No campo da estética há receitas que resultam, há formulas. Mas também no campo da filosofia, da poesia, das artes mais directamente associadas ao pensamento (devido à sua forte ligação à linguagem oral e escrita, que infelizmente são privilegiadas na nossa sociedade, excluindo muitas das vezes as outras formas que focam os outros sentidos, audição, olfacto, etc...)

Um dos mal entendidos com o quais normalmente me deparo, para além de ter um pensamento algo "saltitante", é o facto de parecer ter a "mania". Tenho a certeza que muitas das vezes essa sensação passa pela forma como formalizo (passo o pleonasmo) o meu discurso, tanto verbalmente (com voz ligeiramente mais alta), como na escrita. Tento sermpre analisar a escrita e o que cada palavra quer dizer, pois ser "complexo" não é o mesmo que ser "complicado", e muitas vezes usa-se uma palavra em vez da outra.

Para finalizar, e provavelmente quando ler isto modificarei, acrescentarei coisas, a discussão acerca da imagem não era sobre a imagem (directamente) mas sobre a forma como se capta uma imagem e a forma como se observa uma imagem. Já não me interessa tanto (há já algum tempo) saber se a imagem está bem feita, bem composta, organizada, correspondendo a todos os canones de beleza, banhada na purificação do rectangulo dourado ou de ouro, ou no círculo perfeito, mas algo que já escapa a isto tudo. Esse "algo" é qualquer coisa que passa para a ordem da necessidade, da vontade de comunicar, ou seja, dos impulsos comunicacionais, das uniões da alma através da alma. Não estou a conseguir explicar-me. É sempre tanto para dizer para tão pouca capacidade de a saber transmitir...

» Questiono-me porque faço imagens e não tanto a forma como as faço.
» Questiono-me porque vejo imagens e não tanto a forma como as vejo.

Em que medida uma imagem serve verdadeiramente o espírito e não o gosto?
Kant distinguiu muito bem o Gosto do Belo, dizendo que o primeiro será sempre o encontro entre uma coisa que se gosta e outra que corresponde a esse gosto do género: Eu gosto de vermelho, logo, este quadro é vermelho, por isso gosto deste quadro/a comida deve estar com determinada quantidade de sal, logo, esta comida precisa de mais sal; e o segundo está na capacidade de nos surpreender, de nos paralisar, de reconfigurar a nossa percepção, de não ser explicavel, mesuravel, ser uma sensação que pecorre todo o corpo semelhante ao orgasmo, e na medida em que é totalmente nova, sempre diferente. O Belo de que Kant fala é como um dos predicados dados pelo Oscar Wild no "Retrato de Dorian Gray" acerca da arte: "toda a arte é completamente inútil". Toda a arte é inútil no sentido em que só tem utilidade para o espírito, e este nunca é mesuravel. Quem não percebe o paradoxo não consegue conceber esta frase. Paradoxal é ser tão plenamente vazio que mais cheio não se pode estar. É ser-se vazio ao mesmo tempo que se está cheio e não ser-se vazio porque não se está cheio. O paradoxo não é oposição, é convívio entre opostos, é a união da oposição, por isso gosto tanto de Agostinho da Silva, pois foi ele quem me explicou o que eu próprio já sentia mas não conseguia explicar.

Já me perdi, mas não interessa pois dessa forma encontro-me como fragmentado, vejo-me como perdido e sei onde estou. Só podemos ter noção de estarmos perdidos por sabermos onde nos encontramos, e sabermos que não era quele o sítio onde nos queriamos encontrar. Estar perdido é isso. Por isso posso dizer: NÃO ESTOU PERDIDO, APESAR DE NÂO SABER ONDE ESTOU.



quinta-feira, julho 29, 2004

Charles Bukowski (1920-1994)

"question and answer"

he sat naked and drunk in a room of summer
night, running the blade of the knife
under his fingernails, smiling, thinking
of all the letters he had received
telling him that
the way he lived and wrote about
that--
it had kept them going when
all seemed
truly
hopeless.
putting the blade on the table, he
flicked it with a finger
and it whirled
in a flashing circle
under the light.
who the hell is going to save
me? he
thought.
as the knife stopped spinning
the answer came:
you're going to have to
save yourself.
still smiling,
a: he lit a
cigarette
b: he poured
another
drink
c: gave the blade
another
spin.

from The Last Night of the Earth Poems


quarta-feira, julho 28, 2004

Textos Pedagógicos I

«Valioso... para mim... é a noção... de que o que importa não é educar, mas evitar que os homens se deseduquem. Cada pessoa que nasce deve ser orientada para não desanimar com o mundo que encontra à volta. Porque cada um de nós é um ente extraordinário, com lugar no céu das ideias... seremos capazes de nos desenvolver, de reencontrar o que em nós é extraordinário, e transformaremos o mundo.»

Agostinho da Silva

Entrevista a Filosofia, publicação periódica da Sociedade Portuguesa de Filosofia, nº 2, Dezembro de 1985, p.162. In Dispersos, ICALP, 1988, p. 57.

sexta-feira, julho 23, 2004

Entre o nada e a catástrofe

(O meu último livro... ler nos comments)

quinta-feira, julho 22, 2004

What autistic people can teach us about memory

[Added February 2004] A small percentage of people with autism have some remarkable abilities: it is the so called Savant Syndrome.They show mostly artistic abilities (play music or paint).The reason fo these abilities may be a normal right brain hemisphere that compensates for a damaged left hemisphere . But what about the extraordinary memory that such people show(this phenomenon was depicted in the film Rain man)?The almost limitless memory of savant people seems to be of the kind called procedural.This is the kind of implicit memory that we use when we learn to do something like riding a bicycle. This memory is the last to be lost by people with Alzheimer. Again, it seems that the damage that produces the autism has destroyed the explicit semantic memory, leaving intact this "low-level" memory. Although the autistic people don't know the meanings of what they learn, they are able to remember a lot of things almost without effort.

http://www.ba.infn.it/~zito/memory.html

(outras informações):
http://www.geocities.com/Athens/Oracle/8465/mf/gb01.htm

Desvendando Acasos (um cobertor e um livro)

quarta-feira, julho 21, 2004


Caos, ou não, talvez, pois, caos. Posted by Hello

Ainda sobre a repetição

(Mais um excerto das ditas questões estéticas)

 
Excerto de um texto da Aleluia Baby #6:


Não é pessoa de repetições, apesar de as procurar como se de um ritual se tratasse. Acha que é a consciência de que todos necessitamos de rituais, em todos os cantos do mundo. E é também a sua necessidade de fugir a esta condição humana, que vê como que, de certo modo, imposta por uma vontade anterior e exterior à sua. E é também esta necessidade de controlo absoluto da sua existência que o cansa, que o faz sentir prisioneiro de si próprio, contrariando o tão bem querido destino (querido quando é positivo, diga-se de passagem...).
(...)
Concorda com a conclusão a que se chegou de que uma filosofia é constituída por meia dúzia de ideias chave, não estando estas subdivididas em muitas outras categorias. Talvez por isso mesmo se considere tão repetitivo, e também por esse motivo tente agora explicar-se, como se estivesse a formular uma desculpa para si próprio, ou para quem o lê.

Os paradoxos são sempre uma constante neste pensamento alternado, mas há marcos que definem muito bem trajectos, intenções, direcções, vontades, que constituem igualmente uma constante. Opostos ou não, convivem. Cabe-me aqui unir as peças, catar-lhes o tal fio condutor, projectar intenções para o futuro, tornar exponencial o Devir. Acerca do Devir, tenho pendurada na parede do meu quarto uma folha que diz o seguinte: "o Devir: o movimento como actualização do possível". Já nem me lembrava dela, apesar de estar na parede por me saber tão esquecido... Diz ainda: "São Tomás, Devir: a mudança é a actualização da potência enquanto potência. Acto+Potência=Devir".

O Caos

(Excerto de um longo texto que fiz sobre as minhas questões estéticas)


"Para conhecer a trajectória de um sistema determinista basta conhecer a sua posição inicial; a duas posições iniciais diferentes corresponderão a duas trajectórias diferentes. Um sistema é caótico se amplifica, por pouco que seja, os desvios iniciais (...)";"É na amplificação dos pequenos desvios que se aloja o acaso. (...)";"Um desvio de um átomo, amplificado um número suficiente de vezes, pode tornar-se considerável. Dez elevado a nove, nove vezes o tempo característico de um sistema caótico, e o desvio atinge um metro. Obtêm-se assim fenómenos macroscópicos que serão atribuídos ao acaso porque as suas causas serão imperceptíveis". - do livro: O Caos, de Ivar Ekeland. 
 
É nesta ordem de escala, que parece estar um dos mecanismos do Minimalismo, da repetição e da sensação de vazio que ele traz.
Expliquei outro dia a uma amiga minha a sensação que eu tinha acerca das texturas minimalistas, tendo como ponto de partida a camisola dela. À primeira olhadela, a camisola tinha uma cor cinzenta. Aproximando-nos um pouco reparávamos que esta tonalidade era feita com duas cores diferentes: branco e cinzento. Mais uma aproximação e sabíamos que essa tonalidade era obtida mediante a junção de um entrançado entre dois fios, cada um com a sua cor diferente, e o entrançado tinha uma sistematização obvia, embora o resultado da junção fosse caótico. Em ultima análise sabíamos que existia um padrão de linhas que se cruzavam dentro de uma forma sistemática e aleatória, mas que numa micro escala perdíamos a noção do número de linhas que compunham cada fio de lã da camisola. Tentava provar com isto que os resultados do Minimalismo surgem pela sistematização de um determinado conjunto de factores, caóticos ou não. A junção destes factores pode conduzir - normalmente conduz - a uma homogeneidade pictórica, a uma única forma, como se pudéssemos viajar suficientemente longe para não nos apercebermos das diferentes partes que a decompõem, ou suficientemente perto para perdermos a noção de todo e partes. O Minimalismo funciona como uma lupa de ampliação ou distanciamento relativamente a um objecto/signo.

terça-feira, julho 20, 2004


Mr Tambourine Man Posted by Hello

Toca uma música para mim

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
I'm not sleepy and there is no place I'm going to.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
In the jingle jangle morning I'll come followin' you.
 
Though I know that evenin's empire has returned into sand,
Vanished from my hand,
Left me blindly here to stand but still not sleeping.
My weariness amazes me, I'm branded on my feet,
I have no one to meetAnd the ancient empty street's too dead for dreaming.

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
I'm not sleepy and there is no place I'm going to.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
In the jingle jangle morning I'll come followin' you.

Take me on a trip upon your magic swirlin' ship,
My senses have been stripped, my hands can't feel to grip,
My toes too numb to step, wait only for my boot heels
To be wanderin'.
I'm ready to go anywhere, I'm ready for to fade
Into my own parade, cast your dancing spell my way,
I promise to go under it.
 
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
I'm not sleepy and there is no place I'm going to.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
In the jingle jangle morning I'll come followin' you.
 
Though you might hear laughin', spinnin', swingin' madly across the sun,
It's not aimed at anyone, it's just escapin' on the run
And but for the sky there are no fences facin'.
And if you hear vague traces of skippin' reels of rhyme
To your tambourine in time, it's just a ragged clown behind,
I wouldn't pay it any mind, it's just a shadow you're
Seein' that he's chasing.
 
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
I'm not sleepy and there is no place I'm going to.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
In the jingle jangle morning I'll come followin' you.
 
Then take me disappearin' through the smoke rings of my mind,
Down the foggy ruins of time, far past the frozen leaves,
The haunted, frightened trees, out to the windy beach,
Far from the twisted reach of crazy sorrow.
Yes, to dance beneath the diamond sky with one hand waving free,
Silhouetted by the sea, circled by the circus sands,
With all memory and fate driven deep beneath the waves,
Let me forget about today until tomorrow.
 
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
I'm not sleepy and there is no place I'm going to.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
In the jingle jangle morning I'll come followin' you
 
Bob Dylan

segunda-feira, julho 19, 2004

As nuvens.

As nuvens.

 
"Desde essa época que, ainda que de modo confuso, eu tinha a intuição de que a nuvem seria o meu elemento - essa coisa que é imaterial e todavia substancial, essa presença etérea e quase palpável. Virei a compreender mais tarde - quando chegar à idade de compreender porque é que os Chineses são tão apaixonados pelas nuvens, porque é que usam a expressão «nuvens e chuvas» para designar o acto de amor e o estado de êxtase, porque é que os poetas e os tauistas falam de «comer brumas e nuvens», de «afagar brumas e nuvens» e de «dormir com brumas e nuvens». No fundo, o que é a nuvem? Donde vem? Para onde vai? Eu que tinha todo o tempo para a observar, via que ela nascia do vale sob forma de brumas, depois subia às alturas até atingir o céu onde podia vogar à vontade e tomar todas as formas, ao sabor do tempo, ao sabor do vento. De vez em quando, como se não esquecesse da sua origem, consentia em regressar à terra sob forma de chuva, cumprindo um percurso circular. Portanto, estava sempre algures mas não era de nenhures. Então o que era? Nada. Mas parecia que sem ela o céu e a terra teriam sido monótonos". - do livro: O que disse Tianyi.

Outra das expressões que são utilizadas acerca do trabalho de Yves Klein, é o "espaço etéreo" que tanto o intriga. (e lembro-me das minhas músicas: "Ethereal Mood"). Isto também me faz lembrar uma frase que a A. (colega da internet) me disse acerca de mim ou do que de mim pressentia: "já reparaste que falas sempre em ar, em coisas suspensas, coisas penduradas?".
Vem-me à memória uma música que fiz, a partir de um poema já um pouco antigo, há cerca de seis anos atrás, e que até serviu de motivo de gozo para alguns. O poema intitulava-se: "I am a cloud in the open sky". Os colegas que o comentaram disseram que já tinham pensado em ser várias coisas, o Sol, a Lua, uma flor, o rio, o mar, uma montanha, agora uma nuvem nenhum deles queria ser!
E o poema era assim:

 


Poema IV

I am a cloud
In the open sky
I see myself so white.
I wish I could rain all over you
If I was really a cloud
And white.

 
Este poema também foi recordado quando comprei um álbum que ouvi em Bilbao, na loja onde conheci Carlo Majer, disco esse que fez com que o encontro fosse possível, pois Carlo já não o ouvia há muitos anos e andava à procura dele. Eu tinha-o na mão, juntamente com mais três CD’s, no momento em que ele entra na loja e pergunta pelo disco... Neste álbum de 1968, dos United States of America, que curiosamente só editaram um álbum, existe também um poema acerca de nuvens, "Cloud Song":

 

"How sweet to be a cloud,
Floating in the blue.
It makes him very proud
To be a little cloud.


How sweet to be a cloud
Floating in the blue.

How sweet to be a cloud,
Floating in the blue
It makes us very proud
To be a little cloud.

How sweet to be a cloud
Floating in the blue."

 
"Este poema parece ter sido feito por/para mim!", disse eu quando o ouvi pela primeira vez. A semelhança com o meu poema é incrível, e as sensações são as mesmas, levando-me a pensar que há por aí muita gente que gostaria de ser nuvem, embora nem o saiba.

De facto, recorro muitas vezes a esse tipo de representações, usando materiais que remetem para essas "texturas visuais", também eles com fortes traços orientais de delicadeza e névoa, e tudo começa a querer sair dos confins da incógnita, e o meu mundo de nuvens e imagens desfocadas, parece agora emergir na forma do oriente e do tempo perdido/achado das minhas dúvidas...


A um dos meus artistas preferidos Posted by Hello

Fui a Vilar de Mouros ver este homem

Porque há pessoas que nos mostram o mundo de uma forma tão bela, tão poderosamente simples e bela. Porque já chorei muitas vezes ao escutá-lo. Porque pelo que me deu merecia a minha presença. Porque marcou o rumo da história da música, e sou musicodependente, melómano. Porque escreveu poemas como este. Porque os porque que tenho aqui para dar "estão a soprar no vento"...:


Oh, where have you been, my blue-eyed son?
Oh, where have you been, my darling young one?
I've stumbled on the side of twelve misty mountains,
I've walked and I've crawled on six crooked highways,
I've stepped in the middle of seven sad forests,
I've been out in front of a dozen dead oceans,
I've been ten thousand miles in the mouth of a graveyard,
And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, and it's a hard,
And it's a hard rain's a-gonna fall.

Oh, what did you see, my blue-eyed son?
Oh, what did you see, my darling young one?
I saw a newborn baby with wild wolves all around it,
I saw a highway of diamonds with nobody on it,
I saw a black branch with blood that kept drippin',
I saw a room full of men with their hammers a-bleedin',
I saw a white ladder all covered with water,
I saw ten thousand talkers whose tongues were all broken,
I saw guns and sharp swords in the hands of young children,
And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, it's a hard,
And it's a hard rain's a-gonna fall.

And what did you hear, my blue-eyed son?
And what did you hear, my darling young one?
I heard the sound of a thunder, it roared out a warnin',
Heard the roar of a wave that could drown the whole world,
Heard one hundred drummers whose hands were a-blazin',
Heard ten thousand whisperin' and nobody listenin',
Heard one person starve, I heard many people laughin',
Heard the song of a poet who died in the gutter,
Heard the sound of a clown who cried in the alley,
And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, it's a hard,
And it's a hard rain's a-gonna fall.

Oh, who did you meet, my blue-eyed son?
Who did you meet, my darling young one?
I met a young child beside a dead pony,
I met a white man who walked a black dog,
I met a young woman whose body was burning,
I met a young girl, she gave me a rainbow,
I met one man who was wounded in love,
I met another man who was wounded with hatred,
And it's a hard, it's a hard, it's a hard, it's a hard,
It's a hard rain's a-gonna fall.

Oh, what'll you do now, my blue-eyed son?
Oh, what'll you do now, my darling young one?
I'm a-goin' back out 'fore the rain starts a-fallin',
I'll walk to the depths of the deepest black forest,
Where the people are many and their hands are all empty,
Where the pellets of poison are flooding their waters,
Where the home in the valley meets the damp dirty prison,
Where the executioner's face is always well hidden,
Where hunger is ugly, where souls are forgotten,
Where black is the color, where none is the number,
And I'll tell it and think it and speak it and breathe it,
And reflect it from the mountain so all souls can see it,
Then I'll stand on the ocean until I start sinkin',
But I'll know my song well before I start singin',
And it's a hard, it's a hard, it's a hard, it's a hard,
It's a hard rain's a-gonna fall.

Copyright © 1963; renewed 1991 Special Rider Music

 
Ele está velhinho, sim. A voz quase não se percebe, sim. Os músicos que estão com ele foram dos melhores que já vi: sim! Que me importa se está velho? As coisas que ele fez estarão sempre novas. Alguém acha que o Mozart está morto? Pessoas assim estão mais vivas que nunca!
 

sexta-feira, julho 16, 2004


Don´t play defence Posted by Hello

Manifesto ao tempo do copy/paste

 
Sim, sou anacrónico. Se ser anacrónico é não "acompanhar os tempos", sim, sou anacrónico. Sou o anacrónico de todos os tempos, do eterno, do efémero, do único efémero que se preza de ser venerado, do momento que faz a ponte entre todos os tempos, os passados e os futuros. Não acredito na moda, na verborreia dos comportamentos estereotipados, enclausurados no que acontece, ou vai parecendo acontecer, porque se evita o verdadeiro confronto com a realidade, com aquilo que efectivamente encarna o movimento inicial do mundo, e certamente onde ele vai acabar.
Tal como o pensamento/esclarecimento que Agostinho da Silva me trouxe: evoluir é voltar à origem. Se sou anacrónico, sou-o com plena consciência de que olhar para a frente é olhar para trás, é ter consciência do que está para trás, e caminhar na direcção que volta ao início, na direcção que é circular, e no entanto tão plena de surpresas quanto cheia de predestinações.

Sim, sou anacrónico, não uso essas sapatilhas que envergas nos pés, como se o chão te fugisse se as não usasses. Não uso sequer esses gestos de video-clip, nem as poses de Cosmopolitan. Ah! Como evito que essas coisas me contaminem. Sei que sou contaminado, todos somos, "é a vida", mas que luto contra isso, sim luto. Sou mais cosmopolita do que tu, pois sei de onde vens, e com quem te encontras, e o que falas, e no entanto desprezo tudo isso, mantendo apenas o fascínio inevitável por essa leveza comportamental, fruto das facilidades que te concederam sem que sequer te desses conta. Não vou dizer que as não mereces. Isso seria de uma maldade imperdoável, e todos os seres merecem o melhor. Mas o melhor não é só o bom, ou o bom não é só o melhor, o sossego falso dos que se mantêm inocentes por terem medo, ou não quererem tomar consciência. Também eu tenho as minhas facilidades, não as nego, embora até sinta que talvez as não merecesse. Poderá certamente haver em mim ainda aquela réstia de moralismo de esquerda que rejeita as facilidades "burguesas". Admito que assim aconteça, mas também sei que tenho consciência disso, embora nem saiba se verdadeiramente o é, mas tudo é e não é, ou vai sendo, desde que se viva plenamente todas as dores e todos os prazeres, e a eternidade que o mundo tem, que de moda não tem nada, nem de útil, nem de caracteres de revista de design.

Perdoa-me se me manifesto com uma réstia de raiva. Mas acabei de ver um filme de 1964, bem mais actual do que muitos que se fazem hoje em dia. Sou motivado pelos impulsos, pois vivo em tempos que os não permitem ou tentam abafar. É um grande defeito que tenho, esta revolta meio seca, que em nada contribui para que te ajude, nem a mim. Mas perdoa-me tal como perdoo os males que por aí vou vendo. Só peço para que me deixes falar. E vai-me ouvindo mesmo que não me faça entender, e escuta-me com o instinto.

 
Hugo Santos 2003-03-30

quinta-feira, julho 15, 2004

Old Man

Neil Young ("Harvest", 1972)

Old man, look at my life, I'm a lot like you were.
Old man, look at my life, I'm a lot like you were.

Old man, look at my life, twenty-four and there's so much more.
Live alone in a paradise that makes me think of two.
Love lost, such a cost, give me things that don't get lost,
like a coin that won't get tossed, rolling home to you.
Old man, take a look at my life, I'm a lot like you,
I need someone to love me the whole day through.
Have one look in my eyes and you can tell that's true.

Lullabies, look in your eyes, run around the same old town.
Doesn't mean that much to me to mean that much to you.
I've been first and last, look at how the time goes past.
But I'm all alone at last, rolling home to you.
Old man, take a look at my life, I'm a lot like you,
I need someone to love me the whole day through.
Have one look in my eyes and you can tell that's true.

Old man, look at my life, I'm a lot like you were.
Old man, look at my life, I'm a lot like you were.

Um Conto (entre outros, hemoglobinados pelos leucocitos assassinos)

Nos bastidores de um palco muito moderno e arranjado escutam-se palavras musicais de uma voz linda e encantatória. Paira no ar um clima etéreo como o dos contos de fadas. Há magia mas ninguém assiste. Só o narrador. O senhor da portaria, que está na portaria, gosta de se esconder nas suas próprias incapacidades intelectuais e finge-se muito mais burro do que efectivamente é. Há quem diga que ele simplesmente não pensa, só age. Mas ele não só age como pensa. Mesmo assim não deixa de ser burro. Só não é tanto quanto se pensa. Usa um bigode proeminente que lhe tapa os lábios, tanto o de cima como o de baixo, como por vezes os lábios vaginais de algumas mulheres de menor reputação. Há quem diga que é um instrumento paradisíaco, o bigode. O narrador felizmente não sabe se é verdade ou não. Não usa bigode. O bigode do porteiro tem um cheiro de tabaco africano, misto de café, nicotina e hiena morta. Mas é raro alguém aproximar-se dele ao ponto de ser capaz de distinguir estes odores. Nem todas as pessoas nascem com o olfacto tão apurado como o do nosso narrador. Portanto ninguém sabe que o bigode do porteiro cheira a tabaco africano. É apenas conhecido pelo “Doninha”, vá-se lá saber porquê.
Continuam a sair palavras musicais dos bastidores do palco muito moderno e arranjado. O clima paradisíaco permanece no ar. A menina que nos encanta com a sua voz melódica e doce é a filha do homem do talho, o senhor Albino, homem de faca e garfo, comida e roupa lavada, mulher dentro de casa e putas às sextas-feiras no Paraíso Quente. Os homens não são de ferro, “muito menos quando têm em casa um camafeu!”. A sua filha é loira e exibe orgulhosamente os seios muito bem implantados no corpo. Seios magnéticos como os Pólos. Chegam por vezes a enganar as bússolas. O próprio pai já uma vez se perguntou a si mesmo como conseguia conter-se diante de um “laticínio ambulante e lavadinho como aquele”. E há quem comente: “Melhor que a Agros ou a Mimosa!”. Mas pai é pai e já houve quem se lixasse por merdas semelhantes. Convém ter cuidado. Que o diga Édipo, apesar do caso ser diferente. Ela vai todos os Domingos à igreja e nunca se confessou porque nunca pecou. É a mulher mais casta da cidade e todos o sabem. Todos o sabem menos ela, pois é tão ingénua que nem chega a ter consciência do que é ser-se casta. Ela é a menina perfeita, quase tanto ou mais do que a Bárbie, porque essa, todos sabemos que dá umas boas cambalhotas com o Ken, se é que não o trai com o Pónei... mas o narrador não gosta de se meter na privacidade alheia. Acaba por aqui os comentários. Ela gosta de ser tratada por Lili mas o seu nome é Lúcia Batalhão Almeida.
- Sou uma alma transparente senhor abade.
- Não digo que não minha filha, mas tens que te confessar.
- Não necessito senhor padre. Ainda nem me passa pela cabeça bater punhetas ao filho do senhor Afonso, que trabalha na drogaria do pai, o senhor Celestino, quanto mais outro tipo de pecado, quer da carne quer da alma. Ainda sou muito nova para pensamentos desses.
- 25 anos minha filha... não és propriamente uma menina. Mas acredito em ti e que o senhor te acompanhe.
Entretanto, noutro local da cidade, não muito longe nem muito perto do local do centro da narrativa, o Álvaro Dias faz implantações capilares a velhas com mais de 60 anos. O Álvaro Dias é um químico bem parecido que ingeriu grandes quantidades de ar quente quando era criança e que arrota pedras pomes transparentes. Pelo menos assim o diz. A verdade é que lhe dava na cola e nos gases hilariantes. Arrota granito.
- Dá cá uma moca!
- O quê?
- O ar quente!
- Pois... o ar quente...
O senhor da portaria conhece muito bem o senhor Albino. Os homens com hormonas bailaricas costumam partilhar as mesmas putas. E toda a gente sabe que o melhor sítio é o Paraíso Quente. Todo o bom conhecedor vai lá parar e por lá se move. E move-se bem por lá. Há muito movimento. Tem altos e baixos mas muito movimento. Nunca se sabe se as consciências são malignas ou benignas mas está-se sempre à espera de o saber. Neste mundo existem coisas mais estranhas do que o olho da Maçonaria e os suspiros das mulheres. Ninguém confia muito naquilo que desconhece mas dá-se sempre o benefício da dúvida. Ninguém duvida que a consciência do senhor da portaria tem sido muito discreta. Ele nunca disse nada a ninguém das incursões nocturnas do senhor Albino, mas a todo o momento se espera que o faça. Também não lhe convém muito, apesar de ser solteiro, porque nunca fica bem a um porteiro andar nas bocas do mundo. E logo o mundo, que tem uma boca enorme.
- Senhor da portaria... o senhor não tem nada a declarar?
- Nada menina. Absolutamente nada. Sou ateu e pago as minhas contas às finanças. Que Deus me fulmine se lhe minto!
- Muito bem. Prossiga o seu trabalho.
As velhotas dizem muito bem das mãos e dos preparados capilares do Álvaro Dias e todas gostariam de o ter como cunhado. Mas o Álvaro está perdido de amores pela Lúcia Batalhão Almeida e prometeu a si próprio ser-lhe fiel até que o Sporting fosse novamente campeão. Teve azar pois no ano em que fez a promessa o Sporting foi campeão. E promessa é promessa e por isso tem que se cumprir o prometido e assim se cumpriu o prometido. Sem tirar nem pôr. Os prometidos e os seus cumprimentos por vezes são mesmo assim: complicados. Cumpriu a promessa com a Andreia Fonseca, filha da dona Albina Fonseca, a velha dos cabelos encaracolados e fracos, que trabalha no quiosque em frente ao teatro do palco muito moderno e arranjado e é conhecida por ser facilmente desviada para os aposentos dos homens carinhosos e ágeis nas palavras ou com algum dinheiro nos bolsos. Há quem lhes chame putas mas não é o caso desta. Ela isso não é, diga-se em abono da verdade. Para ela o sexo é um acto quase religioso. Costumava benzer-se antes de o praticar dizendo: “Isto é por ti Jesus, que já não fodes há mais de 2000 anos! Oh, sim! Espanca-me, espanca-me e vergasta-me como fizeram ao senhor! Com o chicote! Sim!”. Ela também vai aos domingos de manhã à missa e também não se confessa. Mas por motivos opostos aos de Lúcia. Ela tem contado mais pecados do que o número de dias da sua vida e tem medo que o padre a mande rezar o terço para o resto da vida. Ela tem fôlego, bom fôlego, muito bom fôlego, como o sabem muitos homens lá do sítio, mas não tanto ao ponto de passar o resto da vida a rezar.
- Tu a chupar não te cansas... mas para rezar não há fôlego!
- Ó senhor padre, não diga dessas coisas que me deixa embaraçada...
- Fala baixo menina. Melhor, não fales e chupa. Deus perdoa tudo minha filha, Deus perdoa tudo.
Na farmácia do centro da narrativa está o Ângelo Costa, o moço dos medicamentos, que é conhecido por facultar lenços de papel às moças que lhe aparecem a chorar no estabelecimento dizendo que os namorados as deixaram depois de as terem engravidado. Ele faculta-lhes os lenços de papel e promete ser um bom pai e diz que comprará este mundo e o outro às pobres infelizes. Convence-as que é tudo verdade e leva-as para os seus aposentos. Depois chuta-as para canto com uma pílula de aborto. O Ângelo Costa orgulha-se de ser o farmacêutico mais filho da puta à face da terra. Mas está enganado. Numa outra história, ainda não editada, há um farmacêutico bem mais filho da puta do que ele. Filhos da puta, de resto, é o que não falta por aí. A coisa que ele mais queria é que lhe passasse pela “máquina registadora”, como chama ao seu precioso instrumento de procriação, a doce e casta Lúcia Batalhão Almeida. Mas a essa nunca ele irá pôr os tomates em cima.
- Foda-se! Só me falta a filha da puta da doce e casta Lúcia! Essa é que era!
- Não querias mais nada!
- O pá... nem me fales...
- Não sonhes tão alto Ângelo!
- Se não for o sonho, o que será que nos consola nesta vida?
- Os tremoços!
- Ora nem mais! Vai mais uma bejeca?
Certamente estamos todos à espera que o narrador nos diga finalmente que o final da história une os personagens Lúcia Batalha Almeida e o químico Álvaro Dias, mas o narrador parece não estar muito interessado em finais felizes. Como por vezes se cansa das coisas a meio, resolveu cortar com a história que aqui é narrada com um meteorito que destruiu toda a terra, incluindo, claro está, os personagens aqui descritos, deixando apenas uma pena de pavão, com a qual foi escrita esta história, a bailar pelo vazio. Escusado será dizer que chegamos ao fim. Já foi dito.

Eight Miles High

Crosby, Stills, Nash And Young Lyrics

Eight miles high and when you touch down, you'll find that it's stranger than known.
Signs in the street that say where you're going are somewhere just being their own.

Nowhere is there warmth to be found among those afraid of losing their ground.
Rain gray town known for its sound in places small faces unbound.

Round the squares huddled in storms, some laughing, some just shapeless forms.
Sidewalk scenes and black limousines, some living, some standing alone.


O meu pijama Posted by Hello


A minha cama Posted by Hello

Pluri Culmoravit Maglorotziv (ou: O Visconde de Assis)

My name is Boss, Hugo Boss.
O meu nome é Frango, Albino Repolho de Frango. Venho de Penaguião para Santa Eulália e parei numa tasca de viagem para escrever umas linhas.
Tenho um par de formigas encantadoras que trabalham todo o dia só para me entreterem com a sua azafama, a sua maravilhosa sincronia laboral, labuta, labuta, lindos os bichinhos pequeninos, pretinhos e magricelas.
Tenho um par de rosas plantadas num vaso de marfim, vermelhinhas, ao rubro, com espinhos macios e petalas de se comer. Como-lhes as pétalas de 3 em 3 semanas e depois arroto perfumes.
Tenho um par de tornozelos com nome africano, o fundungo e o bilongo, ambos bilingues, ambos saudáveis, ambos crentes na indústria do calçado, aconchegados por botas Boss, Hugo Boss, pois o inverno pode ser traçoeiro.
Tenho um par de costoletas no forno e outro par de costoletas a lixar a cabeça de um tal de Adão. Alguém lhe disse que a maçã era um animal carnívoro ou algodo género e agora passa o dia todo a cuspir uma salgalhada de equações matemáticas.
Tenho um par de lontras gigantes, gordinhas e fofinhas, meigas o bastante, criaturas de pele de pêssego, amantes do mar e dos pinguins, esculpidas num monte de banha, lindas, lindas, manteiga concentrada em corpos desajeitados fora de água, lisos dentro dela.
Tenho um par de tartarugas amestradas que andam de bibicleta e comem pastilhas elásticas. Quando fazem cócó podemos ver uns pequenos balõezinhos a sair por trás delas, estoirando pouco tempo depois em pequenas nuvens amarelinhas.
Tenho um par de unhas importadas da índia, coisa rara, aparadas cuidadosamente por um hipnotisador de cobras reformado, homem de barba, pele e mente rijas.
Tenho um par de navios naufragados ao longo do Cabo Bojador, senhores das profundezas, controlam o tráfego de sereias das correntes frias, e servem de morada aos peixes desamparados de outras águas.
Tenho um par de neurónios que discutem entre si a todo o tempo e me fazem perceber que tudo o que possuo é uma ilusão, como um senhor uma vez disse, qualquer coisas a ver com cavernas... morcegos.. (seria?).
Tenho um par de mãos malandras. Escrevem e escrevem mas nunca dizem nada. Será por não terem boca?
Tenho um par de amigos que se estende a mais dedos quando os conto e dos quais me recordo porque deles tenho coisas, mesmo que vagas memórias como as minhas formigas, tornozelos, rosas e outras imagens arco-íris.
Plín!

quarta-feira, julho 14, 2004


Desenho2 (pormenor) Posted by Hello

terça-feira, julho 13, 2004

Verão, onde estás tu?

Pé aqui, pé acolá, o menino brinca pelas poças de água que nas rochas a praia aconchega.
"Ui que queima!"
Gaivotas e mar, bolas e raquetes, meninas bonitas e amigos para jogar futebol.
"Passa-me a bola ou não brinco mais!"
Fato de mergulhador, com pés de pato e tudo, tubo e óculos grandes a condizer.
"Gulp, glup, está salgada a água!"
Uma cana de pesca feita de um pau comprido que na praia dormiu, talvez uma peça perdida de uma barraca desafortunada, destruida pelos corpos agitados dos amantes.
"Vou apanhar um tubarão! E depois vou comê-lo todo para ser grande!"
Quantos metros terá o fundo do mar? Quantas pedrinhas há na areia? Quanto tempo tem que se esperar para o próximo banho? E o gelado?
"Hi! Aquela senhora tem as mamas à mostra!"
O Verão também é um verbo e por isso há tanto reboliço.
No princípio era o Verbo, e no Verão também.
"Bute para a praia!"


Municoes Para Um Dialogo (instalacao e fotografias...) Posted by Hello

Sem Título

Grita, grita, berra bem alto
Esfola as goelas com o que tens dentro
Atira pela boca o tempo que passa
Bolas de ping pong saltando para fora
Amassa os dentes nos sons que magoam
Revira as palavras e torna a morder
Fatia a fatia o bolo se come
A polpa de sangue é bem saborosa
Caiu no chão e fez um buraco
Um ácido vermelho e escorregadio
Semente do bem e também do mal
Insulta o surtido multi-sabor
Arco-íris redondo e multicolor
Fatias de pernas, de ouro torneadas
O chá verde lima escorrega bem
Esfrega o estômago e limpa o resto
Raquete na mão e olho atento
O chinelo no pé alivia o calor
A dor já se foi mas fica o resto
Nos dedos as unhas e cócegas macias
Pelas costas de mar se vai navegando
De ponta a ponta o olfacto melhora
Perfume leve de começo de dia
No estômago um brinde de bolo rei
Na forca o ladrão pede perdão
Vomita palavras com grande verdade
Na paragem vazia o autocarro espera
A gaveta aberta está cheia de pó
Os poros da pele abrem-se todos
Rede macia que apanha tão pouco
Tem um anzol escorregadio
Poucas imagens na vista fechada
Tambor sonolento mas ainda acordado
Lembra um amigo e uma mensagem
Eis a orquestra dos sons estridentes
A fechadura é dura e dura a chave
Tapete vermelho, branquinho o chão
Lagarta bonita mete medo ao menino
Ri com bravura e bate palminhas
Raquete furada e bola saltarica
Palavras bocejando no ouvido do outro
Ouve mas não entende e fica calado
Almofada fofinha na cama redonda
Fato de banho e luvas de boxe
Munições de amor só para amar
Pouco importa se o vento ajuda
Campo de trigo e espantalho fardado
Rigor de poeta e equações complicadas
Livros microscópicos para olhos miopia

2003

segunda-feira, julho 12, 2004


Desenho1 Posted by Hello

Sabedoria Infantil

SABEDORIA INFANTIL
* "Se gostavas de ter um cão, começa por pedir um cavalo." Luís - 13 anos
* "Nunca te metas com uma miúda que já te bateu uma vez." Pedro - 9 anos
* "Se a tua mãe esteve a discutir com o teu pai, não a deixes pentear-te." Sara - 12 anos
* "Se quiseres dar banho a um gato, prepara-te para tomares um também." João - 10 anos
* "Nunca se deve confiar num cão para guardar a nossa comida."Gonçalo -11 anos
* "Nunca entre numa corrida com os atacadores desapertados." André -12 anos
* "Quantos mais erros faço mais esperta fico." Inês - 8 anos
* "Há muitas coisas que a gente sabe e que as notas não dizem." Rita -10 anos
* "Quando as coisas estão escritas em letras pequenas é porque são importantes." Diogo - 10 anos
ATRACÇÃO FATAL
* "Não sei. Acho que é por causa do cheiro das pessoas. Por isso é que os perfumes e os desodorizantes são tão populares." João - 9 anos
* "Primeiro temos que ser atingidos por uma seta. Depois, deixa de ser uma experiência dolorosa." Helena - 8 anos
* "Se uma pessoa tiver sardas, ela vai-se sentir atraída por outra que também tenha sardas." André - 6 anos
A IDADE CERTA PARA CASAR
* "Aos oitenta e quatro anos, porque nesta idade já não precisamos de trabalhar e podemos passar o dia inteiro a namorar com a outra pessoa." Júlia - 8 anos
* "Eu vou-me casar assim que sair do infantário." Tomás - 5 anos
SOLTEIRO OU CASADO?
* "As raparigas devem ficar solteiras. Os rapazes devem casar-se para terem alguém que lhes limpe a roupa e lhes faça a comida." Catarina - 9 anos
* "Fico com dor de cabeça só de pensar nesse assunto. Sou muito pequena para pensar nesses problemas." Lina - 9 anos
* "Uma das pessoas deve saber preencher um cheque. Mesmo que haja muito amor, é sempre necessário pagar as contas." Eva - 8 anos
MANTER UMA RELAÇÃO
* "Passar a maior parte do tempo a namorar em vez de irmos trabalhar." Tomás - 7 anos
* "Não esquecer o nome da namorada. Isso estragava tudo!" Ricardo - 8 anos
* "Pôr o lixo lá fora todos os dias." Guilherme - 5 anos
* "Nunca dizer a uma pessoa que se gosta dele se não for verdade." Pedro - 9 anos
* "Não tem a ver com sermos bonitos ou não. Eu sou bonito e ainda não encontrei ninguém para casar comigo." Ricardo - 7 anos
TÁCTICAS INFALÍVEIS
* "Diz a toda a gente o quanto gostas dela. E não te importes se os pais dela estiverem ao pé." Manuel - 8 anos
* "Levá-la a comer batatas fritas costuma funcionar." Bernardo - 9 anos
* "Eu gosto de hambúrgueres e também gosto de ti." Luís - 6 anos
* "Abanamos as ancas e rezamos para que tudo corra pelo melhor." Carla - 9 anos
AMOR
* "O amor é a melhor coisa que existe no mundo. Mas o futebol ainda é melhor!" Guilherme - 8 anos
* "Sou a favor do amor, desde que ele não aconteça quando estão a dar desenhos animados." Ana - 6 anos
* "O amor encontramos mesmo quando nós tentamos nos esconder dele. Eu fujo dele desde os 5 anos mas as raparigas conseguem sempre encontrar-me." Nuno - 8 anos
* "O amor é a loucura. Mas quero experimentar um dia." Fábio - 9 anos

Da Ultima Exposição

Munições para um diálogo III
Hugo Santos 2004


(...) Milagres a toda a hora. A vida fervilha por todo o lado. Chuvas de palavras, palavras de creme, palavras de seiva, palavras de semente, palavras de bolas de ping-pong, e ainda cabeças de raquete, cabeças de água, cabeças de líquido, líquido em condensação, evaporando-se, sumindo-se no espaço, deixando de ser, perdendo-se no tempo, reencontrando-se na catástrofe. Há revoluções no mundo a todo o momento. E assim se fazem os verbos: um estado que deixa de ser a todo o instante, de ter sido, passa a ser para vir a ser... e nada é como dantes, sendo o que sempre foi.
(...) Tenta soletrar palavras mas elas enrolam-se na boca como se as estivesse a engolir. São as palavras chiclete. Vêm acompanhadas de um sabor amargo, como se o organismo não quisesse que elas saiam, e dessa forma arranjasse uma autodefesa. Sabem a qualquer coisa ácida e queimam como ferro em brasa. A saliva é inexistente, e a boca está muito seca. Os dentes trilham-se mutuamente como se estivessem em guerra. A língua tem espasmos que a paralisam. Os pensamentos parecem estar condenados a existir unicamente na sua mente. Não se materializam.
(...) Ele vem aqui mais uma vez despejar palavras pelos dedos fora, pelos poros da mão, do corpo, da cabeça, das bolas de ping pong que andam sempre a saltitar por dentro, a tentar sair, chegar ao outro lado, jogar. Não consegue reter-se numa linha, nem num plano e infelizmente muito menos num ponto transparente. Relatos de coisas, coisas relatadas a medo, dedos de agulha de gira discos. Cantar por dentro para dentro não é solução. Cantar de dentro para fora não é viável. Há sempre qualquer coisa pelo meio, um obstáculo, uma regra qualquer que se impõe na não-comunicação. Cala-se a boca mas apenas a boca. Formigam centenas e centenas de verbos num único momento aparentemente parado e nada se mantém como era e nada será como é e tudo assim paira pelo espaço numa convergente vontade de união. Faltam-lhe engenho e arte, faltam-lhe tempo e vontade, falta-lhe parar no tempo como os novos efeitos cinematográficos. Faz falta um sofá, um sítio de repouso, uma cama ampla do tamanho da casa, uma casa cama, uma cama casa, um espaço onde se está em paz, um colo em forma de cama, uma cama em forma de colo, um cobertor quente como um corpo, um corpo cobertor. Lá longe planam pássaros alheios a tudo isto, noutras planícies, noutras terras distantes mas o tempo em que existem é o mesmo, um e só momento em movimento, um só corpo enroscando-se em si próprio, voltando ao ventre materno, frase feita. E ainda, ouve-se: If you're travelin' in the north country fair Where the winds hit heavy on the borderline Remember me to one who lives there She once was a true love of mine. Vive de ilusões construídas para encantar os sonhadores como as sereias encantam os navegadores. A arte é uma roda de rato onde se enrolou e por lá ficou. É semelhante a uma roleta mas não tem apenas números mas também palavras e cheiros e cores e sons e tudo o mais que se sabe existir. Um mundo na sua plenitude de infinitas aparências. Há ali um balde cheio de palavras que está furado. É por lá que deixa escapar o que desesperadamente tenta dizer. O tempo não pergunta quantas vezes se repete. E a catástrofe ainda não veio.

...a catástrofe ainda não veio.


...ainda não veio.



...não veio.




...veio.


.

(in Entre o Nada e a Catástrofe, um livro a sair brevemente...)