Comunicar
Analisar uma fotografia é coisa fácil, coisa técnica, coisa de cientista. Requer alguma capacidade de observação e alguma retórica, o que comunmente se chama "bom gosto". Dizer que se analisou bem uma fotografia é demonstrar o quão importante uma "análise" (no sentido científico que a palavra adquiriu) pode ser. Nesse sentido, "analisaste bem a fotografia", parece uma frase altamente académica.
Cada vez mais me interesso pelas questões da linguagem, uma vez que esta é anterior a qualquer manifestação de comunicação, ou seja, antes de se escrever, antes de se pintar, antes de qualquer processo comunicativo, o homem teve nessecidade de desenvolver o campo significativo, no sentido de dar às imagens, sensações e sentimentos, a sua correspondente na ordem das ideias.
Há questões, como a tal metáfora da cebola, que estão numa camada mais superficial e outras que estáo mais interiores. Uma camada superficial numa imagem será o seu primeiro impacto, que normalmente passa pela cor, ou ausência dela, depois pelas imagens figurativas que lá estão (com maior ou menor grau de reconhecimento no mundo "dito" real), depois a composição, sendo a organização simétrica a mãe de todos os arranjos espaciais. Tudo poderá ser importante, tudo é importante, mas secundário quando sabemos a receita. No campo da estética há receitas que resultam, há formulas. Mas também no campo da filosofia, da poesia, das artes mais directamente associadas ao pensamento (devido à sua forte ligação à linguagem oral e escrita, que infelizmente são privilegiadas na nossa sociedade, excluindo muitas das vezes as outras formas que focam os outros sentidos, audição, olfacto, etc...)
Um dos mal entendidos com o quais normalmente me deparo, para além de ter um pensamento algo "saltitante", é o facto de parecer ter a "mania". Tenho a certeza que muitas das vezes essa sensação passa pela forma como formalizo (passo o pleonasmo) o meu discurso, tanto verbalmente (com voz ligeiramente mais alta), como na escrita. Tento sermpre analisar a escrita e o que cada palavra quer dizer, pois ser "complexo" não é o mesmo que ser "complicado", e muitas vezes usa-se uma palavra em vez da outra.
Para finalizar, e provavelmente quando ler isto modificarei, acrescentarei coisas, a discussão acerca da imagem não era sobre a imagem (directamente) mas sobre a forma como se capta uma imagem e a forma como se observa uma imagem. Já não me interessa tanto (há já algum tempo) saber se a imagem está bem feita, bem composta, organizada, correspondendo a todos os canones de beleza, banhada na purificação do rectangulo dourado ou de ouro, ou no círculo perfeito, mas algo que já escapa a isto tudo. Esse "algo" é qualquer coisa que passa para a ordem da necessidade, da vontade de comunicar, ou seja, dos impulsos comunicacionais, das uniões da alma através da alma. Não estou a conseguir explicar-me. É sempre tanto para dizer para tão pouca capacidade de a saber transmitir...
» Questiono-me porque faço imagens e não tanto a forma como as faço.
» Questiono-me porque vejo imagens e não tanto a forma como as vejo.
Em que medida uma imagem serve verdadeiramente o espírito e não o gosto?
Kant distinguiu muito bem o Gosto do Belo, dizendo que o primeiro será sempre o encontro entre uma coisa que se gosta e outra que corresponde a esse gosto do género: Eu gosto de vermelho, logo, este quadro é vermelho, por isso gosto deste quadro/a comida deve estar com determinada quantidade de sal, logo, esta comida precisa de mais sal; e o segundo está na capacidade de nos surpreender, de nos paralisar, de reconfigurar a nossa percepção, de não ser explicavel, mesuravel, ser uma sensação que pecorre todo o corpo semelhante ao orgasmo, e na medida em que é totalmente nova, sempre diferente. O Belo de que Kant fala é como um dos predicados dados pelo Oscar Wild no "Retrato de Dorian Gray" acerca da arte: "toda a arte é completamente inútil". Toda a arte é inútil no sentido em que só tem utilidade para o espírito, e este nunca é mesuravel. Quem não percebe o paradoxo não consegue conceber esta frase. Paradoxal é ser tão plenamente vazio que mais cheio não se pode estar. É ser-se vazio ao mesmo tempo que se está cheio e não ser-se vazio porque não se está cheio. O paradoxo não é oposição, é convívio entre opostos, é a união da oposição, por isso gosto tanto de Agostinho da Silva, pois foi ele quem me explicou o que eu próprio já sentia mas não conseguia explicar.
Já me perdi, mas não interessa pois dessa forma encontro-me como fragmentado, vejo-me como perdido e sei onde estou. Só podemos ter noção de estarmos perdidos por sabermos onde nos encontramos, e sabermos que não era quele o sítio onde nos queriamos encontrar. Estar perdido é isso. Por isso posso dizer: NÃO ESTOU PERDIDO, APESAR DE NÂO SABER ONDE ESTOU.











