Rosmaninho e Alecrim pelo chão

Um caminho dourado por Midas, queimando à passagem os pés descalços dos desterrados

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Localização: Porto, Porto, Portugal

Hugo André Barbosa Carvalho dos Santos. Nascido a 15 de Abril de 1978. Curso de Pintura da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Curso de Artes Gráficas da Escola Secundária de Soares dos Reis. Curso de Formação Pedagógica Inicial de Formadores. Curso de Desenho Assistido por Computador como Conteúdo Multimédia. (Dreamweaver, Flash, AutoCad, 3D Studio Max, Photoshop) Bolseiro Erasmus 2000/2001 (Faculdade de Belas Artes do País Basco). Frequentou 2 cursos de verão do CPCIL (Centro Português para a Criatividade Inovação e Liderança). Frequentou 2 Workshops de teatro na FBAUP em 1999 e 2000. Membro da ARGO (Associação Artística de Gondomar) desde 1993. Membro do CCTEG (Centro Cultural de Teatro Experimental de Gondomar).

terça-feira, abril 03, 2007

O tempo não pergunta quantas vezes se repete

Não quero que me tragam flores de cores e cheiros
Neste dia cinzento de primavera.
No nevoeiro denso da madrugada, surge a vontade
De desaparecer para terras do além.
Tudo isto é poesia, eu sei, talvez mentira.
Mas a vontade permanece.

E o poema continua por escrever.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Sobre o ABORTO (E considero-me CRISTÃO...)

Mais uma vez a Igreja católica prova-me estar, em muitos aspectos, longe da doutrina cristã.
O problema da DESPENALIZAÇÃO do aborto é novamente levantado e vai novamente ser referendado, pese embora uma maioria parlamentar que o podia aprovar, mas entende-se que não o queira fazer por ser assunto tão polémico.
Os argumentos são novamente esgrimidos, de ambas as partes, quer dos defensores da penalização (que se dizem defensores da vida) e os defensores da despenalização (apelidados pelos outros de defensores da morte).
Não me preocupo tanto com os supostos “defensores da vida” serem contra o aborto, até porque há muitos “defensores da morte” que também o são. Eu, por exemplo, não sou favorável ao aborto mas sim à sua despenalização, o que é substancialmente diferente. Não percebo porque os supostos “defensores da vida” se alegam assim apenas por estarem a favor de uma penalização, quando o que se trata é de despenalizar e não de incentivar à prática do aborto. Tudo isto é até aceitável, dada a ignorância de muita gente habituada a confundir questões, a ser hipócrita e a fechar os olhos.
O que não me parece aceitável é o facto da Igreja católica se colocar numa posição anti-cristã, em suposta defesa da vida. Não acredito que Jesus, se tivesse oportunidade de se pronunciar diante de tal referendo, escolhesse PENALIZAR, mandar para a PRISÃO, mulheres por praticarem o aborto, e tapasse os olhos à quantidade enorme de abortos que se fazem clandestinamente por ano, muitos deles em clinicas privadas, sendo 10% dos abortos feitos em Madrid praticados sobre mulheres portuguesas... A igreja escolhe a PUNIÇÃO como forma de educação, forma de controlo da moral dos seus rebanhos. Mesmo que não escolha directamente a PUNIÇÃO, ao por-se ao lado dos defensores do NÃO, está ao mesmo tempo a aceitar a lei vigente, a PRISÃO das mulheres que abortam.
Não me parece uma postura CRISTÃ.
Aconselho toda a gente uma mente atenta, à procura, e preocupada com a verdade das coisas e não com os olhos vendados ou tapados pelas próprias mãos para não ver. Mesmo que optem pela penalização, tenham consciência das suas implicações.

The Sun is not yellow, its a chicken!

















Diz o Bob Dylan numa das letras do Highway 61 Revisited

terça-feira, setembro 19, 2006

Se fossemos todos santos...

Como o apóstolo São Tomé se recusou em acreditar na ressurreição de Jesus, o Senhor o repreende carinhosamente: "Tomé, porque viste, acreditaste: bem aventurados os que acreditarão, mas sem ver" (João 20,29).

terça-feira, setembro 12, 2006

Um ultimo passeio...

Um pé
Depois o outro.

Pés são dois.
Quatro se for um par.

Passeio de pés.
Quatro pés marcando o passo.
Passo a passo os passos são dados
Juntos dos passos ao lado marcados.

Passeio de pés
De quatro pés passando
Lá longe,
Tão longe.

A minha cabeça explode aqui
Com apenas os seus dois pés.

E tudo o resto está parado.

quarta-feira, agosto 30, 2006

Peoma

Capicua

Dizem-me para me preparar para o pior
Porque o pior ainda está para vir.
Para eles (nós) o pior nunca vem,
O pior está sempre na eminência de vir,
O pior é sempre pior que o pior,
Porque o pior de agora pede que se aguente o pior que vem a seguir
Que acaba por nunca vir porque o pior que vem não é o pior.

Nunca se diz que este é o pior.
Nunca se descansa sabendo que este é o pior
E que não há pior, pior do que este pior.
Existe sempre o espectro de um pior-pior
Uma sombra que prolonga o pior até ao infinito.

Nunca sentimos a libertação de saber que este é o pior,
O prazer de ouvir alguém dizer que este é o pior dos piores,
Que não vem outro pior,
Nenhuma sombra,
Nenhuma brisa,
Nenhum prenúncio de pior,
Nenhum outro estado lastimável pior que este,
O pior.

Este pior é semelhante à inquietação do José Mário Branco
Á inquietação do António Variações
Ou do Álvaro de Campos.
É qualquer coisa que nunca será
Mas que é sempre, ao mesmo tempo.

É uma espera sem descanso.
Uma espera infinita.
Pois diante do pior não o reconhecemos,
Diante do pior pedimos que outro pior não venha,
Outro pior ainda que este,
Que por ainda não ter vindo atenua os danos que este traz,
Os danos que este cava, à espera do outro pior.
Mas a sorte é madrasta e ao mesmo tempo vem a angústia
De saber que este pior não é o pior
E há outro que pode vir.
Destrói-se a esperança de saber que este pior é o último
E que não vem outro pior a seguir.

Dizem-me para me preparar para o pior
Mas estar mais preparado do que saber que o pior não existe
É impossível.

Hugo Santos 27-08-2006

Pessoa

TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê –
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928
(Fernando pessoa)

terça-feira, julho 25, 2006

Sun Is Shining

Look at the shining Sun

domingo, julho 16, 2006

Naked In The Rain

Crosby & Nash Naked In The Rain lyrics

Crosby & Nash Naked In The Rain lyrics

music: David Crosby
words: David Crosby and Graham Nash
1975 Staysail Music (BMI)

The clown sat speechless, looking in his mirror
unable to remember how to paint his face
Staring at the image, slowly getting clearer
Wondering if his fear or his heart would win the race
When it dawns on you
what it takes from you
living under clouds of pain
there’s a storm in you
you don’t know what to do
Just when you think you’re going insane
you lie naked in the rain
Fluttering pages of faces
no two alike
Choice is your soul’s moment
for its light to strike